Comunidade
Diante do debate sobre o discreto afastamento do governo (federal, estadual e municipal) das organizações sindicais em prioridade às entidades comunitárias, procurei os professores de sociologia Pedro Sarmo e Rodrigo Antunes para uma conversa sobre o assunto.
O professor Pedro acentua que o conceito de comunidade passou por uma transformação radical nos últimos anos. Se antes ela era definida estritamente por geografia (bairro, cidade), hoje ela é moldada por fluxos digitais, interesses de nicho e novas formas de pertencimento. As comunidades de prática e de propósito substituem o critério de vizinhança para o de afinidade.
A comunidade prática são grupos focados em aprender ou aprimorar uma habilidade específica (automação, IA, programação gráfica). Enquanto a comunidades de propósito os movimentos são voltados para impacto social ou causas específicas, onde a conexão é mantida por um sistema de valores compartilhados, independentemente da distância física.
O professor Rodrigo salienta o conceito de terceiro espaço cunhado pelo sociólogo Ray Oldenburg para espaços fora de casa (1º) e do trabalho (2º), como cafés, clubes e bibliotecas, assim como as redes sociais que oferecem a "presença ambiente", onde as pessoas coexistem digitalmente sem necessariamente estarem próximas conversando o tempo todo.
Diversos estudos publicados revelam que em meio às disputas urbanas são as lideranças comunitárias que conectam o cotidiano das instâncias satélites do poder executivo e das periferias às lutas estruturais pelos direitos às cidades. Em contextos marcados por profundas desigualdades urbanas, o papel das lideranças comunitárias se impõe como um elemento central para compreender a dinâmica das cidades. Mais do que uma dimensão simbólica, trata-se de reconhecer a atuação estratégica dessas instituições na liderança da construção cotidiana dos territórios.
Por esse princípio, compreendendo que todos os segmentos sociais estão contidos em comunidades é estratégico compor a sistematização das ações em complexos que sintetizem e incorporem em seus conteúdos o entendimento mais abrangente das necessidades e reivindicações do conjunto da sociedade.
O pofessor Rodrigo relata a experiência acumulada no Movimento Organizado de Trabalhadoras e Trabalhadores Urbanos (MOTU), em diálogo com processos formativos e práticas territoriais e revela que a liderança comunitária não nasce pronta; é construída coletivamente, no cotidiano das lutas, na mediação de conflitos e, principalmente, na capacidade de organizar o povo para intervir na realidade.
Mais do que representar demandas, liderar é criar condições para que a comunidade participe ativamente da definição de seus interesses. O que é corroborado pelo professor Pedro Sarmo quando ressalta que no campo urbano, a participação popular frequentemente aparece como princípio nos planos diretores, nas políticas públicas e nos discursos institucionais. No entanto, na prática, ela é limitada, fragmentada ou meramente consultiva.
A realidade dos territórios demonstra que participar exige organização e disposição para as lutas. Não há participação efetiva sem base social estruturada, sem espaços de decisão coletiva. Que DEUS e os Orixás nos protejam.
Adelmo Borges dos Santos adelmook@gmail.com
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16maio2026