Domingo era galinha com macarrão
Tem prato de mãe que é inesquecível. Um que Dona Cleonice faz até hoje é bem simples, não entra carne nem frango, mas é uma delícia: chuchu com ovos. A simplicidade é enriquecida com temperinho verde e o prato fica uma delícia. Como diz o outro, “você esquece até que não tem carne”. E ainda tem a cara de satisfação da mãe, à mesa, perguntando se a gente quer mais. Pois é: mãe que é mãe fica olhando o filho comer.
Os pratos têm a cara do dia. Sexta é dia de peixe, sábado é sarapatel e domingo é feijoada ou macarrão. Bife tem cara de segunda-feira, a terça parece com um cozido e a quarta talvez uma galinha de molho pardo ou fígado. Quinta é um dia meio indefinido pra comida, mas pode vir um lombo, daqueles que aguentam na geladeira até domingo e o caldo vai ficando cada vez mais gostoso pra uma farofinha.
Galinha com macarrão é a cara do domingo quando eu tinha 10 ou 12 anos. Caldo bom, gostoso, galinha morta ainda de manhã no quintal, “a moela é minha”, “mentira, mamãe, é que ele já comeu o coração”, “vê se deixa um . pouco do caldo qu’eu também quero”.
Depois da galinha, comida ainda procurando assento na barriga, uma “lapa” de goiabada pegada de mão mesmo, a boca toda melada e a roupa já pronta pro cinema, tudo ligeiro porque a sessão era às duas da tarde.
A Coca-Cola era pequena, mas dava pra dividir. Vixe, tá na hora de sair senão não pega o filme começando. Mamãe dá pouco dinheiro, a gente faz cara feia e consegue mais. Cleomar, meu irmão, sai na frente me dando pressa. Já no cinema, depois do segundo tiro, o primeiro arroto.
Era o Cine Santo Antônio, ali numa rua que vai dar no Convento de São Francisco, em Salvador. Se ainda restassem alguns minutos pra começar, trocávamos revistas ou vendíamos algumas apurando o dinheiro da pipoca ou do picolé na saída.
Lá dentro, a felicidade superava o imenso calor, o grito era fácil e o coração batia junto com as badaladas que anunciavam o início do filme. Aliás, dois filmes e um seriado. A gente entrava no cinema às duas e já saía com o dia escuro e a cabeça cheia de aventuras. “Será que o artista do seriado vai ficar uma semana pendurado naquele galho em cima da cachoeira, com mais de 20 bandidos lá embaixo atirando?”
Poucos anos depois, o Cine Santo Antônio fechou. Quando estava ali perto, gostava de passar pela porta do cinema, mesmo fechado, para olhar aquela sala de espera com o chão de azulejos e o portãozinho verde, que quando o porteiro abria era o estouro da boiada. Depois do filme, descer a ladeira correndo era uma delícia e tinha conversa pra chegar até em casa e ainda sobrava: “Você viu naquela hora?”.
Ver o filme “Cinema Paradiso” foi uma viagem ao Cine Santo Antônio. (Crônica pulicada no jornal A Tarde em 25/7/1990)
Chico Ribeiro Neto chicoribe@gmail.com nasceu em Ipiaú (BA) é jornalista profissional, começou na Tribuna da Bahia. Trabalhou na sucursal da Revista Manchete em Salvador e na sucursal do Jornal do Brasil em Porto Alegre. No jornal A Tarde foi editor de Economia, chefe de Reportagem e secretário de Redação
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5abril2026