Quando governar não basta
Na Bahia de 2026, a disputa entre Jerônimo Rodrigues e ACM Neto mostra que mandato garante poder, mas não garante liderança.
A eleição para o governo da Bahia em 2026 está se transformando em uma das disputas mais interessantes do país. E não apenas pelo peso político do estado ou pela polarização entre governo e oposição. O que está em jogo é uma velha lição da política: ocupar um cargo não significa, necessariamente, construir autoridade política.
Jerônimo Rodrigues chegou ao governo em 2022 impulsionado pela força de um dos grupos políticos mais bem-sucedidos da história recente da Bahia. Teve ao seu lado o presidente Lula, o então governador Rui Costa e o senador Jaques Wagner. Venceu uma eleição difícil contra ACM Neto e assumiu o comando do estado com uma robusta base política.
Quatro anos depois, porém, o cenário revela um desafio que vai além da administração pública: transformar a autoridade recebida em liderança própria.
As pesquisas mais recentes mostram uma disputa apertada entre Jerônimo e ACM Neto. Alguns levantamentos apontam empate técnico, enquanto outros colocam o ex-prefeito de Salvador em vantagem.
A pergunta inevitável é: por que um governador apoiado por Lula, Rui Costa e Jaques Wagner enfrenta uma eleição tão difícil? Parte da resposta está na diferença entre herdar capital político e construir capital político.
Jerônimo possui uma trajetória administrativa respeitável. Foi secretário estadual, participou de governos petistas e acumulou experiência na gestão pública. Mas sua projeção eleitoral sempre esteve associada ao grupo político que governa a Bahia há quase duas décadas. Sua imagem pública ainda se confunde, em muitos momentos, com a força de seus padrinhos políticos.
ACM Neto vive situação diferente É verdade que seu sobrenome carrega um dos maiores legados políticos da história baiana. Entretanto, ao longo de sua carreira, conseguiu construir uma identidade própria. Foi deputado federal, presidiu um dos principais partidos do país e governou Salvador por dois mandatos com elevados índices de aprovação. Hoje, mesmo sendo herdeiro de uma tradição política, sua liderança já não depende exclusivamente dela.
Na prática, ACM Neto chega à eleição com uma característica que Jerônimo ainda busca consolidar: luz própria.
Mas existe um segundo elemento que torna o desafio do governador ainda maior.
A segurança pública A Bahia convive há anos com indicadores preocupantes de violência. O tema domina o debate público, abastece o discurso oposicionista e se tornou o principal flanco vulnerável do governo estadual. O próprio Jerônimo reconhece a gravidade do problema e tem defendido investimentos em policiamento e ações sociais. Ainda assim, os índices de criminalidade continuam produzindo desgaste político significativo.
Toda liderança política se fortalece quando consegue associar sua imagem a resultados concretos percebidos pela população. Da mesma forma, encontra dificuldades quando o principal tema da agenda pública é justamente aquele em que a sociedade percebe mais fragilidades.
É exatamente esse o dilema de Jerônimo Rodrigues. Ele não disputa apenas contra ACM Neto.
Disputa contra a percepção de que ainda não conseguiu transformar o prestígio político herdado em liderança pessoal consolidada. Disputa contra indicadores de segurança pública que insistem em ocupar o centro do debate eleitoral. E disputa contra um adversário que, independentemente das concordâncias ou divergências sobre suas posições, construiu uma identidade política reconhecida pelo eleitorado baiano.
A eleição de 2026 poderá oferecer uma das demonstrações mais claras da política contemporânea: grupos políticos podem eleger governadores, mas somente a construção de autoridade própria é capaz de garantir longevidade eleitoral.
Porque o poder pode ser transferido. A liderança, não.
José Américo Moreira da Silva zamerico1961@gmail.com é jornalista, consultor de marketing político, baiano radicado em Brasília
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18junho2026