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PAULO ORMINDO NO COLUNISTAS: A ponte é o novo capítulo da Triste Bahia


Paulo Ormindo é arquiteto, professor titular aposentado da UFBA e membro da ALB, IAB e da ABI

Requiem pela Baía de Todos os Santos e Orixás


Em surdina, na véspera do 2 de Julho, foi dado início à morte assistida de uma das mais importantes e belas baías do mundo. Para que os leitores tenham ideia do que isto significa, vale a pena recordar.


 Durante o ciclo da vela, a BTS foi um porto obrigatório de articulação da Europa com a África e o Oriente. Aqui os navios faziam aguada, abastecimento e reparos. Ainda hoje a maior baía do Atlântico Sul é uma angra fundamental na defesa da costa brasileira com a Base Naval de Aratu. Em seu interior estão seis portos internacionais: Aratu, Temadre, Terminais da BYD e M. Dias Branco, Estação de Regaseificação e Estaleiro da Enseada. 


Com a construção da ponte todos esses portos ficarão dependentes de uma garganta de 450m de largura e 80m de altura quando os navios e a navegação não param de crescer. Ela serve ainda hoje como sala de espera para outros portos nacionais. Os navios ancorados fora da barra, por exigência da Capitania dos Portos, têm apoio portuário, enquanto esperam a ordem para atracar em outros portos, podendo se abrigar na BTS em caso de tempestades. 


Do ponto de vista socioeconómico, a ponte marginaliza a banda leste da BTS onde estão os portos citados, o CIA, o Polo Petroquímico, a Refinaria de Mataripe, o Estaleiro da Enseada, poços de petróleo e gás reativados e um potencial enorme turístico-histórico e esportivo náutico. Inviabiliza ainda um hub-porto nas águas abrigadas de Salinas da Margarida com calado de 22m, podendo ser o terminal de uma ferrovia transcontinental. Serão centenas de milhões de reais o que o Estado vai pagar durante 30 anos de pedágio complementar às seis faixas subutilizadas da ponte.


Os impactos socioeconômicos, urbanísticos e culturais em Itaparica e Salvador são enormes. Na ilha, dividindo-a ao meio dificultando o acesso de pescadores, quilombolas e pessoal de santo às praias e transformação de Vera Cruz em um terminal rodoviário caótico, como São Gonçalo, vizinho a Niterói.


Em Salvador sua saída de São Joaquim, copiando o Ferry, impactará a feira, o Comércio e o CH e entupirá a Via Expressa, a Paralela e a Estrada do Coco. Quando estiver em pleno funcionamento, serão 140 mil veículos cruzando Salvador em direção ao Litoral Norte e a Sergipe, como a ponte Rio-Niterói de igual gabarito. 


Culturalmente, a BTS terá sua visibilidade comprometida por uma ponte torta que tangencia o frontispício da cidade e as igrejas de Monte Serrat e Bonfim. Tudo isso havendo alternativas mais baratas e menos impactantes como a envolvente rodoferroviária da BTS, um túnel e a proposta da Academia de Engenharia da Bahia de deslocar sua partida para a enseada do Cabrito, articulando-a diretamente à RR-324 e a Via Metropolitana.


“Triste Bahia! Oh quão dessemelhante [...]. A ti tocou-te a máquina mercante [...]. Tanto negócio e tanto negociante...” Gregório de Matos.


Paulo Ormindo pauloormindo@gmail.com  é arquiteto, professor titular aposentado da UFBA e membro da Academia de Letras da Bahia, do Instituto dos Arquitetos do Brasil e da Associação Bahiana de Imprensa


Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade do autor



11julho2026

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