Bahia: 20 anos depois, o medo virou parte da paisagem
Bahia ocupa apenas o 22º lugar do país em Segurança Pública no Ranking de Competitividade dos Estados 2026 e é a última colocada do Nordeste. Depois de duas décadas sob o comando do mesmo grupo político, os números tornam cada vez mais difícil transformar novas promessas em esperança.
Há vinte anos, quando o atual grupo político chegou ao poder, a Bahia já enfrentava problemas de segurança. Mas os números eram muito diferentes.
Em 2006, a taxa de homicídios era de 23,7 por 100 mil habitantes. A violência cresceu fortemente nos anos seguintes e passou a operar em outro patamar.
Duas décadas depois, um novo indicador ajuda a dimensionar o tamanho do problema: no Ranking de Competitividade dos Estados 2026, elaborado pelo Centro de Liderança Pública (CLP), a Bahia aparece em 22º lugar entre as 27 unidades da Federação no pilar Segurança Pública. No Nordeste, é pior: 9º lugar entre nove estados. A última colocação.
Esse talvez seja o retrato mais constrangedor de uma trajetória que já dura praticamente uma geração.
Vinte anos não são vinte meses. Não estamos falando de um governo recém-chegado, obrigado a administrar uma herança que desconhecia. Estamos falando de um mesmo projeto político comandando o Estado por quatro mandatos consecutivos e entrando no quinto. Tempo houve. Poder houve. Orçamento houve. O que faltou foi resultado.
Os números mais recentes da violência letal reforçam o problema. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 mostra que, embora o Brasil tenha alcançado em 2025 a menor taxa de mortes violentas intencionais desde 2012, a realidade permanece profundamente desigual entre os estados. Portanto, não se trata apenas de estatística.
A violência aparece no comerciante que fecha as portas mais cedo. No trabalhador que muda o caminho de casa. Na família que teme atravessar determinados bairros. Na criança cuja rotina escolar é atingida pela violência. No cidadão que aprende a conviver com o medo.
Quando o medo passa a determinar a rotina das pessoas, alguma coisa deu muito errado. E depois de vinte anos governando, chega um momento em que a promessa perde valor.
Quem recebeu a Bahia com uma taxa de homicídios de 23,7 por 100 mil habitantes e, duas décadas depois, governa um estado classificado em 22º lugar do Brasil e último do Nordeste em Segurança Pública, não pode simplesmente aparecer diante do eleitor e dizer que agora vai resolver.
Agora quando? Depois de mais quatro anos?
Segurança pública exige inteligência, investigação, tecnologia, integração das forças policiais, presença territorial, prevenção, política prisional e combate ao poder financeiro das organizações criminosas.
Mas exige, antes de tudo, reconhecer o fracasso para poder mudar.
Depois de vinte anos, a Bahia não precisa ouvir mais uma promessa sobre o que será feito. Precisa saber por que não foi feito.
José Américo Sillva zamerico1961@gmail.com é jornalista, publicitário, consultor de marketing político, baiano radicado em Brasília
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11setembro2026