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Edson Miranda


Caetanus Eucaliptus



Neste artigo, conforme prometido, pretendo demonstrar como a conduta política atual de Caetanus de Camaçari não guarda mais nenhum sinal que nos remeta à ideia de que estamos diante de um projeto coletivo e de Esquerda. 


Vou fazer aqui um uso reducionista da distinção básica que o pensador italiano Norberto Bobbio faz entre Direita e Esquerda, caracterizando essa última como promotora do Igualitarismo, para mostrar que a prática política de Caetanus passa bem longe desse ideal, reafirmado por Bobbio no seu livro Direita e Esquerda: Razões e Significados de uma Distinção Política.


Nele, Bobbio defende a ideia de que essa diferença continua bem viva, apesar do pensamento Pós Moderno tentar relativizá-la e o pensamento Neoliberal querer a todo custo matar e sepultar tal diferenciação, particularmente após a queda do muro. 


Como afirmei acima, por razões óbvias, espaço deste artigo, vou ficar apenas nesse aspecto, da Igualdade, consequentemente, do enfrentamento da “barbárie da acumulação e do lucro desenfreado”, promovida pelo modo de produção capitalista. 


Apesar de defender, e aqui não poder expor, que o pensamento de Esquerda deva ser atualizado, com a incorporação de várias novas ideias, principalmente de pensadores não marxistas, para ser capaz de enfrentar, também, a segunda barbárie na qual a humanidade, atualmente, se encontra mergulhada, que é a “barbárie dos dogmatismos e fanatismos”, conforme nos alerta  o pensador francês Edgar Morin. 


Nesse sentido, podemos buscar referências pessoais em várias lideranças de Esquerda no Brasil e no mundo, líderes do passado e do presente. No momento, lembro de Mário Soares, socialista português, e de Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai, como portadores de valores e de condutas humanas que podem servir de base para a emergência de um novo pensamento de Esquerda mundial. 


Pois, para além do critério revolucionário da franqueza e de buscar de maneira séria e responsável a difícil verdade entranhada e escondida nas coisas,  Mujica particularmente, encara e convive com essa feroz Medusa, que ronda próxima da pobreza e da miséria de amplas massas, sem se deixar contaminar com a ideia de que a única forma de se livrar e livrar os seus dessa realidade aterradora, é também acumular e passar a ter uma vida, presente e futura, de comodidades e sem “riscos’. 


A Medusa capitalista escancara essa miséria para nós o tempo todo, buscando nos amedrontar, ao tempo em que também busca nos seduzir, nos cooptar, na verdade corromper os nossos mais caros valores para, assim, conseguir a nossa "livre adesão" ao seu estilo de vida.


Não se trata de um julgamento meramente moral, nem de pedir que façam votos de pobreza, mas no Brasil, muitas das atuais lideranças que se diziam de esquerda, na primeira oportunidade que tiveram de verdadeiramente mexer com os alicerces históricos das desigualdades, abandonaram a determinação, a ousadia e a coragem, se apequenaram, se amedrontaram, para, ao fim e ao termo, tentar livrar apenas a si e aos seus daquilo que no Brasil ainda se afirma como destino: a miséria e a pobreza. 


Seus nervos viraram pedras diante da terrível Medusa, não aprenderam com Ulisses que tapou os ouvidos para não ser seduzido pelo canto mortal das sereias. 


Como posso combater a barbárie da acumulação se culturalmente e a cada dia meu estilo de vida se parece mais com o estilo de vida daqueles a quem sempre condenei. Como posso defender a quem não tenho mais nenhum tipo de identificação, nem de classe, nem cultural, muito menos de consumo. 


Como promoverei um mundo de justiça e igualdade se não consigo imprimir nenhuma diferença em relação àqueles que, muitos sem uma consciência precisa desse fato, são promotores de desigualdades e injustiças. 


Acredito que a principal disputa com as iniquidades promovidas pelo capitalismo é uma disputa simbólica. Uma disputa de valores e ideias e práticas que são caras e fundamentais não a um projeto ultrapassado e salvacionista de esquerda, mas, a um processo emancipador da condição humana. 


Nesse sentido, não posso pregar contra o capitalismo, a favor da igualdade, e ter uma prática política e ideológica de concessões a determinados valores desse modelo que estão na raiz da desumanização ou condutas pessoais e cotidianas que reforcem a paranoia consumista do capitalismo atual.


Se quero ter uma vida de acúmulos a Política não pode ser meu espaço, particularmente a Política de Esquerda. Essa política requer uma certa doação um certo sacerdócio. Vá empresariar em outro quintal!


 


Se tivéssemos aprendido mais com o jovem Marx antropológico dos Manuscritos econômico-filosóficos do que com o Marx adulto do Capital, perceberíamos que, quando o ímpeto juvenil acaba e a dura realidade do fim da vida se aproxima, esse “homem genérico” tanto é capaz de grandes virtudes quanto de grandes vilanias. Não teríamos apostado tanto em “gigantes com pés de barros”.


 


Perceberíamos que a figura do super-homem, o líder forte e tenaz, condutor da Revolução, o guia espiritual das massas é apenas um mito. No fundo no fundo somos todos apenas seres humanos, de carne e osso, cada um com as suas forças, mas também com as suas fragilidades, paranoias e idiossincrasias. 


Por isso, que uma nova utopia de Esquerda não pode mais ser assentada na idolatria desse único e grande líder. Desse único guia. Mas, ao contrário, deva ser sustentada numa estrutura de poder extremamente horizontalizada e iconoclasta por natureza. 


Para isso precisamos estimular o aparecimento de muitas lideranças. Distribuir o poder entre milhões e não concentrá-lo nas mãos de poucos ou de um único. 


Algo que Caetanus perseguiu de forma sistemática nas últimas décadas, impedindo qualquer possibilidade de que uma nova liderança pudesse ombreá-lo. Exceto alguém bem próximo e familiar. Exercendo um poder de controle que ao final se mostra extremamente negativo para um processo emancipatório e de Esquerda. 


Nesse sentido e de forma positivista, Caetanus se assemelha a uma plantação de eucaliptos. Nada cresce ou prospera ao redor. Não passa, guardada as devidas proporções, de um novo, um (Neo) Oligarca local. Com a ajuda e o sacrifício de muitos, ele apenas formou uma Nova Oligarquia em Camaçari. 


O que tudo isso tem a ver com a nossa velha utopia? Fica a pergunta no ar. 


Uma lição importante a ser retirada de toda essa experiência das últimas décadas no Brasil e em Camaçari é sobre a natureza ainda privada de um mandato institucional. Um mandato é uma empresa no máximo familiar no nosso país. Poucos mandatários conseguem fugir a essa lógica. Isto também é um forte sinal de que uma conduta desse tipo não tem serventia alguma a um projeto de Esquerda e de natureza coletiva. 


Devemos continuar fazendo o bom combate dentro da própria Esquerda para mudar esse caráter e essa natureza privada que caracteriza a presença de muitos dos nossos na institucionalidade. 


Por fim, acredito que expondo o que penso da forma franca e aberta, como estou a fazer aqui, busco muito mais colaborar com um processo de análise, que as forças que se dizem de esquerda em Camaçari devam ter a coragem de realizar, do que, simplesmente, tecer críticas ácidas à liderança de Caetanus de Camaçari, que também, evidentemente, possui pontos positivos a serem resgatados nesse histórico balanço.


Edson Miranda mbedson@gmail.com é jornalista profissional, mestre em comunicação e culturas contemporâneas e especialista em marketing politico eleitoral e assessor da candidata a prefeita de Camaçari, Jailce Andrade


 
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