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Demétrius Moura


A intolerância que nasce da ignorância



Vivemos tempos complicados, a enxurrada de informações que recebemos diariamente em vez de nos lapidar o espírito e a vida cidadã, parece fazer exatamente o contrario: pode até nos informar, mas, não raras vezes, não nos forma e muito pior, deforma.


Ao tempo que a nossa sociedade se diversifica tão intensamente, se acentuam também os movimentos de fundamentalismo. Estes possuem dois aspectos: um que julgo importante na manutenção da identidade e de valores tradicionais e indispensáveis para a preservação social e por outro lado, um que se expressa de forma arbitrária, em manifestações de ódio, intolerância e até mesmo de uma imbecilidade latente, explosiva e exposta “fundamentalisticamente” nas “não fundamentais” redes sociais.


Em tempos que sacerdotes cristãos celebram casamentos exibindo lindos quipás1 e talits2 me preocupa que o perdão, peça fundamental do cristianismo, como exposto em Mt 18, 21-22, perca gradativamente espaço para o a antiga legislação criminal do “olho por olho” (Ex 20, 12-37). Entregue pelos judeus poderosos (escribas, fariseus, sumos sacerdotes...) para ser crucificado pelos romanos, Jesus Cristo marca uma dissidência dentro do judaísmo e através dos apóstolos constrói um novo credo. Disso decorre a minha falta de compreensão desse fenômeno de retorno ao judaísmo presente em algumas denominações cristãs atualmente.


Em tempos da teologia da prosperidade, me intriga o fato de que essa indumentária represente justamente uma atitude dos fariseus, tão questionada nos evangelhos (Mt 23, 23-33). Talvez, e não por acaso é justamente vestido com um lindo Talit que um pastor pressiona os fiéis de uma igreja neopentecostal muito conhecida a doarem suas “latas velhas” para que o Senhor amanhã lhes retribuísse com uma Lamborguini (https://www.youtube.com/watch?v=b37hwBeOK2A). Como disse, tempos difíceis. Justamente em tempos como estes, onde no dizer de Bauman3, “a desintegração social é tanto uma condição quanto um resultado da nova técnica de poder”, parece-me que para muitos atualmente pode se valer de tudo, religião, televisão, livros de autoajuda, entidades sobrenaturais, visões, profecias para a satisfação pessoal. Longe de este ser um fenômeno novo, ganha contornos interessantes na atualidade.


Tomada ao pé da letra e sem qualquer estudo complementar, seja teológico, histórico ou filosófico, o texto bíblico, assim como outros textos religiosos, é um prato cheio para se justificar as coisas mais absurdas. Assim como os 300 escudos do Rei Salomão usados pelo pastor, citado acima, para induzir a doação dos fiéis.  


Em 2011 nos EUA, o líder “Profeta”, Warren Jeffs, segundo ele próprio, seguindo orientações de Deus, que falava com ele, foi condenado à prisão perpétua por estupro, fraude e outros crimes4. Falo aqui como professor de Filosofia e História e sem a intenção de ferir o sentimento religioso. Como ia dizendo, tomados “ao pé da letra”, escritos antigos como o Código de Hamurabi, O Alcorão e o livro sagrado da tradição judaico-cristã podem ser usados para os mais diversos fins e justificativas. É possível, por exemplo: tentar matar seu filho (Gn 22, 1-19), ser polígamo como Jeffs e seus seguidores (2 Sm 12, 8) e tomar uma cidade de assalto e matar todos os seus habitantes (Js 6, 1-21).


Toda vez que vejo um evangélico atacar alguém do candomblé, reflito que este está muito longe dos ensinamentos da religião que diz professar e sempre me recordo de uma das passagens mais interessantes dos evangelhos descrita em Lc 10, 25-37, conhecida como a parábola do bom samaritano. Neste trecho de grande ensinamento, a misericórdia reside justamente no samaritano. O Samaritano é o habitante da cidade de Samaria representa aquele que é mal visto pelos judeus após o cisma e toda influência externa que o Reino do Norte e sua capital Samaria sofreram. Assim como alguns cristãos falam das religiões de matriz africana como algo associado ao demônio e divindades pagãs, o reino de Israel também sofria os ataques do Reino de Judá pela sua adoração a Baal e outras divindades assimiladas ao longo de sucessivas invasões do seu território. Mas para Jesus nessa parábola, o próximo do homem atacado pelos ladrões é justamente o Samaritano pela sua demonstração de misericórdia e não pelas suas características religiosas ou culturais.


Inspirado por esta história, acredito que é possível e necessário, dentro do ambiente religioso, exercitar a tolerância e o respeito às diferenças. É possível também, estimular a busca pelo SER e não pelo TER, refrear intenções de uma vida com um individualismo exacerbado e buscar o desenvolvimento coletivo. É possível ser um fundamentalista do fundamental: amor e o respeito ao próximo.


Saravá, Shalon, Namastê, Assalamu alaikum ...


Notas: 1.Quipá é o chapéu usado pelos judeus e simboliza o temor ao seu Deus;2. Talit é o Manto listrado usado pelos homens na sinagoga; 3. Sociólogo polonês que cunhou o conceito de “modernidade líquida” para definir as condições da sociedade atual. 4.Existe um filme disponível na NETFLIX intitulado “Warren Jeffs – Profeta Fora da Lei” inspirado na história na história real de Jeffs, vale a pena conferir.



Demétrius Moura é filósofo, especialista em educação e gestão pública. É professor da rede pública de ensino e também ministra cursos na área de humanidades. Já ocupou cargos na gestão pública do município e nas horas vagas é músico


 
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