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Juan Sterfan


A derrubada de mais um capítulo da história camaçariense



Nunca foi tão fácil convencer as pessoas da beleza do que é “fake”, na linguagem mais popular. As maquiagens, os filtros, os programas de edição, as flores artificiais, os quadros impressos, as paredes de papelão, as “progressivas”, o suco artificial em pó, e tantas outros artifícios montam um cenário sem essência, e, para um bom entendedor, uma “maquiagem” não basta.


Se tivéssemos que escolher visitar a réplica de um quadro de Leonardo Da Vinci e um quadro original, obviamente escolheríamos o quadro original. Salvador não seria tão importante sem seus prédios históricos, sem a sua cultura pautada no legado deixado pelos nossos antepassados. Ouro Preto, Olinda, Rio de Janeiro, Veneza, Paris, são exemplos de cidades que jamais arriscariam perder o seu patrimônio. Suas igrejas, conventos, praças, monumentos atraem turistas, geram renda, enchem de orgulho o seu povo, registram o quão importante é a sua cidade e o faz consciente de que precisam lutar pela sua cidade.


Não é preciso ir tão longe, em qualquer cidade do interior da Bahia, qualquer uma, o povo sente orgulho de uma gruta, de uma igreja matriz, um cruzeiro, um casario antigo, uma praça antiga aconchegante...um conjunto de elementos gera orgulho de morar ali, por mais pobre que pareça, aquela cidadezinha é rica no seu maior patrimônio: a memória.


Aqui em Camaçari, somos uma exceção. Desde tempos antigos, convivemos silentes com a derrubada de parte de um dos conjuntos arquitetônicos mais antigos e importantes do Brasil, a Igreja do Divino Espírito Santo em Abrantes, assistimos a derrubada da antiga igreja matriz, do coreto da praça, da igreja Batista no meio da praça Abrantes, das fachadas do casario das ruas do centro, a depredação da antiga estação de trem (onde atracaram muitos dos nossos antepassados), a destruição do Rio Camaçari, das piscinas naturais, vimos a demolição do prédio que foi a nossa prefeitura, e agora, assistimos, inertes a depredação do antigo cinema. Será que irão derrubar também?


Mas, vem uma novidade: parece que vamos ganhar duas réplicas! Estamos na contramão da civilização. “Porque restaurar, se podemos derrubar tudo e fazer novamente?” Perguntam. Celebramos o tempo remoto em que o mundo fazia réplicas, e, o pior, a celebração é conduzida pela secretaria de cultura. “Porque não fizeram antes?” Perguntam! É verdade: passa governo, entra governo, a cena se repete. O que fica na memória, na verdade, é a “república do café com leite”, quando duas faces da mesma moeda governaram o país.


Para quem não sabe, a Universidade Federal da Bahia é referência nacional em restauro de edificações. Sim! A cidade vizinha abriga um núcleo com diversos especialistas que saberiam muito bem o que fazer com o prédio da prefeitura e do antigo cinema. Reforço estrutural, intervenções para recuperar a fachada, o piso, troca da cobertura sem alteração da fachada, readequação do uso interno, enfim, a demolição é a última e lamentada alternativa. O que mais se deseja é evitar que a memória da cidade seja apagada. 


O pior é ver os comentários na rede social (a mesma que reproduz a vida artificial, “fake” com a qual nos acostumamos) sobre o assunto. Infelizmente, poucos foram ensinados a preservar seus monumentos, até porque, nunca os visitaram, nem a história deles lhes foi contada.


O povo que não conhece a importância do lugar que habita, e nem valoriza a sua cidade, não a defende, depreda tudo o que a prefeitura faz, rouba os jardins, cospe do chão (literalmente) e não vê a hora de ir embora. Não há pertencimento. Não há crescimento.


Continuamos a seguir com a mentalidade colonial, como um quintal de Salvador. Camaçari vive como uma colônia dos que aqui ganham o pão de cada dia, mas não têm o menor respeito e consideração pela história da cidade. Para estes, a cidade foi criada para funcionar como dormitório e, no máximo, como um local a ser explorado e destruído.


Mas, quem foi que disse que não temos uma rica história? Esperamos que a nova geração dos que aqui nasceram, ou que chegaram e criaram raiz junto a “árvore” que lhes acolheu, valorize a cidade, a sua memória e lute por dias melhores, quando aos domingos nos reuniremos para celebrar os bons momentos e não para assistirmos tratores derrubando a história.


Juan Sterfan juan_sterfan@hotmail.com é camaçariense, advogado especialista em Direito Ambiental e Urbanístico, urbanista, arquiteto e membro da Comissão de Meio Ambiente, Mobilidade e Direito Urbanístico da OAB-Camaçari


Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade do autor


 
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