O poder feminino de Olossá e Seki nas águas esquecidas da diáspora
No Brasil, Iemanjá dispensa apresentações. Ela é, sem sombra de dúvida, o orixá mais popular do país. No Brasil, rainha do mar, mãe de quase todos, sua imagem com os braços abertos para as ondas é conhecida até por quem nunca pisou num Terreiro. Enquanto outras divindades africanas foram apagadas ou demonizadas, Iemanjá ganhou até feriado fora do calendário judaico-cristão: 2 de fevereiro.
Mas o que pouca gente sabe, é que grande parte da família dessa grande mãe ficou pelo caminho. Enquanto ela cruzava o Atlântico dentro dos navios negreiros, escondida na fé dos nossos antepassados, suas irmãs, filhas e primas, donas de águas igualmente sagradas, nunca desembarcaram por aqui. Esta série é para lembrar os nomes delas.
Hoje, vou apresentar duas grandes Orixás da família de Iemanjá cujo culto não chegou ao Brasil: Olossá e Seki. Ambas são forças femininas, donas de águas calmas e profundas, guardiãs da ética, da proteção e do sustento. E ambas são, acima de tudo, prova de que o poder feminino no panteão Iorubá é muito mais vasto e diverso do que a diáspora brasileira conseguiu preservar.
Olossá: a senhora das lagoas e da fartura escondida Olossá (ou Olòssá) é a divindade das lagoas, dos rios lagunares e dos estuários, aquelas águas que ficam antes do mar, na transição entre o doce e o salgado. Enquanto Iemanjá rege todas as águas, Olossá comanda as águas calmas, os manguezais e os braços de rio que serpenteiam antes de encontrar o Atlântico.
Ela é extremamente protetora, sensível e zelosa. Nas tradições Iorubás, especialmente entre os subgrupos Egun/Ogu e Awori que habitam a região de Badagry, no noroeste da Nigéria, Olosá é a guardiã da fartura pesqueira. Assim como Iemanjá São dela os peixes, os crustáceos e toda a vida que sustenta comunidades inteiras. A laguna de Badagry e os pântanos costeiros que cercam o Estado de Lagos são considerados, na tradição espiritual Iorubá, a própria morada física e o corpo místico de Olosá.
Geograficamente, essa região é marcada pela Bacia de Badagry — um dos complexos sedimentares e hidrográficos mais importantes da África Ocidental, que se estende da Nigéria ao Benim, Togo e Gana. Seu principal rio é o Yewa ou Ewá , responsável por injetar água doce na laguna de Badagry, equilibrando a salinidade da bacia que corre paralela ao Oceano Atlântico, na chamada Costa do Daomé. Pois é ali, nessas águas de transição, que Olosá reina. E o Brasil, por razões históricas ligadas às rotas do tráfico e às escolhas religiosas feitas aqui, nunca cultuou essa força feminina.
Seki: o rio que é Orixá e a ética das águas protegidas Se Olosá é a senhora das lagoas, Seki é um Orixá que é, ele mesmo, um rio. Um pequeno riacho que nasce e deságua nos lagos de Badagry. Na cidade de Badagry, Seki é o principal culto entre as Comunidades Tradicionais. Profundamente ligada a Iemanjá, Seki é sua irmã, essa divindade carrega consigo um princípio fundamental: A ética e a proteção dos rios.
Os pescadores locais da etnia Egun/Ogu e Awori preservam até hoje tradições rigorosas de respeito a essas águas calmas, onde o rio Seki encontra as lagoas. Não se pode poluir, não se pode abusar, não se pode tirar além do necessário. Seki ensina que a água doce que corre devagar também tem dona. E que dona é feminina, vigilante e justa.
Seki não veio para o Brasil. Seu nome não foi cantado nos Terreiros baianos ou pernambucanos. Sua força ficou guardada do outro lado do oceano, esperando ser lembrada. E lembrar Seki é lembrar que a família de Iemanjá é imensa, e majoritariamente feminina.
Olokum: a matriz primordial que o Brasil já conhece (mas nem tanto) ntes de seguirmos, é preciso falar da matriz. Tanto Iemanjá quanto Olossá e Seki são filhas de Olokum, o Orixá primordial das profundezas abissais. Olokum governa as fossas marinhas, tudo o que está escondido no fundo do mar: riquezas, segredos e mistérios antigos.
No Brasil, Olokum é conhecido, especialmente no Candomblé de tradição Ketu, mas sua complexidade raramente é explorada. Na África, principalmente no Estado de Lagos e na cidade de Badagry, na maioria dos sítios Olokum é cultuado como uma divindade híbrida, hermafrodita, rei e rainha do oceano ao mesmo tempo, variando entre pai mãe e até denominado casal Olokum. Já em Cuba, na Santería, é visto como feminino ou andrógino, representando o útero primordial do mundo, Ou seja, mesmo o que "veio," chegou reduzido.
Ajé: a riqueza que chegou mais tarde Outra figura feminina poderosa dessa mesma família é Ajé (especificamente Ajé Salugá), A Orixá da riqueza. Ao contrário de Olossá e Seki, Ajé começou a chegar ao Brasil de forma mais consistente apenas no final do século XX, com um fluxo crescente de iniciações de brasileiros no culto tradicional Iorubá, principalmente na Nigéria e no Benim. Ajé ensina que riqueza não é só dinheiro, é abundância, é sustento, é aquilo que faz uma comunidade prosperar. E ela também é irmã de Iemanjá. Ou seja, o poder feminino dessa família é uma rede de águas, ética, proteção e fartura.
Um sopro que move tudo: Orugan Para completar, vale lembrar de Orugan, o Orixá do vento que move as águas, especialmente os ventos oceânicos e fluviais. Sem Orugan, as lagoas de Olossá ficariam paradas. Sem seus ventos, o rio Seki não correria. E as profundezas de Olokum não respirariam. Orugan é a força invisível que conecta céu e água. Também não veio para o Brasil.
Filho das Águas e da Terra: Na teogonia clássica, Orungan é descrito como irmão e as vezes citado como de filho e de Iemanjá com o Orixá Aganju (o senhor da terra firme e dos vulcões). Em outras ramificações e linhagens Iorubás de Ile Ifé, ele aparece como filho de Obatalá (Oxalá)
O poder feminino que espera do outro lado O que essa breve viagem nos mostra é que o Brasil conhece apenas uma fatia, importantíssima, viva, resistente, do universo iorubá. Iemanjá é gigante entre nós, mas suas irmãs Olossá e Seki seguem invisibilizadas. E o poder feminino que elas carregam é imenso! São elas que protegem as águas doces e salgadas, ensinam ética ambiental, garantem a pesca, guardam os estuários e lembram que nem toda força precisa vir do mar aberto. Às vezes, ela está nas lagoas calmas, nos pequenos riachos e na memória das que não puderam atravessar. Àṣẹ.
Se você, leitor ou leitora do Camaçari Agora, tiver interesse em aprofundar em algum Orixá específico dessa família, seja Olossá, Seki, Ajé Salugá, Orugan ou mesmo a complexidade de Olokum em Badagry, entre em contato diretamente com a direção do Portal. Podemos construir um texto detalhado sobre cada um deles. A conversa com os Orixás que não vieram está apenas começando...
João Borges é artista, filosofo, historiador, Babalorixá, é pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Difusão do Conhecimento (PPGDC/UNEB) e Professor em estágio de Doutorado Sanduiche na Lagos State University, Babalorixá e Artista Multe Linguagem
Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade do autor
29maio2026