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Protesto de torcedor ultrapassa limite do estádio e amplia violência


Protestar com vaias e xingar alguns jogadores e dirigentes, além do técnico, já não basta mais para a torcida. No futebol brasileiro, a insatisfação dos seguidores com o rendimento das equipes tem ido além das arquibancadas e alcançado novos palcos, com a invasão de centro de treinamentos e até mesmo com atos hostis em aeroportos.


Foi assim nas últimas semanas, quando membros de torcidas organizadas ocuparam  o aeroporto de Salvador, no caso do Vitória, na segunda divisão e  na zona de rebaixamento para a terceira. Existem ainda reguistrros de torcedres que forçaram a entrada nos CTs de Cruzeiro, Fluminense e Botafogo, clubes tradicionais que fazem campanhas decepcionantes no Brasileirão, e adotaram tom de cobrança para intimidar jogadores.


Mas também atingiu times mais bem posicionados na tabela do Nacional de 2019, como Corinthians e Palmeiras. Eles também sofreram assédio hostil recentemente. No caso do Palmeiras, ainda sob o comando de Felipão, com a assustadora exibição da faixa com a inscrição “ninguém morreu ainda” na sequência da eliminação da equipe na Copa do Brasil. Neste caso, o protesto ocorreu na avenida em frente à Academia de Futebol do clube.


Esses atos são sinais do aumento da intolerância do torcedor, como aponta Bernardo Buarque de Hollanda, professor e pesquisador da Escola de Ciências Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Ele acredita que não houve exatamente um aumento dos protestos, mas o que define como “exacerbação” do torcedor.


Para o professor Buarque de Hollanda, a falta de identificação entre clube, torcida e seus principais jogadores, como ocorria até os anos de 1980 com nomes como Roberto Dinamite e Reinaldo, por exemplo, faz com que as torcidas organizadas aumentem o tom das cobranças quando os resultados não são satisfatórios. 


“Há uma expectativa a partir de um ídolo que não possui histórico com o seu clube e a sua torcida, algo que vemos em Flamengo e Palmeiras, e também com a chegada do Daniel Alves no São Paulo. Você não tem mais a torcida se familiarizando com o atleta, criando laços de identificação. A torcida, então, se sente encorajada a cobrar duramente quando a expectativa não é correspondida”, entende.


Vendo-se como forças fiscalizadoras, as torcidas buscam exibir suas reivindicações em diferentes cenários, até como uma demonstração de poder e presença. “O que tem ocorrido é a tentativa de ocupação de todos os espaços pelas organizadas, entendendo que o time é uma propriedade delas por acharem que são elas que se sacrificam, vão a todos os lugares, perdem emprego e até brigam com a família pelo clube”, afirma o professor.


Não estaria, no entanto, apenas nessa mudança da identidade do futebol nacional – e mesmo da cultura – a intensificação dos protestos. Para Bernardo, a decisão de proibir a presença de organizadas nos estádios, vista por autoridades como medida para conter a violência, as leva para outros cenários, tornando inócua a iniciativa. “A proibição das organizadas está radicalizando essas torcidas, que não sumiram e estão clandestinamente nos jogos. Elas então intensificam a vigilância fora do estádio, migrando para outros espaços públicos, por exemplo”, diz, lembrando que as organizadas dos maiores clubes do Rio estão proibidas de frequentar estádios.


Para Maurício Murad, especialista em violência no futebol, as punições desse tipo não surtem os efeitos esperados. Ele aponta que o universo das torcidas envolve entre 2 milhões e 2,5 milhões de pessoas. Dentro desse grupo, aqueles que cometem atos criminosos são uma parcela pequena e que fica livre quando as sanções são coletivas. “Se eu puno todo mundo, eu não puno quem deveria ser punido de fato. É a minoria que precisa ser alcançada pela lei e não todos os torcedores”, diz.


Advogado da Associação das Torcidas Organizadas do Brasil (Anatorg), Renan Bohus alerta para outro risco da proibição das organizadas. Para ele, o ato de torná-las ilegais interrompe o contato com os clubes. E um reflexo disso seriam os protestos mais violentos. “Quando você criminaliza, não há mais diálogo com os clubes. E a torcida se torna mais incisiva. Quando não há conversa, muitos recorrem a atos de violência, como a invasão aos CTs e tudo mais”, diz.


Asfixiadas dentro dos estádios, as organizadas têm buscado outros locais para se manifestar contra a irregularidade de seus times. Se aproveitam de esquemas menos complexos de segurança – ou inexistentes – para se aproximar de jogadores em aeroportos e saída de CTs. “O monitoramento da polícia ainda é precário, informal, e aí o torcedor se sente com mais possibilidade de interagir com o atleta, fazendo algo mais truculento e intimidatório, com o uso da força física”, comenta Bernardo.


Maurício Murad, especialista em violência no futebol, com doutorado em sociologia do esporte, e professor da UERJ


Quais ações a polícia deve adotar para combater e evitar os atos violentos de torcidas organizadas?


São dois tipos de ações combinadas. Uma repressiva, com aumento do policiamento nos estádios e em volta dos CTs, impedindo a entrada desses grupos. E também uma ação preventiva, nas redes sociais, onde se combinam esses atos, e com as autoridades esportivas. Não é possível que clubes abram CTs para essas pessoas. É preciso prevenção e punição esportiva e criminal, a diretores e funcionários que fazem isso, e a vândalos que tentam agredir e intimidar jogadores mesmo antes das partidas. É preciso fazer uma devassa nesses grupos, uma auditoria policial para saber como e do que eles vivem.


Como é possível combater os torcedores violentos dentro das próprias organizadas?


É preciso criar um disque-denúncia das torcidas. Sob sigilo e anonimato, as pessoas podem fazer denúncias. É difícil um diretor correto enfrentar esses caras. Protegido, o torcedor correto, que é a maioria, pode denunciar e permitir a ação rápida da PM.


Existe uma relação entre a proibição das organizadas e a realização de atos violentos?


Quando proíbo, empurro a torcida para um lado sombrio, da ilegalidade. E aí não há monitoramento, fiscalização e acompanhamento. Transgressores e criminosos continuam ativos e mudam de palco de ação. Estadão

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