A irmã esquecida de iemanjá e a ética das águas protegidas
Enquanto Iemanjá reina soberana nos mares do Brasil, poucos sabem que sua irmã Iseki, também chamada Seki, ficou do outro lado do oceano, guardando as águas calmas de Badagry, Estado de Lagos na Nigéria.
Iseki não é apenas um Orixá que habita um rio. Iseki é o rio. Um pequeno riacho que nasce e deságua nos lagos de Badagry, na região dos povos Egun/Ogu e Awori, no noroeste da Nigéria.
Ela é a irmã esquecida. Não porque os africanos a esqueceram, mas porque a diáspora, violenta como foi, não conseguiu destruir todas as memórias. Algumas sofreram êxodo. Algumas ficaram protegidas na terra mãe.
Iemanjá é Orixá de todas as águas. Braços acolhedores. Ondas que vêm e vão. Ela recebe, abraça, às vezes leva.
Iseki é diferente Assim como sua irmã Olosá, ela habita as águas quase paradas, onde o doce encontra o salgado, onde o rio encontra a lagoa, onde a calma encontra a profundidade. É nesse encontro que ela se revela.
Sua imagem é nítida: uma sereia com um peixe prateado na mão direita. O peixe brilha como o reflexo da lua nas águas tranquilas Badagry.
Mas esse peixe não é enfeite. É tabu, para oferendas. A tradição dos povos Egun e Awori ensina: não se oferece peixe a Iseki. Nunca.
Por quê? Porque o peixe que ela carrega na mão é o símbolo da vida que ela protege. Oferecer a ela o que ela mesma guarda é uma ofensa grave. É quebrar a ética. É como oferecer o próprio corpo de um filho à mãe.
Isso tem um nome no Candomblé: kizila (ou quizila), como dizem os irmãos angoleiros... Todo Orixá tem suas comidas favoritas e suas proibições. Para Iseki, o peixe é proibido, não porque ela o despreze, mas justamente por amá-lo demais. Ama receber cabra, flores, mel.
Iseki ensina uma lição que o mundo contemporâneo precisa ouvir com urgência:
Não se pode poluir o que se protege.
Não se pode abusar do que se ama.
Não se pode tirar além do necessário. Essa é a ética das águas protegidas!
Aparência e Cores Diferente de Iemanjá, associada ao azul e branco do mar aberto, Iseki está ligada ao branco. Ela usa búzios nas vestes, porque búzios são olhos, são memória, são oráculo. Mas nunca usa vermelho. O vermelho pertence a Xangô e aos Orixás guerreiros. Iseki é paz, não guerra.
Saudações e Oriki Iseki não tem uma saudação curta como "Odoiá" para Iemanjá. Suas saudações são mais descritivas, mais calmas, mais respeitosas. O silêncio faz parte.
Saudações tradicionais:
Iseki oooo
Olomi oooo
O pa bi Akiti, o pa fun ero wa wo
Significado:
Iseki, a Senhora das águas.
Ela mata como Akiti, ela mata para que todos vejam. Não é uma saudação violenta. É uma saudação de justiça: ela mata (no sentido simbólico) o desrespeito, a poluição, a ganância, e o faz para que todos vejam. É didática. É exemplar.
Iseki não é apenas guardiã. Iseki é curadora. A tradição oral dos povos Egun e Awori conta sua história: Iseki é uma Orixá poderosa, irmã de Iemanjá. Quando o Oba Jagun Akiti (Orixá de culto antigo) de Remo deixou Ifé, ela, Seki, partiu com ele para Ado-Ota, no estado de Ogun. Ficaram lá por algum tempo, e o povo os recebeu bem. Mas não permaneceram por muito tempo porque a terra era argilosa e com água insuficiente.
Continuaram sua jornada e encontraram um solo arenoso na região de Imeke. Decidiram ficar ali. Ela também foi com o príncipe de Ajagun para Iworo. Viajou por muitos lugares e é conhecida por sua generosidade e simbiose coma água.
Encontrou um rio por perto e fez daquele lugar sua morada. É uma Orixá feminina poderosa que cura pessoas, concede filhos às estéreis e traz paz à comunidade.
Mais tarde tornou-se uma divindade em Imeke, e as pessoas passaram a adorá-la como deusa da paz e da abundância. Ela também fornece frutos do mar para o povo comer, mas note: ela fornece, não recebe. Isso é diferente. É ética da rigidez.
É também divindade da beleza Hoje, os devotos celebram sua resiliência e coragem. Os devotos homens, como sinal de respeito, trançam o cabelo.
Iseki e Iemanjá são irmãs. Ambas são filhas de Olokum, a divindade primordial das profundezas abissais.
Enquanto Iemanjá rege todas as águas e acolhe os pescadores em alto-mar, Iseki comanda os riachos calmos, os manguezais, as lagoas paradas.
Uma ficou, a outra veio Iemanjá tornou-se a rainha dos mares brasileiros. Iseki permaneceu em Badagry, guardando o que não podia ser guardado longe. Cor favorita: Branco Saudação resumida: Iseki oooo
O mundo de hoje trata a água como recurso. Iseki ensina que a água é força, é ética, é proteção. O mundo de hoje, a humanidade, acha que pode tirar tudo, que pode poluir tudo, que pode transformar rio em esgoto, lagoa em lixão, peixe em mercadoria. Iseki ensina que não se oferece à mãe o corpo do filho.
O mundo de hoje precisa aprender com os povos Egun e Awori: há coisas que não se tocam não porque são proibidas, mas porque são protegidas.
Iseki não castiga. Iseki ensina. E o ensino dela é simples: Água parada tem Senhora.
Peixe tem Senhora.
Lagoa tem Senhora.
E a Senhora é feminina, vigilante, justa e curadora.
Lembrar Iseki é lembrar que a família de Iemanjá é imensa e majoritariamente feminina. E que o poder feminino não está só no mar aberto.
Às vezes, ele brilha em um peixe prateado nas mãos de uma Orixá que recusa ser ofendida com o que ela mais ama.
Às vezes, ele habita um riacho calmo em Badagry, na Nigéria, esperando que alguém, no Brasil, na diáspora, no mundo, se lembre-se de que a água doce que corre devagar também tem Senhora.
Iseki não veio para o Brasil. Mas o Brasil pode aprender com Iseki. Que suas águas paradas nos ensinem a parar. A respeitar. A proteger. A curar.
Iseki oooo.
Olomi oooo.
O pa bi Akiti, o pa fun ero wa wo.
Àṣẹ.
João Borges é artista, filósofo, historiador, babalorixá, pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Difusão do Conhecimento (PPGDC/UNEB), professor visitante na LASU (Lagos State University) e artista multimídia.
Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade do autor
12junho2026