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JOÃO BORGES NO COLUNISTAS: Formações geológicas também são corpos sagrados


João Borges é artista, filósofo, historiador e Babalorixá

Oke, a montanha que fala: Guerra, paz, caça e estabilidade no topo do mundo iorubá 


Você já parou para pensar que montanhas podem ter voz? Para os Iorubás, elas não são apenas formações geológicas inertes. São corpos sagrados. Respiração, memória. E no alto delas habita um Orixá que o Brasil também não conheceu: Oke (pronuncia-se Ôkê). 


Enquanto aqui nos acostumamos a associar o sagrado a rios, folhas e pedras, na África as montanhas guardam um dos segredos mais antigos e mais silenciosos do panteão Iorubá. E esse segredo tem nome, saudação e vontade própria. 


QUEM É OKE?  Oke é a própria montanha personificada. Não um símbolo. Não uma metáfora. A montanha em pessoa. Ele veste branco, como Oxalá, mas come azeite de dendê e ama banha de Ori como quem ama a si mesmo. E isso já diz muito sobre sua natureza: Oke é serenidade que não se curva. É calma armada. 


Diferente de outros Orixás guerreiros ou caçadores, Oke não usa arco nem flecha. Seu instrumento é o áparo (pronuncia-se aparô), um objeto de couro que produz som seco e serve para espantar moscas, Orixá Oke é principalmente representado grandes pedras. 


Sua saudação é Epá Oke, epaá. Osá, e ela carrega consigo o peso de quem observa o mundo do alto, sem pressa, e refratário ao mundo, entretanto, sem perdão para quem desrespeita o equilíbrio da própria natureza. 


Aqui mora uma beleza que poucos percebem: Oke é guerreiro, sim, e caçador também. Suas famílias — os Abokê — são tradicionalmente linhagens de caçadores. Mas sua guerra não é contra pessoas. É contra o caos e a fome. 


Oke representa a estabilidade psicológica. Enquanto outros Orixás limpam cidades com sons e força temorosa (como Oro), Oke age no silêncio. Ele não assusta. Ele sustenta. É a paz urbana que não precisa de polícia. É a serenidade que impede a cidade de enlouquecer. 


Por isso, seu culto está espalhado por quase todo território iorubá, com especial força no estado de Osun, na cidade de Ile-Ifé, onde, provavelmente, nasceu sua adoração. 


E em Oyo, ele tem um papel fundamental: No 16º dia do festival de Obatalá, os adeptos sobem a montanha Okê Soro, “a montanha que fala”. Lá, eles fecham o ciclo com rituais que todos vêm. Alguns sentem profundamente. 


Òkè ńlá kì í ṣe òkè ńlá níjà, ṣùgbọ́n gbogbo ẹni tó ń gbé lábẹ́ rẹ̀ ń rí àlàáfíà."


"A grande montanha não briga para ser grande, mas todos os que vivem sob sua sombra encontram paz."


Esse provérbio Iorubá captura exatamente o que Oke representa: poder sem ostentação, guerra sem violência, estabilidade que não precisa se anunciar. Ele não precisa descer da montanha para impor respeito, basta estar ali, firme, para que a cidade respire tranquila. 


O ritual do Ori: quando a montanha recebe ungüento  Os cultuadores de Oke realizam um gesto de uma beleza rara: antes das invocações ou para pedir paz nas cidades, eles preparam um banho com banha de ori, ou seja, untam as pedras com manteiga de karité, passando-a nas partes expostas da montanha. Não é oferenda violenta. É carícia geológica. É dizer: “montanha, acorda e nos protege”.


Essa prática revela algo profundo: Oke não exige muitas oferendas. Alegrasse com a presença. Gosta que a comunidade olhe para cima e lembre que existe um mundo mais antigo que as ruas. 


POR QUE ELE NÃO VEIO PARA O BRASIL? Eis a pergunta que não quer calar. Por que Oke não está nos Terreiros de Candomblé? 


A resposta é tão alta quanto ele: Oke é o território. Sem a montanha, não há culto. Sem o topo, não há ritual. E a diáspora não trouxe montanhas nos navios negreiros. Trouxe corpos, memórias fragmentadas, cantigas pela metade. Mas não trouxe o chão sagrado onde Oke se manifesta. 


Além disso, seu culto exige deslocamento, subida, coletividade em torno de um acidente geográfico específico. A senzala não permitia peregrinação. A fazenda não tinha montanha própria. E o cativeiro, como sempre, impôs condições brutais: proteger o que podia caber no quintal, e deixar esquecer o que exigia altitude.


Oke ficou. Não por esquecimento. Por impossibilidade geográfica e histórica. 


Perdemos um culto a  Orixá que ensina sobre a paz não ser ausência de barulho, mas presença de estabilidade. Perdemos um caçador que não persegue, ele espera. Perdemos a chance de entender que saúde psicológica também é matéria de sagrado. 


Mas, perder não é apagar. Oke ainda está lá. Em Ile-Ifé, em Oke Soro, Oyo. Em cada pedra que, no Brasil, ainda não aprendeu a falar nosso idioma. 


Esta série não é sobre nostalgia. É sobre reconhecimento de ausência. Honrar os Orixás que não chegaram é também honrar a inteligência dos nossos antepassados, que escolheram quais batalhas travar. Eles não trouxeram Oke porque não puderam. Mas nós podemos lembrar dele. Podemos, ao menos, pronunciar seu nome com respeito. Epá Osá.


Aguardem os próximos artigos. Ainda há muitas montanhas silenciosas esperando visita.


Àṣẹ. 


João Borges é artista, filosofo, historiador, Babalorixá, é pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Difusão do Conhecimento (PPGDC/UNEB) e Professor em estágio de Doutorado Sanduiche na Lagos State University, Babalorixá e Artista Multe Linguagem 


Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade do autor

22maio2026

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