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JOSÉ AMERICO NO COLUNISTAS: Dois pesos e duas medidas


José Américo Moreira da Silva é jornalista e consultor de marketing político

A elite sempre chora quando o povo avança 


 Da abolição da escravidão à redução da jornada 6x1: o velho terrorismo econômico usado para impedir direitos dos trabalhadores 


Toda vez que o Brasil discute algum avanço social em favor dos trabalhadores, a reação da elite econômica é exatamente a mesma: pânico, chantagem e terrorismo econômico. Foi assim na abolição da escravidão. Foi assim na criação das leis trabalhistas por Getúlio Vargas. Foi assim quando surgiu a carteira de trabalho, o salário mínimo, as férias, o décimo terceiro e a previdência. E está sendo exatamente assim agora diante da discussão sobre o fim da escala 6x1 e a redução da jornada de trabalho.


A ladainha é sempre idêntica. Dizem que o país vai quebrar. Que haverá desemprego em massa. Que a inflação vai explodir. Que as empresas não vão suportar. Que o setor produtivo será destruído. Mudam os personagens, mudam os microfones, mas o discurso permanece o mesmo há mais de um século.


Quando a escravidão foi abolida, os grandes proprietários rurais diziam que o Brasil entraria em colapso econômico. Segundo eles, sem mão de obra escrava o país não sobreviveria. A elite agrária da época tratou a liberdade dos negros como uma ameaça à economia nacional. A mesma elite que construiu fortunas sobre o sofrimento humano tentava convencer o país de que o problema não era a escravidão, mas sim o fim dela.


Décadas depois, quando Getúlio Vargas criou a Consolidação das Leis do Trabalho, regulamentou direitos e instituiu a carteira de trabalho, o empresariado reagiu da mesma forma histérica. Diziam que direitos trabalhistas inviabilizariam o crescimento econômico. Que férias remuneradas eram um absurdo. Que descanso semanal era exagero. Que salário mínimo destruiria empregos. Curiosamente, nada disso aconteceu. O Brasil cresceu, industrializou-se, expandiu seu mercado consumidor e consolidou sua economia urbana justamente porque milhões de trabalhadores passaram a ter algum mínimo de proteção e dignidade.


Agora, em pleno século XXI, a história se repete diante da discussão sobre a redução da jornada 6x1. O trabalhador brasileiro é submetido a uma rotina brutal, desumana e adoecedora. Trabalha seis dias para descansar apenas um. Vive sem tempo para a família, para estudar, para descansar, para cuidar da saúde ou simplesmente existir. Muitos entram em colapso físico e mental. Mas quando surge o debate sobre reduzir essa jornada absurda, setores da elite empresarial aparecem imediatamente anunciando o apocalipse econômico.


Foi o que se viu recentemente em Brasília e nos programas de televisão, com representantes das federações industriais e grandes empresários afirmando que a redução da jornada causará desemprego, inflação e enfraquecimento das “forças produtivas”. O velho roteiro do medo. O velho teatro das ameaças.


O curioso é observar quem faz esse discurso. São exatamente os mesmos setores que recebem do Estado brasileiro benefícios gigantescos, bilionários e permanentes. Enquanto milhões de famílias pobres sobrevivem com programas sociais como o Bolsa Família — que custa cerca de 60 bilhões de reais por ano e atende pessoas em situação de extrema vulnerabilidade — o chamado “setor produtivo” recebe aproximadamente 830 bilhões de reais anuais em isenções, incentivos fiscais, renúncias tributárias e benefícios do Governo Federal.


Ou seja: para matar a fome dos pobres, dizem que o país não aguenta. Mas para subsidiar grandes grupos econômicos, bancos, indústrias e setores empresariais, o dinheiro aparece sem dificuldade.


É uma contradição brutal.


A elite brasileira gosta de posar como heroína do desenvolvimento nacional, mas depende profundamente do Estado. Reclama do Bolsa Família enquanto recebe bilhões em benefícios fiscais. Chama trabalhador de “custo”, mas trata subsídio público como “incentivo ao crescimento”. Critica direitos sociais, mas vive de financiamentos subsidiados, perdões tributários e proteção estatal.


Na prática, o que parte dessa elite teme não é o colapso econômico. O que ela teme é perder privilégios históricos. Teme dividir lucros. Teme reduzir margens de exploração. Teme reconhecer que trabalhadores são seres humanos e não peças descartáveis de uma engrenagem.


O debate sobre a redução da jornada de trabalho não é apenas econômico. É civilizatório. Países desenvolvidos discutem semana de quatro dias, produtividade inteligente, saúde mental e equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. Enquanto isso, parte do empresariado brasileiro ainda raciocina com a mentalidade da senzala, defendendo jornadas exaustivas como se descanso fosse preguiça e dignidade fosse ameaça.


A verdade é simples: trabalhador descansado produz mais. Trabalhador valorizado adoece menos. Trabalhador com tempo para viver movimenta a economia, consome, estuda, convive, empreende e melhora sua qualidade de vida. O mundo moderno já entendeu isso. Apenas setores atrasados da elite brasileira insistem em fingir que o país ainda vive no século XIX.


Toda conquista social da história enfrentou resistência dos privilegiados. Foi assim com a liberdade dos escravizados. Foi assim com os direitos trabalhistas. Foi assim com o voto popular, com a previdência, com as férias e com o salário mínimo. E será assim agora com a redução da jornada.


A diferença é que, mais uma vez, o tempo mostrará quem estava do lado certo da história.


José Américo Moreira da Silva zamerico1961@gmail.com é jornalista, consultor de marketing político, baiano radicado em Brasília  


Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade do autor

27maio2026

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