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Luiz Carlos Azedo no Colunistas: A delação do banqueiro Vorcaro


Luiz Carlos Azedo é jornalista e analista político

O voo de Pegasus, os jacobinos e a encruzilhada do caso Master


Se optar pela delação premiada, Daniel Vorcaro poderá revelar conexões entre empresários, autoridades e operadores financeiros, um strike político


A troca de advogados do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, repercute intensamente em Brasília: pode escalar ainda mais o escândalo, que envolve o sistema financeiro, autoridades públicas e o próprio Supremo Tribunal Federal (STF). O empresário passou a considerar a hipótese de uma delação premiada, sobretudo após a formação de maioria no STF para manter sua prisão, e isso deixou seus parceiros à beira de um ataque de nervos. Se isso ocorrer, atingirá o coração da República. É um homem-bomba.


A trajetória de Vorcaro lembra o mito grego de Pegasus, o cavalo alado nascido do sangue da Medusa quando ela foi decapitada por Perseu. Domado pelo herói Belerofonte, tornou-se instrumento de feitos extraordinários, como a derrota da Quimera. Embriagado por suas conquistas, Belerofonte tentou voar até o Olimpo montado em Pegasus para se igualar aos deuses. Zeus, irritado com tamanha arrogância, derrubou o herói do céu. O cavalo continuou sua ascensão; o homem, castigado pela ambição desmedida, caiu à terra. O mito tornou-se símbolo clássico da hybris, a arrogância que precede a queda.


A vida empresarial de Vorcaro seguiu essa lógica. Em poucos anos, o Banco Master ganhou grande visibilidade, expandiu operações financeiras e seu peso no mercado aumentou exponencialmente, em meio a operações financeiras fraudulentas, relações políticas e regulatórias duvidosas, que agora estão sob investigação.


A manutenção da prisão do banqueiro e a troca de defesa indicam que Vorcaro ainda tenta abrir um paraquedas antes de se estatelar no solo. Se optar pela delação premiada, poderá revelar conexões entre empresários, autoridades e operadores do sistema financeiro que prometem provocar um strike político. Por si só, essa ameaça mexe as peças do tabuleiro político.


A eventual delação ocorreria num momento delicado para o próprio sistema institucional brasileiro. Parte das investigações do caso Master envolve o ambiente político e judicial em torno do Supremo Tribunal Federal (STF), especialmente o papel do ministro Alexandre de Moraes, que no próximo ano deverá assumir a presidência da Corte. Moraes tornou-se uma figura central na política brasileira. Como relator do inquérito das fake news – conhecido como “inquérito do fim do mundo” – e de diversas investigações ligadas ao bolsonarismo, concentrou poderes excepcionais no combate a ameaças contra as instituições democráticas.


Radicalismo e desequilíbrio   O protagonismo de Moraes recebeu apoio de amplos setores políticos e sociais, que viram nele um defensor da democracia diante de investidas autoritárias do ex-presidente Jair Bolsonaro. Ao mesmo tempo, sua atuação também foi alvo de críticas, particularmente no mundo jurídico, por decisões consideradas heterodoxas demais quanto ao devido processo legal. É inevitável a comparação de Moraes com os jacobinos da Revolução Francesa no contexto atual.


Liderados por Maximilien Robespierre, os jacobinos representavam a ala mais radical da revolução. Defendiam igualdade política, soberania popular e medidas sociais para conter a desigualdade. Durante o período conhecido como Terror, entre 1793 e 1794, concentraram enorme poder no Comitê de Salvação Pública, utilizando tribunais de exceção para eliminar adversários da revolução.


O radicalismo jacobino, porém, isolou o próprio grupo. Setores da burguesia temiam suas políticas sociais; parte do povo passou a desconfiar do regime de exceção; e adversários políticos articularam um golpe parlamentar conhecido como 9 de Termidor. Robespierre e seus aliados foram presos e executados na guilhotina em julho de 1794. A revolução, que havia liquidado a monarquia, passou a devorar seus próprios líderes.


Estamos diante de personagens históricos distintos, mas a analogia é perfeita para analisar um fenômeno recorrente na política: a concentração extraordinária de poder em momentos de crise pode produzir tanto autoridade quanto isolamento. Moraes tornou-se um símbolo da reação institucional contra o autoritarismo recente no Brasil. Contudo, o acúmulo de funções – relator de investigações sensíveis, figura central no combate à desinformação e futuro presidente do STF – faz com que seu papel também seja observado com crescente atenção e, em alguns setores, com desconfiança.


É nesse ambiente que uma eventual delação premiada de Vorcaro pode produzir um tsunami. Investigadores já indicaram que não aceitarão uma colaboração parcial: caso haja acordo, todas as relações e eventuais ilícitos envolvendo autoridades ou instituições terão de ser revelados. A depender do conteúdo das revelações, o escândalo pode atingir figuras do sistema político, do sistema financeiro e até mesmo do ambiente institucional do Judiciário.


Luiz Carlos Azedo é jornalista, analista político, escreve para o Correio Braziliense 


Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade do autor

17março2026

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