A Política externa vira pauta principal da disputa presidencial
Após visita de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos, novo tarifaço de Trump reacende debate sobre patriotismo, soberania e os custos eleitorais do alinhamento automático ao governo americano
A política costuma ser impiedosa com coincidências difíceis de explicar. E a coincidência da vez atende pelo nome de Flávio Bolsonaro.
Dias depois de sua visita aos Estados Unidos, onde se reuniu com Donald Trump, J.D. Vance e Marco Rubio, o governo americano anunciou a proposta de uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. A medida, prevista para entrar em vigor em julho, foi apresentada como resultado de uma investigação comercial conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA.
É verdade que a investigação não começou agora. Também é verdade que Washington alega razões comerciais envolvendo comércio digital, propriedade intelectual e questões ambientais. Mas política não vive apenas de fatos. Vive, sobretudo, de percepção.
E a percepção que rapidamente tomou conta das redes sociais e do debate político foi devastadora para o bolsonarismo.
Nasceu assim o apelido “Tariflávio”, criado inicialmente por setores da esquerda e rapidamente incorporado ao debate público para associar Flávio Bolsonaro ao novo tarifaço americano.
O problema para o bolsonarismo não é apenas econômico. É simbólico.
Historicamente, a direita brasileira construiu sua narrativa em torno do patriotismo, da soberania nacional e da defesa dos interesses do Brasil. Quando um dos principais líderes do campo conservador aparece ao lado de autoridades americanas e, dias depois, o país sofre uma ameaça tarifária, a oposição encontra terreno fértil para construir uma narrativa politicamente poderosa: a de que interesses ideológicos estariam sendo colocados acima dos interesses nacionais.
O próprio Flávio Bolsonaro percebeu o tamanho do desgaste e passou a afirmar publicamente que pediu a Trump para não taxar produtos brasileiros. Também enviou carta a Marco Rubio alegando que a medida traria prejuízos ao povo brasileiro.
Mas, em política, muitas vezes a defesa acaba reforçando o problema.
O impacto potencial das tarifas preocupa exportadores e setores produtivos. Mesmo com exceções para alguns produtos estratégicos, empresários sabem que qualquer barreira comercial imposta pelos Estados Unidos gera insegurança, reduz competitividade e afeta investimentos.
Mais do que um debate econômico, o episódio pode se transformar em tema central da disputa presidencial de 2026.
Pela primeira vez desde o surgimento do bolsonarismo, a esquerda encontrou um símbolo simples, popular e de forte apelo comunicacional para atacar diretamente um dos principais nomes da direita. E campanhas eleitorais costumam transformar apelidos em armas políticas extremamente eficientes.
Agora, todas as atenções se voltam para as próximas rodadas de pesquisas eleitorais. Analistas políticos, partidos e marqueteiros querem descobrir qual dos dois polos da disputa presidencial — Lula ou Flávio Bolsonaro — conseguirá tirar maior proveito político desse episódio. Se o desgaste econômico das tarifas recair sobre o governo federal, o bolsonarismo tentará transferir a responsabilidade para Lula. Mas, se a percepção pública consolidar a ideia de submissão política aos interesses americanos, o dano pode atingir diretamente o núcleo bolsonarista.
Uma coisa, porém, já parece evidente: “Tariflávio” deixou de ser apenas um apelido de internet para se transformar em um fato político.
E fatos políticos, quando encontram ressonância emocional no eleitorado, costumam sobreviver por muito mais tempo do que seus criadores imaginam.
José Américo Moreira da Silva zamerico1961@gmail.com é jornalista, publicitário, baiano radicado em Brasília
Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade do autor
3junho2026