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Cleiton Pereira


O falido sistema de transporte público de Camaçari



Há muito tempo a população de Camaçari clama por melhorias no Sistema de Transporte Público Coletivo e Individual de Passageiros (STPCIP), que nunca foi olhado com uma visão de modernidade, que uma cidade metropolitana, do porte e com a renda que Camaçari tem merece. Esse “abrir de olhos” para enxergar as dificuldades que os passageiros deste sistema falido enfrentam no dia a dia de seus deslocamentos para o trabalho, estudos e outras necessidades, só iniciou-se, de fato e de direito, a partir do ano de 2017 com uma série de intervenções e ações estratégicas para realização da indispensável licitação do Transporte Público Coletivo (TPC).


Ônibus velhos, sucateados, quebrados, sujos, que demoram de passar nos pontos e de chegar nos seus destinos são algumas das principais reclamações dos clientes (chamados de usuários) deste sistema. Além disso, para completar as queixas, os clientes que utilizam o transporte público da cidade também reclamam muito do tratamento que lhes são dados por motoristas e cobradores dos ônibus.


Em 2017, com a início de um novo governo, na gestão do atual Prefeito Antônio Elinaldo (DEM), a Prefeitura, através da Superintendência de Trânsito e Transporte Público (STT), dirigida pelo experiente administrador Armando Yokoshiro Filho, que deixou o Gabinete da TranSalvador para compartilhar as experiências bem sucedidas na capital baiana com a população camaçariense, deu-se o “start” na recuperação do sistema de transporte público, em especial o coletivo, que claramente não seria uma tarefa fácil, diante de tantos problemas de infraestrutura, logística e normatização deixados pelos governos anteriores.


Uma das principais queixas do Transporte Público, que era o atraso dos ônibus nas linhas existentes, teve entre suas causas identificadas a ausência de pontos de paradas de ônibus regulamentados (sem placas). Sendo assim, os ônibus paravam em qualquer lugar, inclusive no meio da rua, para embarcar os passageiros espalhados a cada 20 ou 30 metros, entre uma parada e outra. Fazendo uma “cata” de passageiros, estendendo consideravelmente o tempo das viagens. Esse problema de infraestrutura foi resolvido pela atual gestão, a partir da realização do georreferenciamento de todas as linhas e seus pontos de paradas de ônibus, que hoje contam com a sua identificação através de sinalização vertical (placas) e horizontal (pintura na via), a substituição e implantação de mais de 130 abrigos de ônibus novos, na Sede e Costa de Camaçari.


Outro problema identificado que gerava muito atraso nas viagens era a quantidade de ondulações transversais (quebra-molas) existentes no trajeto das linhas do transporte. A partir do mapeamento e verificação destes quebra-molas, foi identificada a necessidade de remoção daqueles implantados clandestinamente por populares e outros implantados por governos anteriores de modo irregular. Houve casos de redução de 50% dos quebra-molas em um único bairro, como ocorreu no Jardim Limoeiro, melhorando a circulação de veículos, o conforto dos passageiros e, sem acarretar aumento de risco na segurança viária.


A gestão da STT também se reuniu no órgão e nas garagens com os diretores e operadores das cooperativas e empresa autorizados há anos para explorar o sistema de transporte, solicitando que melhorassem o tratamento dado ao público, em especial a Idosos e Pessoas Com Deficiência (PCD), as condições de higiene, de segurança e o estado de conservação dos veículos. Porém, todas as medidas adotadas, claramente não foram suficientes para sensibilizar os responsáveis pelas cooperativas e empresa autorizada, que visavam unicamente o aumento das tarifas do transporte. Ou seja, o lucro! E, nessa linha de ganhar o máximo fazendo o mínimo, deram espaço para o fortalecimento do transporte clandestino, chamado “carinhosamente” em Camaçari de “ligeirinho”.


Mesmo sendo uma atividade ilícita em todo o país, o transporte clandestino de passageiros realizado através de automóveis, até o primeiro semestre de 2017, em virtude da omissão do poder público municipal e estadual tinha ganhado viés de algo regular, com a criação de cooperativas para transporte clandestino, utilização de fardamento e plotagem de veículos, além de pontos localizados no Centro, na Orla e bairros adjacentes. O que é um absurdo! Porém, a população sofrida e maltratada no transporte público coletivo, viu no “ligeirinho” a [falsa] salvação. Estes, por sua vez, vão ao encontro do passageiro, carregam até as suas compras de mercado, colocam nas malas e, como diz o próprio apelido, são ligeiros. Como eles não tem nenhum cadastro na prefeitura, não tem regulamento e nem fiscalização específica, criam suas próprias rotas, seus próprios horários, muitos não param nem nos semáforos, realizam várias manobras proibidas, colocando a própria vida e a dos usuários (neste sistema os passageiros não são clientes) em risco.


