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José Américo da Matta no Colunistas: O garoto Laudeni e o veneno


José Américo da Matta Castro é jornalista, autor de três livros

Saci em arrotos de valentia 


A condição de folclórico se revela no apelido adquirido na infância. Tinha apenas seis anos de idade quando foi vítima de ofidismo. Em decorrência disso amputaram a sua perna esquerda. O veneno da cobra jaracuçu, cabeça de patrona, decerto lhe invadiu a alma, deixando graves sequelas e uma forte dose de presepada. 


Tirado a valente, conversador, encrenqueiro, arruaceiro, mas de boa índole, Saci era assim mesmo. Com sua muleta fazia piruetas, jogava capoeira, nadava nas enchentes do rio de Contas, desafiava brabos e tinha hospedagem garantida no xadrez da Delegacia de Polícia. 


Muitas vezes, após um apronte no brega dos Dez Quartos, atravessava a Praça dos Cometas e acordava o carcereiro Nezinho gritando:“Abre a porta que lá vai eu”. 


O bicho pegava quando ele misturava maconha com cachaça e bancava o maioral. Tirava uma de tranca rua, dançava o frevo na frente do trio elétrico, rodopiava a muleta, afastando o povo e roubando a cena dos artistas. 


Seu exótico figurino variava do tipo fazendeiro, com chapéu preto de abas largas e fita na cintura, ao estilo militar, com a farda do Tiro de Guerra que lhe dava semelhança de ex-combatente do Vietnã, ou mesmo de guerrilheiro tupiniquim. 


Uma pequena cabaça contendo rapé completava a indumentária. Sonhava em ser policial e chegou à condição de vigia de prédios públicos. Sua fama de valente cresceu, quando evitou que o prefeito José Motta Fernandes fosse massacrado em Jequié, durante um jogo de futebol da seleção local com o escrete de Ipiaú, pelo Campeonato Intermunicipal, nos idos dos anos 60. 


No meio da briga generalizada entre as duas torcidas, os agressores recuaram diante dos golpes da sua muleta. A partir de então, Zé Motta ficou lhe devendo favor e retribuiu dando-lhe atenção e o emprego de segurança. 


No cômputo geral, Saci apanhava muito mais do que batia. A sua coragem se resumia em não correr da briga. 


Trabalhar sempre foi um forte de Saci. Na juventude foi aguadeiro e vendedor de areia extraída no leito do Rio de Contas. Tinha uma tropa de jegues, com a qual transportava a areia lavada até os prédios em construção, contribuindo assim com o desenvolvimento da cidade. 


Em seu lazer constavam incursões na zona boêmia e na jogatina. No bar, no baralho, nunca deixava de contar farromba. As presepadas se estendiam a outras façanhas. 


Uma vez tomou um banho de sangue de galinha e adentrou um boteco, bradando: “Acabei de despachar um e tô com vontade de matar outro”.Quem não o conhecia, entrava em pânico. De outra feita, no cemitério, apontou para o túmulo de um valentão e disse:“Esse aqui deu sorte, porque quem ia matar ele era eu”. 


“Sai de baixo, lá vem Saci!” A meninada corria ao primeiro sinal de alerta, enquanto o homem da muleta cruzava a rua pronunciando frases delirantes, arrotando valentia, escondendo sua essência de boa pessoa traumatizada pelo veneno da cobra, pela amputação da perna. 


Nesses momentos ele devia se lembrar de quando era tão somente o garoto Laudení José dos Santos, morador de uma roça no município de Dário Meira. 


José Américo da Matta Castro é jornalista, graduado pela UFBA, com larga experiência em diversos órgãos da imprensa baiana, é autor de três livros e presidiu o Conselho Municipal de Cultura de Ipiaú  


Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade do autor

23abril2026

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