Ferimentos do menino
Aquele menino tinha a maior vontade de quebrar o braço, mas só conseguiu quebrar a cabeça. Achava lindo braço na tipóia, todo mundo perguntando como foi e as meninas assinando no gesso.
Quebrar o braço tinha muito mais charme, um deles era ter que escrever e comer com a mão esquerda. "Dói?" , perguntava uma garota, enquanto outra queria saber como é que é pra tomar banho. Mas eu não tive essa sorte.
Jogando "baba" nos paralelepípedos da rua Gabriel Soares, em Salvador, o menino arrancava a cabeça do dedão, ralava o joelho ou o cotovelo nas acirradas disputas da bola.
Uma vez, o menino deu um ´banho de cuia` (o atual ´chapéu`) em "Mondrongo", gritou "viu, puta?" e foi imprensado no muro pela raiva do adversário. Ganhou a disputa da bola e também um grande galo na testa com a porrada na quina do muro.
Aí veio um corte no pé. "Géo Beleza", de saudosa memória, tinha uma catraia, um pequeno barco a remo, e fomos da praia do Unhão até o Forte São Marcelo. Dentro do forte, naquele tempo abandonado e com muito lixo, pisei num fundo de copo bem afiado que atravessou a sandália japonesa (atual havaiana) e me fez um bom corte na sola do pé.
Com a minha camisa, amarrei o pé que sangrava muito e voltamos a remo até o Unhão.
Minha mãe Cleonice tinha pensão, um dos hóspedes era estudante de Medicina e disse que eu não precisava tomar pontos. Fez com muito esparadrapo o que chamou de "ponto falso" e estancou o sangue. Fiquei puto, pois queria mesmo era tomar pontos pra ter mais o que contar.
Tudo se curava com Merthiolate e alguns gritos do ardor do medicamento. Aí a gente cresce e aparece o ferimento da alma, mais difícil de curar e pior do que um encontrão de "Mondrongo".
Chico Ribeiro Neto chicoribe@gmail.com nasceu em Ipiaú (BA) é jornalista profissional, começou na Tribuna da Bahia. Trabalhou na sucursal da Revista Manchete em Salvador e na sucursal do Jornal do Brasil em Porto Alegre. No jornal A Tarde foi editor de Economia, chefe de Reportagem e secretário de Redação
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24junho2026