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ZEDEJESUSBARRETO NO COLUNISTAS: Os Mundiais de 1998 e 2002


José de Jesus Barreto é jornalista, pesquisador, autor de livros e escrevinhador

  Apagão e brilho do Fenômeno


  “Essa vida, meu filho, é feita de fatos e mistérios. Os fatos a gente explica, já os mistérios...”   Assim me falou, certo dia, já bem velhinho, o grande Jorge, escritor Amado. 


Como no jogo da vida, o futebol é assim também. Senão, repare:


Aos 21 anos, escolhido como ´o melhor do mundo´ pela FIFA, na exuberância física e técnica maior da carreira, Ronaldo ‘o Fenômeno‘ terminou sendo a notícia, o grande enigma da Copa de 1998, vencida em casa pela França do meia franco-argelino Zinedine Zidane. Não pelas atuações e gols feitos na competição, mas pelo estranho ‘piripaque‘ que sofreu seis horas antes de entrar em campo pela partida final contra os franceses, em Paris. Até hoje se questiona: - ‘Afinal, o Fenômeno amarelou, foi feitiço ou puseram uma ‘besteirinha‘na comida/bebida dele na hora do almoço’? 


Mistério, nunca bem explicado ou esclarecido, nem o próprio Ronaldo sabe ou se lembra do ocorrido naquela tarde fatídica de domingo, na Cidade Luz. Hum! 


Quatro anos depois, na Copa da Ásia, já às voltas com a balança e tentando desesperadamente - meses, semanas, dias, horas infindas de fisioterapia – se recuperar de uma delicada cirurgia no joelho, fisicamente ‘meia boca’ e com um topete ridículo na cabeça, rindo à toa, Ronaldo nos deu o Penta marcando os gols necessários e decisivos da conquista. Poucos acreditavam, mas o brasileiro deu exemplo de superação e perseverança.


 Ele diria depois, satisfeito: “Fiz meus gols, fui eleito ‘o craque‘, o Gaúcho encantou, mas o melhor jogador daquela Copa foi Rivaldo; jogou demais!”. Foi a Copa dos três erres – Ronaldo, Ronaldinho e Rivaldo, craques, gênios da bola. Eles fizeram a diferença. Fazem 24 anos. 


  ‘Le jour de gloire est arrivé‘   Os franceses organizaram a festa e se prepararam com capricho para a Copa de 1998, em casa. A nação, em azul/vermelho e branco, emanava orgulho. Convenhamos, jogaram bem, tinham um timaço – Zidane, Thuram, Dessaily, Deschamps (hoje, o treinador), Vieira, Petit, Trezequet... -, uma equipe de brilho coletivo, boa técnica e força física, muito competitiva, que chegou com méritos à final, quando fez contra nós, sem dúvida, sua melhor partida. 


O Brasil, sob comando do envelhecido Zagallo, fazia uma campanha de lampejos – passou com dificuldades pela Escócia (2 x 1), venceu bem Marrocos (3 x 0, com gol de Ronaldo) e, já classificado, perdeu de virada (1 x 2) para a Noruega, acendendo o sinal de alerta. Nas oitavas, goleamos o Chile (4 x 1). Na sequência, penamos para vencer a Dinamarca (3 x 2), com um golaço salvador de Rivaldo (o melhor dos brasileiros na Copa, sem dúvidas), em arrancada individual, aos 15min do segundo tempo. E  cumprimos, na semifinal, um jogo duríssimo (1 x 1) contra a Holanda – gol de Ronaldo, já no segundo tempo e veio o empate holandês aos 43’, Kluivert de cabeça. Houve, então, a prorrogação e vencemos na cobrança de pênaltis, graças a Taffarel que catou duas. 


Assim chegávamos à tão sonhada final, contra os donos da casa, no Stade de France... e tínhamos Ronaldo, ‘o melhor do mundo‘! Estávamos confiantes. Aí... o estranho aconteceu ... 


