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Juan Sterfan


Árvore que chora: uma cidade sem sombras



Quem caminha pelo centro de Camaçari vem percebendo que, nos últimos 3 anos, diversas árvores foram indevidamente retiradas dos logradouros e praças. Não bastasse a má conduta de determinados munícipes desprovidos de sensibilidade, o próprio Poder Público segue inoperante no pleno cumprimento do seu dever constitucional de zelar pelo meio ambiente. A gestão pública parece seguir firme, marchando com veemência na derrubada de árvores, em especial com o silêncio não esperado. É a política do quanto mais asfalto e concreto, e quanto menos árvores, melhor!


O curioso é que o nome dado pelos indígenas profetizou o que a cidade vive hoje. Em dados oficiais oriundos do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) datados do último Censo, a cidade, famosa por sua arrecadação majestosa, amarga a posição 394 dos 417 municípios baianos no quesito arborização urbana, e está nas últimas posições no âmbito nacional, como sendo uma das cidades menos arborizadas do Brasil. Camaçari possui apenas, frise-se, 24,1% de vias públicas arborizadas.


Não fossem os quintais arborizados que ainda restam, o que sobrou do planejado parque Central, hoje ocupado pelo desmontado Horto Florestal, e o entorno da Prefeitura de Camaçari, a população saberia, “na pele”, o que é viver em um deserto.


Não precisa ser técnico para sentir os efeitos da omissão e letargia dos governantes. A cidade possui temperatura desagradável, tornando insuportável qualquer caminhada no centro comercial e em seu entorno, por exemplo. Os bairros, por sua vez, reproduzem o cenário árido e desprovido dos benefícios da arborização. Me lembro da derrubada orquestrada de árvores quando foram reformadas, na década passada, as praças Montenegro e Abrantes. De lá para cá, a situação só piorou. A Avenida Luis Eduardo Magalhães (Avenida Comercial), a Rua Costa Pinto, Rua da Bandeira, Avenida Rio Camaçari e as “radiais” que o digam.


É preciso dizer que existem estudos que comprovam que áreas verdes distribuídas por meio de praças e parques, bem como, através do plantio de árvores em ruas e avenidas podem arrefecer o clima de uma cidade em pelo menos 5 graus centígrados. Você já imaginou ter uma cidade com a temperatura típica dos meses de agosto e setembro ao longo do ano?


Camaçari, no entanto, segue na contramão de cidades como Campina Grande (PB) e Curitiba (PR). As gestões que se passaram seguiram na direção contrária ao que mais se prega em matéria de urbanismo e meio ambiente sustentável.


A legislação que discorre sobre as penalidades, isto é, o Código de Polícia Administrativa de Camaçari, prevê uma multa tão irrisória que acaba tornando rentável descumprir a lei, diante dos interesses nefastos e tolos dos infratores.


As propostas são as mais indecorosas: derrubar uma árvore pode custar míseros R$ 300,00 ou a doação de uma dezena de mudas que serão plantadas longe da ilha de calor que é o centro da cidade ou mesmo dos seus bairros. Não se busca alternativa com a COELBA para transformar sua fiação para o modelo de fiação protegida, tal como feito na Rua Francisco Drumond. Não há cuidado com a manutenção das árvores para retirada das ervas daninhas.


Ao invés disso, a prefeitura segue bastante “eficiente” na poda dos galhos, quase sempre drástica, abreviando o tempo de vida útil da espécie arbórea, e, retirando as últimas áreas de sombra que restam. Não é sem motivo que a pauta mais repetida nas oficinas de elaboração do novo Plano Diretor é: a falta de arborização nas vias urbanas de Camaçari.


A cidade permanece chorando com a omissão do Poder Público, e a população agoniza com uma cidade de ar poluído, desconfortável com as altas temperaturas e sem sombra.


Os índios acertaram!


Juan Sterfan juan_sterfan@hotmail.com é camaçariense, advogado especialista em Direito Ambiental e Urbanístico, urbanista, arquiteto e membro da Comissão de Meio Ambiente, Mobilidade e Direito Urbanístico da OAB-Camaçari


Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade do autor


 
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