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Juan Sterfan


O Pentecostes e o pertencimento em Camaçari



Quem conhece sua história, defende bem o seu legado. Um dos desafios dos gestores de cidades cosmopolitas e de população flutuante, como se verifica em Camaçari, é saber lidar com a falta de pertencimento do cidadão ali residente. São cidades que crescem exponencialmente em razão da esperança de emprego, mas se tornam colônias de exploração; ganham em diversidade de povos, mas têm a sua identidade desprezada. Se tornam rapidamente ricas, mas perdem a “alma”. Se tornam exploradas por estranhos e deixam ser convidativas. Abraçam o mundo, mas não são abraçadas pelo povo que acolheu.


Com base nos estudos do historiador Diego Copque, Camaçari completa hoje 462 anos de fundação, mas os seus gestores DESPREZAM a sua história e o seu povo. Se eles soubessem da importância que há na preservação da memória, do seu passado, veriam, na prática, os benefícios de uma gestão participativa, na qual os habitantes se importariam em cuidar das fachadas das suas casas, das praças, jardins públicos e de todo o patrimônio público existente material e imaterial. Patrimônio! Isso! Encontrei a palavra adequada!


Quando o morador de uma cidade entende que mora em um patrimônio, o seu olhar passa a ser diferenciado, e o valor dado a cidade e até mesmo às ações do poder público mudam.


Vejamos o exemplo de Curitiba, no Paraná. De uma cidade-corredor (Sul – Sudeste) no passado, aparentemente sem raízes, sua história foi revisitada e o pertencimento do seu povo cultivado. Hoje ela se impõe no Brasil como um modelo em diversos aspectos. Nada que uma gestão comprometida não possa se importar e fazer. Medidas simples foram tomadas e hoje os curitibanos têm uma cidade povoada, e não apenas explorada, diversa em povos, mas com identidade preservada, muito rica, porém com a essência mantida, e o melhor: mui convidativa para o mundo. Tudo bem, não são muito de abraçar como o “jeito baiano”, mas deixam saudade aos que lá um dia residiram.


Cidades como Florianópolis, São Bernardo do Campo, Recife, Goiás tomaram outras medidas. Elas comemoram a data de fundação. Jacobina, aqui perto, já está ensaiando essa mudança. Me parece que Ilhéus já fez isso. Por aqui comemoramos apenas a data de emancipação política (quando teoricamente ganhamos autonomia administrativa). Mas porque não comemorar a nossa fundação? Há muito mais história enriquecedora esquecida do que estes duzentos e poucos anos de emancipação política comemorados.


Uma geração de nascidos aqui e acolhidos que amam a cidade está se levantando para um novo tempo. Que venha o novo tempo. Na data de celebração da descida do Espírito Santo que impactou toda uma comunidade e todo o mundo, Camaçari, a antiga Vila do Espírito Santo, precisa ser empoderada outra vez, e o seu povo amar a sua história e a sua identidade.


Juan Sterfan juan_sterfan@hotmail.com é camaçariense, advogado especialista em Direito Ambiental e Urbanístico, urbanista, arquiteto e membro da Comissão de Meio Ambiente, Mobilidade e Direito Urbanístico da OAB-Camaçari


Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade do autor


 
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