O cassino de bolso dos desalentados
Ainda estudante fui ao Uruguai a um congresso e uma das minhas curiosidades era conhecer os cassinos. No Cassino Carrasco (nome expressivo) haviam roletas, blackjack, poker, caça níqueis e shows, das 8 às 5 da manhã. Vigilantes rondavam as mesas de jogos.
Numa delas um velho alquebrado mirava a distribuição de cartas. Um vigilante lhe oferece um punhado de fichas para ele entrar no jogo, surtar e perder o que ainda lhe restava.
Aqui nas filas do INSS, desalentados tresnoitados não conseguem parar de jogar nos seus cassinos celulares.
Em Las Vegas compreendi para que servem os cassinos: para a lavagem de dinheiro. Um apostador compra milhões de dólares de fichas, perambula pelos caça-níqueis para despistar, vai com o carrinho ao caixa, recebe um cheque e pede um certificado de ganho para pagar o IR reduzido.
Os primeiros cassinos de Las Vegas foram fundados pela Máfia nos anos 1930. Mas sua grande expansão se deu em 1966, quando Howard Hughes, o mago da indústria aeronáutica americana, mudou-se para lá. Hughes expandiu seu império com a compra dos principais hotéis-cassinos e TVs transformando Las Vegas, no grande centro da jogatina oficial e do circo yankee. Las Vegas substitui em parte Cuba, depois de Fidel, como local de lavagem de dinheiro e prostituição.
No Brasil, a Lei 13.756/2018, de Michel Temer, legalizou os jogos de azar online e apostas esportivas permitindo casinos online, como a roleta do Tigrinho, e apostas de quota fixa manipuladas pelas empresas de Bet com o algarismo odd, que significa chance, e o suborno a jogadores de futebol.
Esta lei foi regulamentada pela Nº 14.790/2023. As Bets estão ganhando horrores à custa dos desesperados brasileiros. Em 2024 as Bets faturaram 240 bilhões. Cerca de 27% da Bolsa Família eram desviados para as Bets, o mesmo ocorria com o consignado e a prestação de Minha Casa, Minha Vida. O governo bloqueou essas aplicações, mas as plataformas fazem vista grossa e muitas famílias perdem tudo e vão à miséria.
Bet Nacional, não é brasileira, é da Flutter, a maior empresa de jogos online dos EUA. A Bet-MGM, que mostra o glamour dos cassinos de Las Vegas, pertence à Metro-Goldwyn-Mayer, que foi comprada pela Amazon. A Betano pertence a KGIL (Kaizen Gaming International) com sede na Grécia e presença em vários países no mundo. Agora essas gangues exploram a paixão dos brasileiros pelo futebol para encher suas burras.
As Bets viciam como as drogas, o tabaco e o álcool e se transformaram num problema de saúde pública que custam aos cofres públicos 38,8 bilhões anuais com suicídios, depressões e mortes. Há campanhas bem sucedidas no país para controlar a venda de álcool e cigarro e advertir sobre seus males. As Bet são oferecidas nos celulares 24 horas por dia, para adultos e menores, sem nenhum controle.
Paulo Ormindo pauloormindo@gmail.com é arquiteto, professor titular aposentado da UFBA e membro da Academia de Letras da Bahia, do Instituto dos Arquitetos do Brasil e da Associação Bahiana de Imprensa
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26maio2026