A inauguração da nova Policlínica e o Fogo Simbólico da Independência
Dois momentos que atestam o descuido de Camaçari com a coisa pública
Modelo Terça-feira, 30 de junho, é dia de dupla comemoração em Camaçari. Uma festeja o pertencimento e a identidade. A outra, apesar da sua indiscutível importância e prioridade para a saúde da população, ganha conotação político eleitoral. A passagem do Fogo Simbólico da Independência e a inauguração da nova Policlínica têm em comum a marca do descuido com a coisa pública.
Modelo 2 Inaugurada às pressas para cumprir o calendário da política, a Policlínica busca reduzir um grave déficit na saúde municipal. Estrutura que deveria ter sido entregue no ano passado, e sob total responsabilidade do Governo do Estado, começa a funcionar a partir de segunda-feira (6), mesmo assim de forma parcial. Segundo apurou a Coluna, equipamento, o maior do país, o primeiro com verba federal do PAC, e custo estimado em cerca de R$ 50 milhões, abre suas portas com menos de 20% da sua capacidade total de atendimento.
Modelo 3 Material distribuído pela própria prefeitura de Camaçari reforça esse atraso. Informa sobre a estrutura do equipamento e a futura “fase de completo funcionamento”, o que só deve ocorrer no final do ano, segundo fontes governistas ouvidas pelo Camaçarico.
Modelo 4 Ainda segundo a prefeitura, a Policlínica “terá a atuação de 300 profissionais, sendo 130 médicos especialistas em 28 áreas e capacidade para realização de 54 mil exames por mês”. Na verdade, o número deve superar os 600 colaboradores e representar um custo mensal de manutenção da estrutura em R$ 5 milhões.
Modelo 5 Esse descuido com o cronograma fica claro com o enxugamento de estruturas, quando a receita deveria ser de soma. A atual Policlínica do município deve ser fechada, confirmando as dúvidas exibidas na Coluna de 15 de junho. Considerada ´desnecessária` com a nova estrutura, unidade da avenida 28 de Setembro terá seu pessoal deslocado. O mesmo roteiro, fruto de uma sucessão de equívocos e falta de planejamento das duas estruturas da saúde, estadual e municipal, deve ser seguido com a unidade de atendimento à criança, atualmente funcionando no PHOC.
Modelo 6 O Centro de Atenção à Saúde da Mulher (CASM), é exemplo ainda mais emblemático. Transferência dessa estrutura, com sede própria na Gleba-B, para a nova Policlínica tem gerado protestos e dúvidas. Sua condição singular de centro de referência, atendimento exclusivo por especialistas e cuidados especiais para um público específico, inclusive mulheres que sofrem violência, contraria a sua proposta de funcionamento num espaço como a Policlínica.
Modelo 7 Números e cronograma deixam claro de que governo e oposição não fizeram o dever de casa. A pressão governista sobre o Legislativo, quando a regra era negociar com a maioria oposicionista, o descuido com a análise do contrato de gestão entre Estado e Município, e a falta de transparência, como mostrou a Coluna de 25 de maio, só atestam o festival de equívocos de ambos os lados.
Modelo 8 Já na outra festa, prevista para às 13h, na praça Desembargador Montenegro, sede do município, Camaçari lembra a participação dos seus antepassados nas lutas e processo que resultou na Independência da Bahia. Desde a criação do roteiro de passagem do Fogo Simbólico no chamado Recôncavo Norte, em 2023, com a inclusão de Camaçari, Mata de São João, Dias D´Ávila e Lauro de Freitas, que o ato segue aquém do merecido para a sua importância histórica.
Modelo 9 Reconhecer e fortalecer a história de Camaçari e sua contribuição na formação do Brasil como elemento de construção de um sentimento de pertencimento parece ser uma das fragilidades da Camaçari que se reveza no poder nas últimas quatro décadas. Descuido tem destaque na pasta da educação, que insiste em fugir dessa lição básica na sala de aula, onde tudo começa. Reprovação também passa pelo Legislativo de Camaçari que sequer conhece sua história.
Modelo 10 Baixo desempenho é antigo, mas ganha protagonismo nas últimas gestões. José Tude e Helder Almeida (União), Ademar Delgado (ex-PT), seu sucessor Antonio Elinaldo (União) e o atual alcaide Luiz Caetano (PT) que governa a cidade pela 4ª vez. Todos pularam essa página.
Modelo 11 Não é por falta de aviso, muito menos de material que fundamente essa construção de identidade. A passagem do Fogo Simbólico em Camaçari, parte de uma agenda encerrada com o grande desfile no 2 de Julho, pelas ruas do centro antigo de Salvador, tem um personagem que o poder político de Camaçari insiste em ignorar. Sem os estudos e esforço do professor, historiador e pesquisados Diego Copque, Camaçari provavelmente seguiria com essa identidade perdida.
Modelo 12 A presença e importância dos povos originários, os tupinambás, o processo de chegada dos ´colonizadores` estrangeiros, a formação da Vila de Abrantes, primeiro núcleo urbano da região e um dos mais antigos do Brasil, não é pouca coisa. A dimensão da importância histórica do município, que tem como marco a primeira metade do século 16, continua sendo uma lição difícil de entendimento pela elite política que controla o poder em Camaçari.
Modelo 13 Uma das marcas registradas desse descuido é a ausência do município nos festejos da Independência da Bahia. Contar com orgulho e alegria seus personagens, como o indígena Joaquim Eusébio de Santana, que chegou a capitão-mor da tropa nas lutas de 1823, é obrigação constitucional. Diferente de cidades distantes centenas de quilômetros da capital, Camaçari a apenas 40 quilômetros do desfile, sequer se faz representar com seus colégios, bandas e fanfarras campeãs.
Modelo 14 Infelizmente, Camaçari prefere o caminho do apagamento. De forma solta e apenas como peça agregadora dos seus respectivos grupos políticos, caetanistas e elinaldistas desfilam no 2 de Julho como elementos secundários para fotos e discursos paroquiais nas redes sociais. Mesmo em ano eleitoral, onde vale tudo, Camaçari se mostra totalmente desconectada da sua história e da grande festa cívica puxada pelos carros do Caboclo e da Cabocla, símbolos máximos da Bahia liberta.
Modelo 15 Infelizmente, os festejos do Fogo Simbólico e da nova Policlínica dão bem a dimensão do entendimento da coisa pública e do interesse coletivo. O resto é pura narrativa.
João Leite Filho joaoleite01@gmail.com – Editor
29junho2026 Fechamento: 18h20