Busca:

  Notícia
 
LUIZ DUPLAT NO COLUNISTAS: O medicamento e o voto


Luiz Duplat é médico obstetra, especialista em Saúde da Família e ex-secretário de saúde de Camaçari

O medo de ficar sem remédio não pode virar arma eleitoral 


Denúncia na Farmácia do Povo de Camaçari exige apuração, esclarecimentos da Secretaria de Saúde e respeito ao usuário do SUS 


Quem depende de remédio todo mês não vai à farmácia pública em busca de opinião política. Vai atrás da pressão controlada, da glicose sob controle, dá chance de seguir tocando a vida. Por isso a denúncia que circulou nas redes sociais na quarta-feira, 14 de outubro, merece muita atenção.


Uma usuária do SUS em Camaçari relata que na Farmácia do Povo, também conhecida como Farmácia 24 horas, servidores teriam dito a ela que, se Flávio Bolsonaro vencer a eleição presidencial, ela poderá ficar sem seus medicamentos, porque o ele acabaria com o programa, assim como, prejudicaria os aposentados. É uma denúncia, e precisa ser apurada, nem mais nem menos. Não dá para tratá-la como "disse me disse" de internet, mas também não dá para tratá-la como sentença.


O medo como método Quem trabalha na saúde sabe o peso que tem uma frase dita por um servidor. Uma pessoa idosa, hipertensa ou diabética, ao ouvir que pode perder o remédio, não escuta uma opinião política. Escuta uma ameaça à própria sobrevivência, dita por alguém que trabalha no serviço e tem a credibilidade de quem "entende do assunto".


É a pior forma de desinformação, fake news, porque chega disfarçada de orientação técnica, num lugar onde o usuário está frágil e dependente. Usar a necessidade de quem precisa de tratamento para induzir voto é usar o sofrimento de uma pessoa, em benefício próprio. Isso é incompatível com o serviço público.


O que é fato e o que é especulação Vamos por partes. Medicamento é direito, não favor do governante. Em 1971, no regime militar, foi criada a CEME (Central de Medicamentos) tinha como meta fornecer medicamentos básicos e fortalecer a indústria farmacêutica nacional. Contudo, operava sob uma lógica burocrática, centralizada e focada quase exclusivamente na distribuição de insumos, sofrendo ingerências políticas. 


A Constituição de 1988 fez da saúde um direito de todos e dever do Estado, e a Lei 8.080/90 colocou a assistência farmacêutica dentro do SUS. A política de medicamentos foi construída ao longo de décadas, por governos de campos ideológicos diferentes: Política Nacional de Medicamentos (1998), Lei dos Genéricos (1999), Política Nacional de Assistência Farmacêutica (2004). O acesso gratuito aos remédios do HIV/AIDS, garantido desde 1996, virou referência mundial e sobreviveu a trocas de presidente, de ministro da saúde e de ideologia política. 


Dito isso, é preciso honestidade com o outro lado da moeda. Até aqui, não há comprovação de que Flávio Bolsonaro tenha anunciado a extinção do Farmácia Popular do Brasil. Checagens de veículos como “Aos Fatos” e “TMC Prova”, não encontraram essa declaração nem previsão de fim do programa no plano de governo do candidato. Isso não significa que suas propostas para o financiamento da saúde estejam esclarecidas. O candidato pode e deve ser cobrado sobre ajuste fiscal, prioridades do orçamento e impacto sobre saúde, previdência e programas sociais. Esse é o debate legítimo. 


O que não é legítimo é pegar uma possibilidade não demonstrada, transformá-la em certeza e entregá-la a um paciente como se o tratamento dele já estivesse perdido. A informação correta protege a população. A errada, fake news, venha de onde vier, faz o contrário.


Farmácia Popular não é Farmácia do Povo Há ainda uma confusão que precisa ser desfeita. O Farmácia Popular do Brasil é um programa do governo federal, criado em 2004, que amplia o acesso por meio de farmácias credenciadas. Já a Farmácia do Povo 24h de Camaçari está cadastrada no Ministério da Saúde como farmácia municipal, mantida pela Prefeitura. São serviços distintos, com responsabilidades diferentes.


