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Fabiana Franco


A Camaçari que temos e a cidade que queremos



Atos de intolerância vitimam diariamente cidadãos e cidadãs camaçarienses. Os crimes de ódio matam e destroem vidas, além de serem cada vez mais constantes na cidade da “Árvore que Chora”. Esses tipos de crimes fazem parte do cotidiano de uma metrópole pluridentitária, e são praticados por quem é contrário às manifestações de fé, amor, empatia e respeito para com o outro. 


Tudo isso exemplifica a existência de feridas escancaradas de uma cidade que não tolera e não respeita às diferenças. “Estou falando para você das doenças da mente e das feridas da alma”, como diz o cantor paulista Criolo, em uma de suas músicas. 


Segundo levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Camaçari se apresenta como uma das cidades mais perigosas do Brasil. Os crimes citados são alimentados por preconceito, ódio e discriminação. Mas, quem são esses indivíduos que atentaram contra a vida de um ser humano? O que eles defendem? Quem disse que é crime ser gay, lésbica, trans, bissexual, ou profetizar uma fé de matriz não judaico-cristã? Será que a sociedade autoriza que três indivíduos vomitem seus mais podres e perversos sentimentos envenenados contra um casal?


Cidadãos e cidadãs camaçarienses, o que lhes causam mais repulsa em Camaçari?  


Em 01 junho de 2015, a intolerância teve como alvo a Mãe Dede de Yansã, 90 anos. A sacerdotisa foi a óbito após ser agredida verbalmente e moralmente por um grupo de evangélicos que invadiram o seu Terreiro. Manifestações de intolerância religiosa acontecem de diferentes maneiras, seja por meio de ameaças e invasões às terras sagradas.


Outro caso semelhante aconteceu em janeiro deste ano, contra um líder religioso, o Babalorixá (pai de santo) Rychelmy Imbiriba, nas dependências do Terreiro Ilê Axé Ojisé Olodumare, quando foi invadido por criminosos.


O camaçariense Marcelo Macedo, 33 anos, infelizmente, entra para a desastrosa estatística como uma das vítimas de homofobia. Ele foi agredido fisicamente por três criminosos que não respeitaram a sua orientação sexual. Segundo os dados do “Relatório parcial por ocasião do Dia Internacional contra a homofobia”, publicado em 15 de maio de 2019, até essa data, foram registrados cerca de 141 casos de LBTfobia, alguns desses incluem mortes por homicídios. 


Assim como Marcelo, outros camaçarienses foram vitimados por manifestações públicas de AMOR. O abraço em via pública por dois irmãos gêmeos foi o estopim para oito monstros descerem do ônibus e espancarem até a morte os irmãos, em 2012. No mesmo ano, no Bairro Alto da Cruz, o casal Laís Fernanda, 25 anos, e Maira de Jesus, 22 anos, foram atingidas com tiros na cabeça e morreram na hora por caminharem de mãos dadas.  Essas duas jovens estavam felizes, moravam juntas, construíam planos, e isso foi o suficiente para serem assassinadas a tiros, como vítimas de violência LGBTfóbica.


Em maio desse ano, o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu a inércia dos legisladores brasileiros para propor, julgar e ouvir vítima de homofobia no Brasil. A ministra Cármen Lúcia avaliou que, após tantas mortes, ódio e incitação contra homossexuais, não há como desconhecer a inércia do legislador brasileiro e afirmou que tal omissão é inconstitucional. “A reiteração de atentados decorrentes da homotransfobia revela situação de verdadeira barbárie. Quer-se eliminar o que se parece diferente física, psíquica e sexualmente”. Para a ministra, a singularidade de cada ser humano não é pretexto para a desigualdade de direitos e de violência contra uma pessoa, porque atingirá igualmente toda a sociedade. “A tutela dos direitos fundamentais há de ser plena, para que a Constituição não se torne mera folha de papel”, disse.


Na Bahia, o governador Rui Costa, durante uma transmissão ao vivo em uma rede social, condenou os crimes de homofobia ocorridos em Camaçari. Alguém leu ou ouviu uma declaração pública do Executivo e do Legislativo Municipal?  Essa cidade precisa reagir, porque necessitamos de representações políticas comprometidas e de outras vozes capazes de provocar mudanças para diminuir o índice de violência e em promoção do bem-estar de todas as pessoas camaçarienses.


É mais que necessário uma renovação política que se comprometa em dar voz às pessoas vitimadas pelo ódio, intolerância, ganância e pela tentativa de imposição do pensamento único. 


Precisamos semear e construir uma Camaçari com alteridade, empatia, e com ampla dignidade social e coletiva. 


Camaçarienses, parem, pensem, semeiem o amor ao próximo e sejam protagonistas dessa mudança!


Fabiana Franco fabianadacruzfranco@gmail.com é filha de Camaçari, empresária e pesquisadora em políticas sociais


Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade do autor


 
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