Assombroso  Os atletas brasileiros descansavam, faziam a ‘siesta’ do almoço naquele domingo, um 12 de julho, no hotel/concentração Chateau de la Grand Romaine, em Saint Denis, quando o lateral Roberto Carlos, que dividia o quarto com Ronaldo, percebeu, apavorado, que o ‘Fenômeno‘ estava sofrendo uma convulsão – babando e se debatendo na cama – e saiu aos berros pelos corredores pedindo socorro aos colegas, chamando a comissão técnica, todos assustados, alguns assombrados mesmo  com a cena. Os médicos da delegação acudiram, ‘acordaram‘ Ronaldo que, zonzo, de nada se lembrava, e o levaram a hospital próximo, para exames. 


Os jogadores já estavam uniformizados, de chuteiras, prontos para entrar em campo, às 21h, arquibancadas lotadas, ainda tensos com o ocorrido, sem notícias do companheiro surtado e já com Edmundo escalado no lugar dele. Quando, de surpresa, Ronaldo chegou, ainda com semblante estranho, meio aéreo mas dizendo que estava bem e que ia jogar. Ninguém, naquele instante - nem médico, nem comissão técnica, muito menos companheiros de time –, teve coragem de dizer não, que ele não estava em condições. Zagallo tirou o dele da reta, o que deixou Edmundo emputecido, e o craque da equipe, mesmo sob desconfiança de todos vestiu o uniforme, calçou as chuteiras e entrou em campo com um olhar perdido, meio que zumbi, os colegas perplexos.  


 Logo no começo, o Fenômeno levou um ‘banho de cuia‘ de Zidane, pelo meio de campo e, mais adiante, numa disputa destrambelhada, chocou-se violentamente com o goleiro Barthez, a bola pelo alto na meia lua da grande área francesa. Os brasileiros foram acudi-lo, em pânico... ufa! Ronaldo logo reagiu e o jogo seguiu. Daí, Zidane fez dois gols de cabeça, como nunca dantes tinha feito, na desconcentrada defesa brasileira. O segundo tempo foi um ‘vareio‘ de bola dos franceses, nossa seleção sem noção do que estava acontecendo, sem pernas e sem cabeça, atuando praticamente com um a menos em campo.   A França Campeã do Mundo pela primeira vez, 3 x 0. Paris em festa. 


O Penta no outro lado da Terra Quatro anos depois, aconteceu a Copa do Mundo na Ásia, a primeira realizada em gramados de dois países diferentes, o Japão e a Coréia do Sul, vizinhos e com históricas desavenças. O Brasil vivia o ocaso do governo Fernando Henrique, nosso treinador era o Felipão (o gaúcho Luís Felipe Scolari, com ares de enfezado mas um paizão), que descartou o marrento Romário e apostou na recuperação a tempo do lesionado Ronaldo ‘fenômeno‘, na união do grupo – ‘a família Scolari‘ - e no talento. Do outro lado do mundo, os fados pareciam nossos, tudo deu certo.   


Fizemos uma bela campanha. A estreia foi difícil (2 x 1) contra a Turquia, com um gol de Ronaldo e, no final, conseguimos desempatar com um pênalti malandro cavado por Luizão (que acabara de entrar no lugar do Fenômeno, em recuperação, sem ritmo), que Rivaldo converteu. Passeamos sobre a China (4 x 0), em gramados da Coreia. E lá mesmo enfiamos 5 x 2 na Costa Rica, com mais dois gols de Ronaldo, ainda penando na fisioterapia mas entregando em campo tudo o que podia. Estávamos classificados. O jogo seguinte, muito parelho, foi contra a Bélgica (2 x 0), luminosidades de Rivaldo e Ronaldo. 


