Busca:

  Notícia
 
WALDECK ORNÉLAS NO COLUNISTAS: A Ferrovia Centro Atlântica


Waldeck Ornélas é especialista em planejamento urbano-regional

NÃO, à extensão do contrato da FCA!


Era só o que faltava: depois de dez anos de análise do pedido de renovação antecipada da Ferrovia Centro Atlântica (FCA), cogita-se agora não a conclusão do processo, mas a extensão do atual contrato de concessão por dois anos... para permitir o encerramento da análise.


Tal encaminhamento, se consumado, refletirá o suprassumo da autossuficiência do establishment burocrático, o coroamento da ineficiência administrativa, o descaso para com a sociedade, a falta de compromisso com o desenvolvimento, o desdém com os interesses do país.


Mas esta é exatamente a cogitação de que nos deu notícia a Folha de São Paulo (https://folha.com/js758gym), em 15/1/2026, ante o vencimento da concessão atual em 30 de agosto próximo.


O estamento burocrático do poder público brasileiro teve todo o tempo do mundo para avaliar o pedido inicial da empresa – que era desastroso –, dizer o que deve ser o interesse público, negociar novas bases com a concessionária e aceitar ou não a renovação antecipada do atual contrato de concessão. Empurrar com a barriga a solução do problema – por longos dez anos – para, ao fim e ao cabo, corroborar com a inércia, constitui mais do que descaso, falta de compromisso e responsabilidade. É crime de lesa pátria. Precisa ser apurado pelo Ministério Público e denunciado à Justiça.


Ninguém foi pego de surpresa, para dizer, agora, que não há tempo para concluir o processo. O que há é clara negligência. Ou, pior, será conivência, cumplicidade ou complô?


Até porque a legislação obriga que o Poder Concedente dê início aos estudos para uma nova concessão com dois anos de antecedência em relação ao término do contrato em vigor. E, segundo consta, o procedimento foi aberto tempestivamente, tendo a Infra – estatal de suporte técnico ao Ministério dos Transportes – sido acionada para realizar os estudos necessários. Já deve, portanto, o governo contar com as alternativas técnicas à sua disposição e poderia tê-las acionado a tempo.


Felizmente, o Ministério dos Transportes, segundo a matéria, parece ainda apostar na conclusão do processo em tempo hábil, embora não tenha mais controle sobre os prazos, por depender inclusive de agente externo.


Aspecto curioso, aliás, é o que se tornou a participação do Tribunal de Contas da União (TCU) nesses processos administrativos. O TCU é órgão de controle externo, auxiliar do Poder Legislativo na fiscalização das contas públicas. Não integra o Poder Executivo, nem deve participar do seu processo decisório.


O fato de que o art. 70 da Constituição – que apoiei como constituinte – tenha atribuído ao sistema de controle, interno e externo, competência para a fiscalização operacional das ações governamentais, as atividades de controle externo que sejam realizadas ao longo do andamento dos processos administrativos não deveriam nunca implicar em postergação de decisões e do cumprimento de prazos, mas realizarem-se de forma simultânea e paralela, não sucessiva – como, por conveniência, virou prática –, nem como parte obrigatória do processo decisório. Por óbvio, tornou-se uma espécie de habeas-corpus preventivo do estamento burocrático quanto à regularidade das decisões e dos procedimentos. Significa, no entanto, desvio de finalidade do sistema de controle externo, que agora se sente à vontade para interferir na gestão pública e até no Banco Central.    


O que deve prevalecer sempre e importar mais é o mérito das questões. E este é que está sendo negligenciado.


Certamente o sentimento de indignação e revolta que move os baianos não é o mesmo de outros estados onde a concessionária possa estar operando com eficiência o mesmo contrato, que abrange mais de 7.000km de ferrovias no Leste brasileiro.


Estender o atual contrato é premiar a ineficiência, a negligência e a irresponsabilidade com que a concessionária tratou a malha baiana ao longo dos últimos trinta anos e prolongar por mais dois anos a agonia da economia do quarto mais populoso estado da federação!


Tudo no âmbito de uma estratégia empresarial à qual só interessavam cargas de minérios, deixando de lado os grãos, os fertilizantes, a carga geral e até mesmo o transporte de combustíveis. Na Bahia, a antiga malha ferroviária foi deixada ao léu, deteriorando-se progressiva e continuamente, até chegar ao ponto em que se encontra, com a própria concessionária devolvendo trechos que antes tinham vitalidade econômica, comprometida pelo seu desinteresse em explorá-la. 


Qualquer que venha a ser o desfecho, este caso precisa ser objeto de escrutínio acadêmico, face ao descaso com que a sociedade, a economia e a responsabilidade são deixadas à margem por um serviço público que dá mais valor às suas próprias regras operacionais do que ao retorno, à entrega e à resposta à sua razão de existir. Mais do que isto, requer iniciativa legislativa capaz de corrigir os rumos de uma ordem burocrática que coloca os processos e as rotinas acima do interesse social e do bem comum, como prevalece hoje no país e que não está sujeita a qualquer sanção ou controle social.


A esta altura dos acontecimentos – ainda que seja ruim – a melhor das alternativas tornou-se a renovação antecipada da concessão. Nunca a extensão do contrato vigente, que, aliás, não traz qualquer obrigação de investimento.


Waldeck Ornélas waldeck.vo@gmail.com é especialista em planejamento urbano-regional. Autor de “Cidades e Municípios: gestão e planejamento”. Foi senador, ministro da Previdência e secretário de planejamento do estado


Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade do autor

30julho2026

Mais Notícias

Taxa de desocupação tem queda no trimestre abril/junho e Brasil soma 5,9 milhões de desempregados
PAULO ORMINDO NO COLUNISTAS: Sentados num barril de pólvora
WALDECK ORNÉLAS NO COLUNISTAS: A Ferrovia Centro Atlântica
Programa Desenrola de negociação de dívidas é prorrogado até 31 de agosto
Pesquisa mostra que Lula segue com reprovação maior que aprovação
Piora da percepção das famílias sobre economia faz índice de confiança cair em julho
LUIZ CARLOS AZEDO NO COLUNISTAS: Uma conexão perigosa
COLUNA CAMAÇARICO
Camaçari perde cerca de R$ 560 milhões com tarifaços de Trump
Bahia está entre os estados onde abastecer com etanol ainda é vantajoso


inicio   |   quem somos   |   gente   |   cordel   |   política e políticos   |   entrevista   |   eventos & agenda cultural   |   colunistas   |   fale conosco

©2026 Todos Direitos Reservados - Camaçari Agora - Desenvolvimento: EL