O que dizem os nomes de nossas ruas
Os nomes das ruas de Salvador descrevem muitas coisas. Para o escritor Luiz Eduardo Dorea elas contam a história da cidade. Para outros, os costumes sociais e para os poetas, como Bandeira, suas lembranças de infância. Salvador tem nomes lindos de ruas, que seus Pré-feitos não conseguiram trocá-los para Dr. Fulano de Tal.
Nomes de estados da alma, como Aflitos, Preguiça, Paciência, Soledade, Piedade, Perdões e Misericórdia. Quando cresci descobri que estes nomes amargos eram de conventos que vendiam sequilhos e pastéis doces e licores.
Outros logradouros evocam locais de preces, como a Rua da Oração, Cruzeiro de São Francisco, Cruz do Pascoal, Canto da Cruz, Cruz da Redenção, Rosário e Largo dos 15 Mistérios, um nome mágico.Também ligados às igrejas há praças mais alegres, como Boa Viagem, Graça, Saúde, Vitória, e até Paraíso.
Também tivemos aqui os reflexos da Inquisição, com um Aljube para punir padres liberados e um gueto, a Mouraria, onde se segregava juntos mouros e judeus, como nas pequenas vilas portuguesas, embora Cid Teixeira afirma, sem provas, que o bairro era um acampamento de ciganos. E temos o Desterro, onde não por acaso viviam os judeus.
A presença dos islâmicos foi muito forte em Salvador com os escravos Malês, que lideraram uma revolta libertária em 1835. Conservamos ainda nomes como Mesquita dos Barris e Rua dos Algibebes, no Comércio, de alforriados que negociavam brechós e quinquilharias baratas.
Muitos logradouros e bairros de Salvador têm nome de acidentes naturais, como Alagados, Alto do Cabrito, em Plataforma, Barroquinha, Lapa, Conceição da Praia, Dique e seu Sangradouro, Ribeira, Rio Vermelho, Ponta do Padrão, Porto da Barra e nomes poéticos de plantas, como Rua das Flores, Cajazeiras, Jenipapeiro e Mangueira.
Nomes pitorescos dos logradouros estavam ligados à sua função como, Baixa dos Sapateiros; Becos dos Calafates, no Comércio, e do Mingau, no Sodré; bairro dos Barris, ligado à fonte do Tororó; Caminho de Areia; Campo da Bola, em Cosme de Farias; Ladeiras da Montanha, das Hortas, em São Bento, da Lenha, no Bonfim, e do Molambo, em Brotas; Largos dos Dois Leões, da Quitandinha do Capim, em S. Antônio de Além do Carmo, Sete Portas; Rua do Carro em Nazaré e, no Centro Histórico, as Ruas do Açouguinho, do Mocambinho, do Passo, do Tijolo e do Tira Chapéu.
O velho Juventino Silva e seu cunhado, Manoel Dias da Silva, compraram, no início do século passado, a Fazenda Pituba com a intenção de lotear e esboçaram o Plano Cidade-Luz. Para o seu desenvolvimento contrataram o Eng. Teodoro Sampaio que levantou a área e desenhou suas ruas em 1919 e as aprovou em 1932. Às transversais da Avenida Manoel Dias da Silva, espinha dorsal do bairro, foram dados nomes dos estados. De quem foi a ideia? É um dos 15 mistérios.
Paulo Ormindo pauloormindo@gmail.com é arquiteto, professor titular aposentado da UFBA e membro da Academia de Letras da Bahia, do Instituto dos Arquitetos do Brasil e da Associação Bahiana de Imprensa
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22julho2026