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ADELMO BORGES NO COLUNISTAS: A Camaçari esquecida pelo poder


Adelmo Borges dos Santos

A voz da periferia 


Na realidade atual de Camaçari, Região Metropolitana de Salvador, o perfil das comunidades periféricas é específico. Camaçari vive uma contradição profunda: é uma das cidades mais ricas do Nordeste em termos de PIB (Produto Interno Bruto) devido ao seu Pólo Industrial, mas essa riqueza convive com bairros periféricos e distritos que enfrentam severas vulnerabilidades socioeconômicas.


Seguindo a tendência da Região Metropolitana de Salvador, a periferia de Camaçari é densamente negra e com forte presença de jovens. O município tem uma das maiores proporções de população preta e parda da Bahia (acima de 80%).


Nas áreas periféricas da Sede (como os bairros da Gleba C, Phoc, Nova Vitória, Quarenta e Seis) e nas ocupações e comunidades dos distritos, o percentual de moradores negros supera os 85%. A pirâmide etária das periferias locais é mais jovem do que a dos bairros centrais e dos condomínios da orla. Constata-se, também, que há um volume expressivo de lares chefiados por mulheres, que assumem a responsabilidade pelo sustento e criação dos filhos com redes de apoio predominantemente femininas (avós, tias e vizinhas).


A dinâmica de trabalho na periferia de Camaçari mudou drasticamente nos últimos anos. A antiga dependência direta dos empregos do Polo Industrial deu lugar a novas formas de sobrevivência. Com as reestruturações e fechamentos de grandes complexos automotivos e industriais no início da década, a força de trabalho periférica migrou massivamente para o setor de comércio, serviços gerais terceirizados e construção civil.


Os moradores das periferias de Vila de Abrantes, Monte Gordo e adjacências das praias (como áreas internas de Jauá, Arembepe, Barra do Jacuípe e Guarajuba), o mercado de trabalho é altamente sazonal. Eles trabalham na engrenagem que sustenta o turismo e os condomínios fechados: são pedreiros, eletricistas, diaristas, cozinheiros, caseiros e ambulantes.


O comércio nas periferias (mercearias, salões de beleza, oficinas, confecções e lanchonetes) é o verdadeiro motor de renda interna, gerando uma circulação monetária que não depende do centro da cidade.


A periferia de Camaçari é um território dinâmico e se comporta de maneiras diferentes a depender da localização. Os bairros populosos que cresceram no entorno do centro urbano e do Polo Industrial sofrem com o adensamento urbano acelerado, embora tenham maior proximidade física de serviços públicos de saúde de média complexidade, educação de primeiro e segundo grau, transporte e lazer. As localidades de Vila de Abrantes e Monte Gordo receberam um grande fluxo migratório nas últimas décadas. O crescimento de loteamentos populares e ocupações nessas áreas frequentemente acontece de forma mais rápida do que a chegada da infraestrutura pública essencial, criando "periferias dentro dos distritos".


Apesar de o município de Camaçari arrecadar receitas bilionárias, o acesso a serviços públicos de qualidade ainda é um desafio sentido na pele por quem mora na ponta. A cobertura de água tratada é satisfatória, o esgotamento sanitário adequado e a pavimentação de ruas nas comunidades mais distantes das vias principais, ainda geram demandas crônicas da população, agravadas nos períodos de chuvas.


A população das comunidades periféricas depende integralmente da rede pública de saúde. O papel dos Agentes Comunitários de Saúde, das ações de saúde da família e educação popular são fundamentais, pois funcionam como a única ponte de cuidado preventivo para famílias que vivem afastadas dos hospitais centrais.


A periferia do município sintetiza a realidade de um território industrial e turístico. Seus moradores são a força de trabalho que constrói os condomínios da orla e faz o comércio da Sede girar, mas que ainda luta para que a imensa riqueza gerada no município retorne em forma de dignidade urbana, saúde e oportunidades nas proximidades de suas casas. 


Assim, os dirigentes municipais que não observarem esses elementos durante a formulação de suas atividades ficarão distantes das necessidades das comunidades periféricas. Que DEUS e os Orixás nos protejam


Adelmo Borges dos Santos adelmook@gmail.com  


Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade do autor

30maio2026

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