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Edson Miranda


O Encarceramento da vida na hipocrisia da política eleitoral



Parte 3


Vamos lá! Como afirmei na parte 2, tentarei desenvolver agora alguns aspectos da história para falardo tema da atual política eleitoral.


Esta semana o historiador Daniel Aarão Reis (Universidade Federal Fluminense), que militou na Esquerda no período da luta contra a ditadura, nos trouxe uma questão importante e, na minha compreensão, merecedora do máximo de esforço no sentido da sua elucidação.


Ele afirmou: “À guisa de autocrítica (mas sem deprimir): O que fizemos da nossa democracia para que Bolsonaro tenha 40% de intenção de votos num segundo turno de eleições presidenciais? Como desfazer o que fizemos?”.


O próprio Aarão vem buscando pistas, como nessa entrevista ao jornal El País, em janeiro deste ano, quando afirma que o sistema político brasileiro é um cadáver, apodrecendo a céu aberto.


Ele ainda afirma: “nos governos tucanos e petistas, perdeu-se uma chance histórica de reformá-lo. Tanto o PSDB como o PT preferiram, para governar, aliar-se a forças fisiológicas e conservadoras, perdendo a perspectiva reformista que tinham, quando de suas fundações”.


Continua: “a ira popular manifestada em 2013 foi simplesmente ignorada, logo que refluiu. Como também não foi capaz de formular programas precisos nem estruturar organizações autônomas, esta ira acabou se esvaindo sem produzir resultados concretos.


Nestas condições um sistema em quem ninguém confia mais continua se arrastando, vísceras expostas, aumentando o ceticismo e o pessimismo quanto à nossa democracia “realmente existente”.


Evidente que de há muito já se faz necessário uma reforma do nosso sistema político no sentido de tornar a nossa Democracia representativa mais forte, menos vulnerável a aventuras, tanto à direita quanto à esquerda, e capaz de comportar os extremos, que hoje se encontram em disputa, sem esse clima de guerra ou de tudo ou nada.


Evidente que a falta de uma reforma substantiva do nosso sistema político, que nos retire definitivamente dessa possibilidade de virarmos, mais uma vez, uma república de bananas, é um fator importante para nos encontrarmos mergulhados nessa guerra do fim do mundo.


Entretanto, creio, temos que ir mais fundos na busca de respostas para a questão em tela.


Nesse sentido a própria História é uma referência fundamental de consulta, haja vista tratar-se não apenas de um problema do Brasil, mas de um fenômeno mundial.


A atual instabilidade da vida, refiro-me às suas diversas dimensões, está nos conduzindo a uma espécie de instabilidade psíquica mundial que tem levado a que vários povos sacrifiquem suas democracias e liberdades em troca da oferta de um “mundo mais estável, mais conservador”.


Acredito que o pensamento de Direita tem crescido em todo o mundo na contrapartida da sua busca para se constituir no atual fiador dessa nova perspectiva. Esta é quem, na atualidade, se digladia com o movimento da humanidade na busca por mais direitos e mais liberdades, que se encorpou, principalmente, depois da Segunda Guerra Mundial.


Como afirmei na parte anterior deste artigo, a moldagem da História com esperanças exageradas, fruto de profecias irrealizáveis, tem levado à concretização do seu contrário.


O professor de História da Revolução Francesa, Georges Lefebvre, já nos alertava no século passado: “ as consequências das ações históricas são frequentemente contrárias às intenções daqueles que as decidem”.


Hoje em dia não precisamos nem esperar por longos períodos históricos para percebermos a validade de tal assertiva, como nos casos do período de terror para o qual descambou à Revolução Francesa ou o fenômeno da alienação da sociedade soviética que também citei na parte anterior do artigo.


Essa nova plasmação de consciências contrárias a determinadas ações históricas não nos chega mais a cavalo. Com a revolução das Comunicações ela chega com a mesma velocidade com que as redes são capazes de produzir informações e gerar novos conhecimentos.


Faço aqui uma pequena pausa. Não tinha passado por minha cabeça citá-lo nesse artigo, mas, nesse momento, recebo via jornais, a triste notícia sobre a morte do filósofo francês Paul Virilio. O pensador de Velocidade e Política, que tratou de forma maestral da militarização da vida, é uma fundamental referência para compreendermos as novas realidades e refundarmos um pensamento capaz de uma maior aproximação com o senso de complexidade e das incertezas da História.


Diferentemente do que escrevi na parte 2 desse artigo, baseado na ideia de “Democracia Cognitiva” e de “Civilização da Conviviabilidade”, a partir da leitura de Ivan Illich, Virilio acreditava que, “uma vez que o tempo está estreitamente relacionado com o poder, a velocidade e o modo como é empregue passa a ter um peso que faz dela uma forma de violência e um meio essencial de controle nas sociedades modernas”.


Só de sacanagem, mas não posso deixar de fazê-la, pois acho a propaganda uma babaquice, particularmente quando manifestada através da boca do governante, é como no dito: “a correria não pode parar”. Uma maneira um tanto quanto tosca de manipular emoções. À direita e à esquerda já existem formas mais sutis.


Dessa maneira, Virilio dizia que o ciberespaço e a velocidade não estavam a promover a globalização, mas apenas a virtualização e que “a internet era a ponte, não para um mundo mais próximo, conectado, mas para uma “colônia virtual”,  em que vivemos todos, uma espécie de “uma vida de substituição”.


