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LUIZ DUPLAT NO COLUNISTAS: O atendimento à saúde e as interrogações


Luiz Duplat é médico obstetra, especialista em Saúde da Família e ex-secretário de saúde de Camaçari

Policlínica de Camaçari: onde estão os 54 mil atendimentos prometidos? 


A Policlínica de Camaçari foi vendida como uma revolução na saúde do município. Governo do Estado e Prefeitura anunciaram que iria realizar 54 mil atendimentos mensais.


Mas os números divulgados pela própria Prefeitura mostram outra realidade. Em julho, primeiro mês de funcionamento, foram realizados cerca de 8 mil atendimentos.


Diante disso, a pergunta é inevitável: onde estão os 54 mil atendimentos prometidos?


Mudar de endereço não é ampliar atendimento A principal dúvida não é sobre a qualidade da estrutura da Policlínica. É sobre a real ampliação da oferta de consultas, procedimentos e exames.


A nova unidade entrou em funcionamento ao mesmo tempo em que serviços já existentes foram fechados, absorvidos ou reorganizados, como a Policlínica Municipal, o CASM – Centro de Atenção à Saúde da Mulher e o CASC – Centro de Atenção à Saúde da Criança, implantados na gestão do prefeito Elinaldo.


O Cadastro Nacional dos Estabelecimentos de Saúde – CNES mostra que, no mês de julho, 63 médicos, 5 psicólogos, 4 enfermeiros, 3 nutricionistas, 17 técnicos de enfermagem foram transferidos dos serviços fechados para a Policlínica.


Se consultas, exames e profissionais apenas foram transferidos para outro prédio, não estamos necessariamente diante de uma ampliação de serviços. Estamos diante de uma reorganização. E reorganizar não é a mesma coisa que ampliar.


O custo invisível da mudança A discussão não pode se limitar às estatísticas. O fechamento ou esvaziamento de serviços especializados também afeta vínculos construídos ao longo dos anos entre pacientes e equipes de saúde. 


O CASM possuía identidade própria no cuidado à saúde da mulher. O CASC era referência para atendimento infantil especializado. Quando esses espaços deixam de existir, perde-se mais do que uma estrutura física: perde-se vínculo, referência, continuidade e acompanhamento.


Esses impactos não aparecem nos relatórios de produção, mas são sentidos pelos usuários e trabalhadores. Mais burocracia para quem precisa de atendimento 


Outra mudança chama atenção Antes, o retorno ao especialista podia ser marcado diretamente no serviço. Agora, o paciente precisa voltar à Unidade de Saúde da Família para iniciar um novo processo de agendamento.


Na prática, isso significa mais deslocamentos, mais tempo de espera e mais obstáculos para quem já enfrenta dificuldades para acessar o sistema. O SUS deve facilitar o acesso do usuário, não criar barreiras.


Faltam respostas A Policlínica é um avanço importante para Camaçari. Ninguém discute isso. O que precisa ser esclarecido é quanto da capacidade anunciada é realmente nova e quanto já existia na rede municipal. Algumas perguntas continuam sem resposta: 


Dos 8 mil atendimentos realizados em julho, quantos são realmente novos?


Todos os atendimentos realizados foram de munícipes de Camaçari, ou teve atendimentos de pessoas residentes em outros municípios?


Quantos atendimentos já eram realizados pelos serviços que foram fechados ou reorganizados?


Quantas novas vagas foram criadas?


Quantos profissionais foram contratados?


Qual o cronograma para atingir os 54 mil atendimentos prometidos?


Qual será o impacto nas filas e no tempo de espera?


Essas perguntas não representam oposição à Policlínica. Representam a obrigação de cobrar transparência de quem fez a promessa.


A população tem o direito de conhecer os números reais. E a Secretaria Municipal da Saúde tem o dever de apresentá-los.


Porque, transferir um serviço de endereço não pode ser vendido como a criação de um serviço novo. Antes de encerrar serviços e celebrar números, é preciso mostrar onde está a ampliação anunciada. 


Pois a população continua reclamando através de postagens em redes sociais e programas de rádio, das dificuldades para realizarem suas consultas e exames.


Luiz Duplat duplat.luiz@hotmail.com é médico obstetra, especialista em saúde da família e ex-secretário de saúde de Camaçari 


Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade do autor

19agosto2026

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