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Demétrius Moura


O triste Brasil das pessoas descartáveis



Ontem foi dia 13 de maio, 132 anos na abolição da escravidão no Brasil, dia 7 de setembro completaremos 198 anos da Proclamação da Independência. O que essas duas datas possuem em comum além de marcarem períodos importantes da nossa história e mais precisamente do Brasil Imperial? Vamos somar essa equação histórica uma outra declaração genuína e sincera do atual presidente da nossa convalescente República, dita neste 13 de maio, com o Brasil ultrapassando a casa dos 12 mil mortos pela COVID-19, o suposto “mito” afirmou: “O povo tem que voltar a trabalhar. E quem não quiser trabalhar, que fique em casa. Ponto final”. Estes três acontecimentos, aparentemente sem relação direta, possuem uma relação histórica e social no nosso país, pois estão relacionados diretamente ao pensamento e ação política das elites nacionais que vivem com a crença de que existem vidas “descartáveis” das quais eles podem dispor, usando até mesmo o nome de Deus, para o suposto “bem da economia”.


Como poderia ter sido e como foi Permitam-me contar uma pequena história: em 1823, um ano depois que o então príncipe regente proclamou a Independência, a Assembleia Nacional reunida no Rio de Janeiro, deu indicativos de que pretendia inscrever no texto constitucional uma transição gradual para o trabalho livre. No entanto, a dissolução da referida assembleia e o estabelecimento de um governo aos moldes do absolutismo português, barrou essa tendência antiescravista e garantiu para os setores agrícolas das elites uma vitória na manutenção da escravidão. Mas, as forças de expansão do sistema escravista nacional não se deram por contentes e quando, contando com uma pressão inglesa que condicionou o reconhecimento da Independência à assinatura, em 1826, de um tratado com um caráter anti-escravista, esta mesma elite passou a exercer uma forte pressão para uma nova ordem escravista e reabertura do tráfico internacional de escravos e que foi decisiva pra a queda do imperador, em 1831.


Se tivesse se a Assembleia Nacional obtido êxito, a escravidão teria sido abolida 65 anos antes que a neta de D. Pedro sancionasse a Lei Áurea somente em 1888.  Durante boa parte do século XIX, foram eles, principalmente os grandes proprietários de terras do Sudeste, juntamente que com grupos de outras regiões que garantiram ao Brasil o infame título de última nação ocidental a abolir a escravidão. E qual a alegação para um atraso de 65 anos e o infame título? Os senhores de escravos se valiam da mesma resposta que o “Véio da Havan”, figura inóspita do grande empresariado brasileiro atual e o “Mito”, presidente da república, utilizam atualmente para colocarem as pessoas em risco de morte durante a pandemia atual, o asqueroso argumento de que: “A economia não pode parar”. Realmente, a economia nunca pode parar de gerar riqueza para poucos através da morte de muitos.


Costumo dizer que a principal tragédia brasileira está associada por um lado ao atraso da elite na sua constante tentativa de uma “re-escravização” da classe trabalhadora através da retirada constante de direitos e, por outro lado, à falta de consciência por parte desta mesma classe trabalhadora. Precisamos necessariamente compreender que para essas elites, colocar em risco nossas vidas para não parar a economia faz parte de uma lógica perversa onde pobres, idosos, deficientes, pessoas em condições de precarização do trabalho , pessoas sem potencial de consumo e sem assistência médica regular, fazem parte daqueles considerados, por eles, descartáveis.  


José Demétrius Silva Moura jdemetrius@gmail.com é licenciado em Filosofia pela UFBA, especialista em Educação pela UNEB, em Gestão de Cidades pela FECAP/CETEAD e mestrando em História pela UNEB. Professor de carreira das redes públicas Municipal e Estadual possui experiência na administração pública


Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade do autor


 
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