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LUIZ DUPLAT NO COLUNISTAS: Quando o SUS vira negócio


Luiz Duplat é médico obstetra, especialista em Saúde da Família e ex-secretário de saúde de Camaçari

O risco por trás da terceirização da saúde 


No mês passado, a Prefeitura de Camaçari, por meio da Secretaria Municipal da Saúde, decidiu incorporar a UPA Pediátrica - conhecida como UPINHA, à UPA dos PHOCs, hoje administrada por um empresa contratada para a fazer a sua gestão. 


A medida foi tomada de forma abrupta, sem discussão com os servidores nem com a sociedade civil, a decisão trouxe impactos profundos para quase 100 profissionais que atuavam na UPINHA. Muitos deles estavam na unidade há quase duas décadas, desde os tempos do antigo PA Nova Aliança, que em setembro de 2018 foi transformado na UPA Pediátrica, pelo ex-prefeito Elinaldo. 


Como a incorporação não previa a permanência dos trabalhadores, todos precisaram ser redistribuídos para outras unidades de saúde do município, com impacto direto sobre a organização de suas vidas pessoais, funcionais e profissionais. 


Mais do que uma simples mudança administrativa, o episódio expôs uma questão muito mais profunda: o que acontece com a identidade do serviço público quando estruturas inteiras da saúde passam a ser transferidas para modelos privados de gestão? 


Também chama atenção a reação tímida do Sindicato dos Servidores Públicos de Camaçari (Sindsec), que pouco questionou o processo de terceirização e quase silenciou sobre o impacto humano, profissional e institucional provocado pela retirada desses servidores. 


A terceirização tornou-se um dos símbolos mais eloquentes das transformações silenciosas em curso no SUS: o debate passa a girar em torno de contratos, metas e modelos de gestão, enquanto os trabalhadores, os vínculos construídos ao longo dos anos e a memória institucional dos serviços se tornam secundários. 


Nos últimos anos, consolidou-se um discurso recorrente: terceirizar a saúde seria o caminho para modernizar o SUS. A promessa é sedutora — menos burocracia, mais agilidade e serviços supostamente mais eficientes. 


Mas, a história não é tão simples assim. A promessa de eficiência convive com problemas antigos e produz novas fragilidades. 


Na prática o quadro é mais complexo. Hospitais, UPAs, unidades básicas e até a regulação em saúde passaram a ser geridos por organizações sociais, cooperativas e outras entidades privadas. Com essa mudança, surgiram dúvidas, críticas e, em muitos casos, denúncias de corrupção que levantam uma pergunta central: até que ponto essa “modernização” beneficia, de fato, a população e os trabalhadores do SUS? 


Muito dinheiro em jogo  Não dá para ignorar um ponto central: a saúde movimenta bilhões todos os anos. São recursos para medicamentos, exames, contratos, equipes, estrutura… É um setor gigantesco da economia e da política. E quando há muito dinheiro envolvido, os interesses também crescem. 


Contratos de saúde não representam apenas prestação de serviço. Eles podem significar influência política, poder de decisão e até moeda de troca em disputas eleitorais. Quando esses interesses entram no jogo, o risco de distorções aumenta. 


No fim das contas, qualquer falha de gestão não afeta números — afeta pessoas que dependem do SUS. 


Terceirização não acabou com os velhos problemas É importante deixar claro: a corrupção não começou com a terceirização. Problemas existem há muito tempo na gestão pública direta. 


Em muitos casos, a terceirização não eliminou essas falhas; apenas mudou o lugar onde elas acontecem. E, talvez mais preocupante, tornou tudo mais difícil de enxergar. 


Quando a gestão é direta, existem regras mais claras, servidores identificados, processos administrativos definidos. Não é perfeito, mas há um caminho mais visível para rastrear. 


Quando entram intermediários privados, o cenário muda. Surgem estruturas mais complexas, contratos menos transparentes e uma cadeia de responsabilidades que nem sempre fica clara para quem está de fora. 


Sem transparência, sem fiscalização eficiente e sem responsabilidade clara, qualquer modelo — público ou privado — pode falhar. 


Há outros aspectos igualmente relevantes que merecem análise própria: o volume de denúncias de corrupção envolvendo terceirizações, a tensão entre a lógica do lucro e a lógica do cuidado, a zona cinzenta entre o público e o privado, a quarteirização como fator de fragmentação da responsabilidade e a precarização silenciosa dos vínculos de trabalho. 


Todos esses pontos, porém, exigem aprofundamento e podem ser desenvolvidos em artigos específicos.


O que está realmente em jogo O debate sobre terceirização não deve ser conduzido por paixões ideológicas ou partidárias, mas por evidências, responsabilidade sanitária e compromisso com o interesse público. A crise da saúde brasileira não será resolvida simplesmente substituindo gestores públicos por gestores privados. 


Corrupção, desperdício, clientelismo e ineficiência não desaparecem por decreto. Muitas vezes, apenas assumem novas formas, mais sofisticadas e mais difíceis de identificar. 


A questão central não é escolher entre gestão pública ou gestão terceirizada. A questão central é garantir transparência, fiscalização, responsabilização e preservação dos princípios que norteiam o SUS: Universalidade, Equidade e Integralidade. 


Quando o controle enfraquece, quem paga a conta não é a empresa contratada nem o gestor que assinou o contrato.


É o paciente que aguarda na fila por atendimento. É o profissional que trabalha sem condições adequadas. É o cidadão que financia o sistema através dos seus impostos. E é o próprio SUS que perde, silenciosamente, parte de sua essência pública. 


Quando a saúde deixa de ser tratada como um direito e passa a ser vista apenas como um contrato, perde-se algo que nenhum aditivo contratual consegue restituir: o compromisso público de cuidar das pessoas. 


Esse é o risco real: o SUS perder, em silêncio, parte de sua razão de existir. 


Luiz Duplat duplat.luiz@hotmail.com é médico obstetra, especialista em saúde da família e ex-secretário de saúde de Camaçari 


Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade do autor

9junho2026

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