Os políticos e as redes sociais: Quando a propaganda se disfarça de notícia
Vivemos um tempo em que qualquer pessoa com um celular pode produzir conteúdo informativo, registrar acontecimentos e alcançar milhares de pessoas em poucos minutos. Essa democratização da comunicação trouxe ganhos importantes. Hoje existem muito mais vozes participando do debate público do que havia há alguns anos.
Mas esse avanço também trouxe um problema que merece atenção: está cada vez mais difícil distinguir informação de propaganda.
Nas redes sociais multiplicam-se perfis que se apresentam como páginas de notícias, entretenimento ou conteúdo comunitário, mas que, na prática, funcionam como verdadeiros canais de promoção do governo e seus agentes políticos. O problema não é a comunicação institucional. Todo governo tem o dever de informar a população sobre suas ações, prestar contas e divulgar campanhas de interesse coletivo.
A questão começa quando essa publicidade deixa de ser institucional e passa a ser propaganda político-eleitoral.
Quando um influenciador digital elogia sistematicamente uma gestão, divulga obras, entrevista autoridades sempre em tom favorável, chamando-o de “meu prefeitão”, “meu governador”, “meu deputado” ou “meu vereador”, e não informa que existe uma relação contratual ou financeira, o cidadão deixa de saber se está diante de uma opinião independente ou de uma peça de marketing. É justamente nessa zona cinzenta que mora o maior risco.
Ao longo da história, a imprensa conquistou o reconhecimento de "Quarto Poder" porque exerce uma função que incomoda qualquer governo ou autoridade: fiscalizar. Seu papel não é agradar quem está no poder, mas investigar, questionar, cobrar explicações e revelar aquilo que muitas vezes o poder preferiria esconder. É exatamente por isso que governos costumam temer uma imprensa livre.
Parte dos influenciadores e comunicadores digitais, entretanto, vem caminhando em sentido contrário. Em vez de questionar, apenas reproduz versões oficiais. Em vez de investigar, promove. Em vez de cobrar resultados, transforma gestores em protagonistas permanentes de uma campanha de boa imagem.
O problema se agrava quando popularidade e número de seguidores passam a ser confundidos com credibilidade.
Ter milhares de seguidores não transforma ninguém em especialista em gestão pública, orçamento, saúde, educação ou administração. Pois, da mesma forma que ninguém escolheria um cirurgião apenas porque ele faz sucesso nas redes sociais, também não deveríamos formar nossa opinião sobre assuntos públicos, importantes para nossas vidas, apenas pelas postagens destes influencers.
Na medicina, confiamos em profissionais preparados porque sabemos que uma escolha equivocada, baseada apenas nas redes sociais, pode custar vidas. Com a informação deveria acontecer o mesmo. Informação de qualidade exige apuração, confronto de versões, responsabilidade e compromisso com os fatos.
Quando isso desaparece, abre-se espaço para um verdadeiro charlatanismo informacional, onde a influência vale mais que o conhecimento e a propaganda ocupa o lugar da informação. As consequências vão além da comunicação.
Quando recursos públicos são usados para fortalecer apenas perfis que elogiam a gestão, enquanto vozes críticas perdem espaço, toda a sociedade sai perdendo. Os problemas deixam de ser debatidos, os erros deixam de ser apontados e os gestores passam a ouvir apenas aplausos, muitas vezes indevidos.
Nenhuma administração melhora cercada exclusivamente por elogios de bajuladores remunerados. A crítica séria incomoda, mas é justamente ela que permite corrigir rumos, aperfeiçoar políticas públicas e prestar melhores serviços à população. Isso vale para qualquer governo, independentemente de time, partido ou ideologia.
Defender transparência na comunicação não significa atacar influenciadores nem colocar a imprensa tradicional acima de qualquer crítica. Significa apenas reconhecer que o cidadão tem o direito de saber quando está consumindo informação e quando está consumindo propaganda.
Governos passam. Mandatos terminam. O que permanece é a necessidade de preservar instituições fortes e uma sociedade capaz de formar suas próprias convicções a partir de informações transparentes e verificáveis.
Quando propaganda se disfarça de notícia, quem perde não é apenas o jornalismo. Quem perde é a sociedade e a própria democracia.
Luiz Duplat duplat.luiz@hotmail.com é médico obstetra, especialista em saúde da família e ex-secretário de saúde de Camaçari
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15julho12026