Com a chegada em junho de 2017 de um reforço especial, com a nomeação do soldado da Polícia Militar Marcos Moreira para o cargo de Diretor Técnico de Trânsito deu-se início ­­­ao combate efetivo do transporte clandestino na cidade, determinando previamente o aumento da frota de ônibus em operação, para atender ao público de passageiros que deixariam de ser cooptados pelos clandestinos, em vários pontos e locais utilizados por estes. Apesar do planejamento e ampliação da frota, as condições dos ônibus não contribuíram para o sucesso das ações. Uma vez que estes apresentavam defeito, faltavam combustível ou quebravam no meio do caminho. Sendo também alvo da fiscalização do órgão, que removeu ao pátio e aplicou multas por essas razões.


Com todas estas constatações, diante do alto índice de reclamações dos clientes do transporte público, incluindo os vários registros feitos através da ouvidoria da Prefeitura e da STT, bem como que nunca existiu licitação para exploração do transporte em Camaçari e esta é uma obrigação legal, não restou outra alternativa para possibilitar a população um transporte público de qualidade a não ser o início do processo para realização da licitação do transporte público.


Ao invés das operadoras do transporte “acordarem” para ver suas deficiências, preferiram buscar “padrinhos” políticos e manobras jurídicas para se manterem da mesma forma precária. Assim como os integrantes do transporte clandestino, dentre eles alguns ex-candidatos e apoiadores de políticos, buscaram (e conseguiram) interferência política para cessar as ações. O primeiro a ser atingido pelo “fogo político” de vereadores, servidores e agentes públicos (que viu nas irregularidades do sistema uma oportunidade para ganhar dinheiro) foi o Diretor de Trânsito Moreira, que por ser estritamente profissional e honesto ganhou um forte coro político para ser exonerado do cargo. O que foi atendido em abril de 2018. Contudo, como as intervenções para melhoria do transporte público e combate ao transporte clandestino continuaram, mesmo que enfraquecidas, a pressão foi direcionada em cima do Superintendente Armando Yokoshiro.


Após a implantação do sistema de Integração Aberta em novembro de 2018, que tinha como obrigação as cooperativas e empresa o rastreamento da frota em tempo real, a ser disponibilizada para a população através de aplicativo gratuito, onde o passageiro passou a pagar uma única tarifa para se deslocar de um bairro A para um bairro B, não atendido por uma linha direta, sem precisar ir até o Terminal de Integração Rodoviária (TIR), podendo desembarcar em qualquer ponto para pegar o outro ônibus através do CamaçariCard, com tempo intervalo de 1 hora. Essa modificação enfrentou bastante resistência das cooperativas, que “sabotaram” a Integração Aberta durante os primeiros meses, para forçar o aumento da tarifa mais uma vez. Esta situação, aliada a outros fatores políticos e interesses escusos, resultaram na exoneração do Superintendente Armando, em 1º de janeiro de 2019, após 2 anos de sua chegada ao órgão, encerrando neste momento o ciclo de uma gestão técnica, para o retorno de uma gestão totalmente “política” do órgão de trânsito e transporte do município, nos moldes já vivenciados nas gestões dos ex-prefeitos petistas Ademar Delgado e Luiz Caetano. O que obviamente retrocede os avanços alcançados até aqui e jogou um balde d’água no processo de licitação em curso, que tinha previsão de lançamento do edital no primeiro semestre de 20019, para contratação de empresa(s)/consórcio para operar com ônibus novos, confortáveis, com ar-condicionado, rastreamento em tempo real, com boas condições de higiene, com tarifa acessível e regras definidas para organização, controle e fiscalização do município.


Mas não se enganem! Enquanto a população está insatisfeita com esse sistema falido de transporte público, tem muita gente comemorando agora a continuidade dele, pelo lucro que estão tendo, sem o conhecimento do povo e a garantia política de não perturbação, por qualquer um, incluindo do próprio governo. A regra é clara: se não for conivente com este sistema, está fora!


Cleiton S. Pereira cleitonmpe@hotmail.com  é agente de Trânsito, consultor de trânsito e transporte, com especialização pela UFBA, graduando em segurança pública e  ex-chefe de gabinete da Superintendência de Trânsito e Transporte Público de Camaçari


Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade do autor


 
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