Isso tem uma consequência prática que quase ninguém comenta: o que existe, ou falta, na prateleira da farmácia municipal passa, antes de tudo, pela gestão local, ou seja, planejamento, compra, estoque e organização do serviço, no caso o prefeito e secretário municipal de saúde.


Nenhum resultado de eleição presidencial muda isso da noite para o dia. Se um usuário sente medo de perder o remédio, a primeira cobrança de transparência e de garantia deve ser feita a quem administra o balcão, o prefeito e o secretário de saúde daqui de Camaçari, e não ao presidente em Brasília.


O que diz a lei sobre o uso da máquina pública Não se trata só de má conduta moral. A Lei 9.504/1997, em seu artigo 73, proíbe o uso de bens, serviços e da estrutura do Estado em benefício de candidaturas. O servidor tem, sim, o direito de ter lado, de votar, de debater e de defender suas convicções como cidadão. A fronteira é clara: o que ele não pode é usar o expediente de trabalho, o uniforme, seu crachá e a confiança de uma pessoa doente para induzir o voto pelo medo. 


Debate político é necessário, mas o lugar dele não é o guichê da farmácia, o consultório, a recepção da USF ou a sala de vacina ou de curativo. 


E a Secretaria de Saúde de Camaçari? Aqui, o silêncio não é opção. A Secretaria precisa dizer se tem conhecimento da denúncia, se determinou apuração, se os servidores citados foram identificados e ouvidos, e se existe orientação formal, em período eleitoral, para que as equipes das unidades de saúde e das farmácias mantenham a neutralidade no atendimento. E precisa dizer, em linguagem simples, que o tratamento de quem depende do SUS está garantido, seja qual for o resultado da eleição.


A apuração deve ouvir a usuária com respeito e garantir o direito de defesa dos trabalhadores, sem condenação antecipada. Se a denúncia não corresponder aos fatos, a Secretaria tem ainda mais motivo para esclarecer com transparência. Se for confirmada, deve agir com rigor e sem proteger ninguém por conveniência política. Nos dois cenários, calar é a pior resposta. E quem se sentir constrangido ou ameaçado em uma unidade de saúde pode procurar a ouvidoria do SUS e o Ministério Público.


O medicamento não depende de voto A imensa maioria dos farmacêuticos e atendentes faz um trabalho sério, silencioso e fundamental. É por respeito a eles que um episódio como este não pode ser varrido para debaixo do tapete: a conduta de poucos, se comprovada, contamina a confiança em todos.


A mensagem que Camaçari precisa ouvir é simples. No SUS, o paciente não tem partido, o medicamento não tem ideologia e o direito à saúde não pode virar instrumento de chantagem eleitoral. Seu remédio é um direito, e ele não depende do seu voto. 


Luiz Duplat duplat.luiz@hotmail.com é médico obstetra, especialista em saúde da família e ex-secretário de saúde de Camaçari 


Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade do autor

21outubro2026

Mais Notícias

Brasil bate recorde com aumento de voos domésticos e internacionais
Governo reajusta valor do Bolsa Família e paga benefício antes das eleições
LUIZ CARLOS AZEDO NO COLUNISTAS: Os riscos do pleito de domingo
COLUNA CAMAÇARICO
LUIZ DUPLAT NO COLUNISTAS: O medicamento e o voto
Transporte com tarifa zero nos fins de semana e feriados pode custar entre R$ 20 e R$ 60 bilhões
CHICO RIBEIRO NETO NO COLUNISTAS: Menos espaço e conforto
ADELMO BORGES NO COLUNISTAS: A fundamental mobilização
FMI prevê volta do Brasil para a posição 8 entre as nações mais ricas em 2027
Maioria dos brasileiros enfrenta dificuldades para conseguir trabalho


inicio   |   quem somos   |   gente   |   cordel   |   política e políticos   |   entrevista   |   eventos & agenda cultural   |   colunistas   |   fale conosco

©2026 Todos Direitos Reservados - Camaçari Agora - Desenvolvimento: EL