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Sócrates Torres


Doce ou susto?



Dois acontecimentos simples e pessoais a respeito da gestão pública em Camaçari me fizeram refletir bastante sobre nossa cidade. Uma vez, em 2008, quando eu me preparava para deixar um governo que tinha uma estampa bonita frente à população, mas que carregava ranços e vícios encrustados. Já era início de noite e eu saia do gabinete quase vazio quando ouvi um movimento vindo de uma dos corredores. Um segurança reprimia um jovem aprendiz porque o mesmo tentara sair do prédio levando uma resma de papel ofício para casa.


Me aproximei e perguntei o que se passava. O segurança segurava o braço do adolescente com força e esse chorava. Pedi para ele largar o garoto e perguntei a ele o que acontecia. Ele disse que estava levando o papel ofício porque a escola tinha pedido e sua família não tinha dinheiro para comprar. E como na prefeitura tinha muitos, ele resolveu correr o risco de subtrair o bem público. Falei com ele que isso era errado, e o segurança dizia coisas pesadas, chamando o jovem de ladrão, vagabundo. 


Pedi para o segurança parar de dizer aquilo. O jovem então falou uma coisa que me fez refletir muito e ser decisivo na minha saída do governo meses depois. Ele tentou justificar sua atitude dizendo que na prefeitura quase todo mundo roubava e que a população sabia disso. Disse que o prefeito roubava e que todos comentavam, e que uma resma de papel não era nada em relação aos roubos que muitos faziam...


Peguei a resma de papel e falei para o segurança guardar. Disse para o jovem não fazer mais aquilo, que um erro não justifica o outro e que ele fosse embora. Prometemos os três não comentarmos o ocorrido para que o jovem não perdesse o emprego. Ele saiu e comentei com o segurança que em um certo aspecto o aprendiz tinha razão, mas não que justificasse o roubo. Percebi a partir desse episódio que o funcionalismo em diversas esferas não tinha na administração central uma referência positiva que os levasse a realizar um serviço de qualidade e ético. Que no final das contas a população arcava com essa falta de credibilidade da gestão.


Numa outra ocasião em 2010, já fora do governo e aqui no meu exílio voluntário em São Paulo, fui visitar minha cidade e resolvi caminhar até que encontrei uma banca de pastéis em uma praça. Era um comércio irregular. Estava vendendo bem, tinha qualidade, mas sujava tudo. O óleo caia na grama, certamente tinha pouca higiene. Comi um pastel e conversei com o dono. Elogiei o pastel e perguntei se ninguém da prefeitura o incomodava. Se algum fiscal o teria procurado, multado ou coisa que o valha.


O ambulante me disse algo também marcante que me fez ter mais certeza de que minha atitude de pedir exoneração tão incompreendida por muito na época fosse a mais assertiva. Ele, meio enraivado, disse que "Tomara eu ver" o prefeito - nem falou de fiscal - ir ali dizer que um trabalhador honesto não poderia defender o seu pão. Disse que ele, o prefeito, não tinha moral para falar nada. Complementou bradando que não era um governo sério, que "só tinha ladrão", "cheio de fantasmas" - nas palavras dele - e que faria um escândalo com carro de som na porta da prefeitura se alguém fechasse seu humilde comércio. E que não tinha intenção nenhuma de regularizar nada. 


Nesse momento vi que a população não acreditava na gestão e nem nos gestores. Que muito das irregularidades que causam caos, violência na cidade tem raízes fortes na visão que a população e o funcionalismo tem das pessoas que administram o município. Muito do descrédito que a cidade vive, que eclode em corrupção, violência, vem justamente da falta de exemplos positivos que possam ser referência para o cidadão camaçariense. Percebi que apenas uma mudança na lógica arraigada de falta de seriedade poderia criar um ciclo virtuoso na cidade. Assim as políticas públicas teriam mais eficácia e o discurso fácil e acusatório daria lugar a propostas de um projeto de cidade.


Terça-feira (1/11) fui "surpreendido" em rede nacional por uma sessão relâmpago em que oposição e governo se dão às mãos para aprovarem um imoral aumento nos seus vencimentos mesmo diante de uma crise econômica e, acima de tudo de credibilidade das instituições. Os vereadores parecem não estarem conectados com os problemas sérios, palavra difícil nesses tempos, em que atravessamos. Com absoluta falta de respeito ao povo sofrido da nossa cidade cometem esse crime contra a inteligência dos cidadãos.


Essa é uma grande oportunidade para a intervenção do prefeito eleito de mostrar a que veio. Se vem para manter a cidade na situação que mencionei anteriormente ou se foi eleito com uma votação incontestável para mudar essa lógica perversa e desrespeitosa que é vigente em Camaçari. Ele, como edil atuante e recentemente desincompatibilizado, com trânsito tanto na Câmara como com o atual prefeito poderia interceder, com todos o seu capital político conquistado por uma vitória acachapante, teria a obrigação de tentar reverter isso. 


Seria um "arriar das malas" digno de quem busca uma efetiva cidade melhor, mais humana e justa. Esse caos pode se converter na sua primeira "vitória", não contra a oposição, mas como sinalizador da gestão que pretende imprimir na cidade. Agora nos resta ver que não seja apenas a pressão popular ou a veiculação nas redes e imprensa que façam com que os vereadores, recuem, mas a intervenção diplomática razoável do prefeito eleito de Camaçari. 


Alea jacta est 


Sócrates Magno Torres socratesri@yahoo.com.br é educador,  camaçariense exilado em São Paulo, docente de Ética e Cidadania em projetos sociais


 


 
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