Em consequência dessa desintegração dos territórios, Paul Virilio viu na expansão das redes sociais o perigo de, por via da “sincronização das emoções”, tratamos disso aqui na segunda parte quando falamos da expansão atual da pós-verdade, se estar a abrir caminho para um “comunismo dos afetos”, o que, segundo ele, resultaria numa forma de tirania evoluída.


Voltemos ao tema da História.


A situação atual do Brasil pode já ser um caso típico do fenômeno identificado por Lefebvre. Depois de 14 anos de governos de Esquerda, a Direita sai da sua caixinha, se agiganta, e se candidata para surfar uma nova onda em terras pindoramas.


Ao invés do ambiente de maior igualdade que se planejou, surge um novo ambiente de desigualdades ainda maiores, de ódio e ressentimentos. Nesse caldo, não fica difícil discernir que o sentimento que deve guiar boa parte do eleitorado às urnas em 2018, talvez seja o sentimento de vingança.


Mais típico ainda é a situação para a qual a Venezuela declinou. Depois de pouco mais de uma década de ações históricas para conduzir o país ao paraíso terrestre, via socialismo místico bolivariano, é o próprio pensamento que se requer de Esquerda e que se encontra no poder, quem extermina seu próprio proletariado juvenil.


Relatório da Anistia Internacional divulgado hoje acusa o Estado venezuelano, o tal regime “socialista de Maduro”, de “usar a força intencionalmente contra a população mais vulnerável e excluída socialmente”.


A ação das forças policiais e militares bolivarianas fez com que a taxa de homicídios na Venezuela pulasse para 89 casos para cada 100 mil habitantes, quase triplicando o indicador do Brasil que é de 30 para cada 100 mil. O que, considerando-se o quantitativo da população venezuelana, é uma grande tragédia.


São quase 9 mil jovens assassinados num período de dois anos. Observatório da Violência dentro da Venezuela traz números maiores.


São execuções extrajudiciais, jovens pobres, na maioria das vezes inocentes, que são assassinados dentro de casa, na frente de seus familiares, igualzinho aos chamados autos de resistência no Brasil.


No Brasil a chamada “Esquerda” além de não condenar de pronto o caminho autoritário e cruel que a Ditadura venezuelana vem trilhando ainda emite notas e mais notas de apoio.


Com certeza vai ficar na conta de outras barbaridades autenticadas pelo pensamento de esquerda mundial. Depois se busca uma narrativa histórica para jogar nas costas dos contrarrevolucionários.


Não se constrói civilização sem um pensamento crítico corajoso o suficiente para condenar também a barbárie patrocinada pelos nossos.


Precisamos urgentemente mudar a nossa forma de pensar e ver o mundo atual.


Einstein afirmava que “insanidade é fazer as coisas do mesmo jeito e esperar resultados diferentes”.


Vivemos um processo de desenvolvimento humano que reage, o tempo todo, constantemente, às nossas predições, gerando um novo paradoxo para o conhecimento histórico: quanto mais sabemos, menos somos capazes de afirmar verdades absolutas ou mesmo fazer previsões.


Outro importante historiador, o israelense Yuval Harari, costuma afirmar que conhecimento que não muda o comportamento é conhecimento inútil, mas aquele que muda o comportamento humano perde rapidamente relevância.


Nesse sentido, afirma ele: “quantos mais dados tivermos e quão melhor compreendermos a história, mais rapidamente a história alterará seu curso e mais rapidamente nosso conhecimento se tornará obsoleto”. Isto me parece bastante lógico.


Tudo isso me leva a afirmar que o mais importante nessa quadra da nossa história é abdicarmos de verdades absolutas e enfrentarmos a busca de um novo método para discutirmos os problemas atuais que afetam a nossa humanidade.


Um método condizente com essa nossa contemporaneidade que, em muitos casos não se configura completamente líquida. Prefiro a imagem de um plasma que antes de se consolidar, dada à velocidade das nossas ações, arranja uma nova forma plasmática.


Também sem abdicar da nossa capacidade de interpretação da realidade social, colocar essa interpretação a serviço da busca da verdade em um patamar mais alto do que a imaginação do poder.


Isto também significa como afirma ainda Lefbvre que “todo conhecimento deve ser historicizado e de modo algum existe um ponto de vista absoluto para o observador”.


Ou ainda na visão de Heinz Von Foerster, tão magistralmente assinalada nos estudos de Edgard Morin: “ o observador deve observar-se em sua observação, que o conhecimento de um objeto deve conter o conhecimento do sujeito cognoscente, que todo conhecimento deve conter seu autoconhecimento”.


Acredito que o diálogo entre as mais diversas correntes de pensamento, como já colocam em andamento, existem iniciativas, poucas, mas existem, povos que se digladiaram durante longos períodos da história, seja um caminho, no meio de toda essa confusão, para um novo estatuto filosófico, para uma nova construção e exercício da Política e para uma vida mais saudável, harmoniosa e sustentável para nós humanos e os demais seres vivos.


É isso, mais uma vez ficou longo, não deu para cumprir o prometido, mas serve de lição para mim no sentido de que nem sempre um político pode cumprir tudo que promete. rsrsrs


Edson Miranda mbedson@gmail.com é jornalista, professor universitário e escreve no blog do Miranda


 
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