A batalha seguinte, já de volta ao Japão, foi contra poderosa Inglaterra, que abriu o placar, mas empatamos ainda no primeiro tempo numa pintura de jogada de Ronaldinho e gol de Rivaldo. No segundo tempo, ‘o bruxo‘ Ronaldinho fez um ‘gol espírita‘ (daqueles que ninguém acredita), batendo falta da intermediária, pela meia direita; todos esperavam um cruzamento, até o goleiro inglês, mas a bola morreu no ângulo. Ele, craque de habilidades diferenciadas, jura por Deus que bateu no gol consciente, pois percebera que o goleiro inglês se adiantava, costumava se postar na frente da linha da pequena área. O chute de Ronaldinho o encobriu, ele bateu-se de costas na trave, ao tentar tirar a bola. Um golaço!  Terminamos com 10 em campo, o mesmo Ronaldinho atingiu o gringo com uma solada e foi expulso, aos 17min. De resto, o goleiro Marcos e a boa zaga brasileira garantiram o triunfo. 


A semifinal seria contra os turcos. Outra disputa renhida, 1 x 0, gol de Ronaldo, de bicuda, já na segunda etapa. Mais uma grande jornada do goleiro Marcos, garantindo atrás.


E estávamos na final, contra a sempre obstinada Alemanha do goleirão Kahn, do becão Metzelder, do meia Schneider, do artilheiro Klose, do treinador Rudi Völler. A decisão foi no dia 30 de junho, um domingo, no International Stadium de Yokohama/Japão, com mais de 70 mil presentes, arbitragem italiana.       


Fenômeno iluminado   A seleção brasileira dominou o primeiro tempo, perdeu umas duas/três boas chances de marcar, Kahn catando tudo, e as equipes desceram pra merenda, no intervalo, com 0 x 0 no placar. Na segunda etapa, os alemães saíram mais pro jogo, arriscaram e se abriram. Por volta dos 22minutos, Ronaldo ganhou uma bola no corpo a corpo, já na intermediária inimiga, rolou pra Rivaldo que bateu forte no gol; o goleirão deu rebote e Ronaldo, rápido e oportunista chegou antes, cutucou, fazendo 1 x 0. Era o segundo gol que Kahn sofria na competição. Viria mais. 


Os europeus já não tinham alternativa, mandaram-se inteiros pro ataque, tentando o gol de empate. Vacilaram e levaram o segundo, uma pintura, vale lembrar: - Roque Jr recuperou bola na defesa e lançou longo pra Kléberson, aberto na direita, já no campo ofensivo. O meia, incansável e veloz, arrancou, levantou a cabeça e cruzou forte, na grama, visando Rivaldo que penetrava pela meia lua da área alemã. 


Com a marcação em cima, Rivaldo fez que ia, mas abriu as pernas deixando a bola passar pra Ronaldo que entrava livre pelas costas; coisa de gênio. Ronaldo, iluminado, ajeitou o corpo e bateu rasteiro, colocado, e a bola entrou no rodapé de Khan. O Penta estava sacramentado com um golaço de cinema.


Passaram-se 24 anos...  ainda sonhamos com o Hexa. 


Vale escalar o time de Felipão, Pentacampeão: Marcos, Cafu, Lucio, Edmilson, Roque Junior e Roberto Carlos (Junior Nagata); Gilberto Silva, Keberson, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho (Edilson) e Ronaldo Fenômeno (Luizão, Denílson)  


Tínhamos anda, na reserva: Dida, Rogério Ceni, Belleti, Vampeta, Polga, Juninho, Kaká.


Quatro baianos no elenco do Penta: O goleiro Dida, de Irará; o apoiador Vampeta, de Nazaré das Farinhas; o lateral Junior Nagata, de Santo Antônio de Jesus, e o atacante Edilson, de Salvador.  


Quer mais?  Resenhas, curiosidades, a história comentada e contextualizada de cada uma das Copas, de 1930 a 2022, no livro “Historiando as Copas”, de Zédejesusbarreto, Editora OjuObá/2023, à venda pela Amazon. 


Zedejesusbarreto José de Jesus Barreto é jornalista, pesquisador, autor de livros, e escrevinhador com larga experiência na imprensa baiana, nacional e com trabalhos fora do país


Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade do autor

14junho2026

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