Busca:

  Notícia
 
Waldeck Ornélas no Colunistas: A Bahia e o estrangulamento logístico


Waldeck Ornélas é especialista em planejamento urbano-regional

BR-324 Prioritária e urgente 


Recentemente, foi publicado o edital para concessão da Rota dos Sertões, assim chamada a BR-116 Norte na Bahia, estendendo-se de Feira de Santana a Salgueiro (PE), com 502 km de extensão. Uma priorização que desconhece a importância e pretere o Polo Juazeiro (BA) / Petrolina (PE).


Por sua vez, a BR-116 Sul, de Feira de Santana até a divisa com Minas Gerais, saiu de uma concessão traumática em maio de 2025, mas somente em novembro deste ano (2026) deverá ter publicado o edital para nova concessão.


Dezoito meses para chamar uma nova licitação para um caso que sangrava havia pelo menos 10 anos, como se esta concessão – agora denominada Rota 2 de Julho – não incluísse o trecho da BR-324, entre Feira de Santana e Salvador, o acesso à península onde está localizada a Capital da Bahia e sua Região Metropolitana.


A Bahia está logisticamente estrangulada, mesmo no modal rodoviário, o predominante no país. Para romper esta situação, dois outros eixos rodoviários requerem atenção especial: a BR-101, paralela à BR-116, para onde as cargas extravasaram – apesar de sua concepção original como rodovia litorânea e turística – e a BR-242, que atravessa a Bahia, em sentido transversal, interligando o Oeste baiano aos portos litorâneos.


Gênese do Matopiba, o Oeste baiano é área produtora de grãos e algodão de importância nacional. Sua economia, contudo, vê-se limitada pela carência de infraestrutura, principalmente energia e transportes.


Apesar das dificuldades logísticas, a soja do Oeste baiano encontrou no Porto Cotegipe, em Salvador, o local para escoamento da parcela da safra destinada à exportação. Por aí embarcaram 6,5 milhões de toneladas em 2025. Já a exportação do algodão – de que a Bahia é o segundo maior produtor nacional –, começou a migrar firmemente, a partir de 2024, do Porto de Santos (SP) para o de Salvador, com redução de custo para os produtores. Em 2025, um quinto da safra baiana já saiu pelo Tecon-Salvador.


A região aguarda, com ansiedade, a conclusão da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol) que, embora esteja com cerca de 72% concluída, continua incerta. Acontece que o trecho Fiol I – Ilhéus-Caetité, está com as obras paralisadas pela concessionária (o Porto de Aritaguá, em Ilhéus, do mesmo concessionário, sequer foi iniciado).


O trecho Fiol II – Caetité-Barreiras, por sua vez, a cargo da Infra – empresa do Ministério dos Transportes – acaba de contratar a execução de um tramo de 35 km, entre Caetité e Guanambi, com prazo para execução de 40 meses…


Enquanto a ferrovia não chega, a BR-242 é, para os produtores, a “salvação da lavoura” e, para os turistas que viajam à Chapada Diamantina, a “tábua de salvação”.


A rodovia BR-242 estende-se de Luís Eduardo Magalhães até o entroncamento com a BR-116 Sul, no município de Rafael Jambeiro, com cerca de 800 km. Até Salvador, a distância é de 953 km (pelas BR-116 e BR-324).


Na falta de ferrovia, é esta rodovia que “quebra o galho” no escoamento das safras do Matopiba, além de servir ao turismo na Chapada Diamantina.  Bem poderia ser chamada de Rota TransBahia.


Consta do PAC, numa de suas extremidades, a duplicação do trecho Luís Eduardo Magalhães-Barreiras e o BNDES estaria estudando – no modelo “rodovias integradas”, adotado com êxito no Sul do país – a concessão conjunta de estradas federais e estaduais localizadas no núcleo produtivo do Oeste baiano. Mas isto é muito pouco e, ao contrário, pode enfraquecer a concessão de toda a rodovia.


Com efeito, estudos já teriam sido realizados e concluído que, embora seja uma via de transporte de carga, a BR-242, por sua extensão, não apresentaria o volume de tráfego necessário para viabilizar uma concessão.


Ou seja, o fato de ser importante economicamente é irrelevante para ser bem mantida e operada… Isto é, no mínimo, um contrassenso. Ao contrário, o fato de ter relevância econômica deveria alçá-la, imediatamente, à condição de prioritária.


Mas não é o que ocorre. Aqui em nosso país, confunde-se o instrumento com a sua finalidade. A concessão não é o fim. É o meio pelo qual o Estado mobiliza o setor privado para realizar atividades que são suas.


É obrigação do Poder Público manter as rodovias. Não podendo fazê-lo, ou não o fazendo com eficiência, o Estado promove a concessão. Se a concessão não é sustentável economicamente, cabe ao Estado patrociná-la, mas nunca abandonar uma rodovia à própria sorte.


Decididamente, não cabe para aí o modelo de “concessão light” que chegou a ser ensaiado, na prática um programa de manutenção. É preciso uma concessão de verdade, com contraprestação da União, revisada periodicamente, para reduzi-la em função do crescimento do tráfego. 


Na outra extremidade, a conexão da BR-242 com a BR-116, no município de Rafael Jambeiro, constitui um grave ponto de estrangulamento do tráfego. É de supor-se que o equacionamento desse ponto crítico esteja contemplado na nova concessão da BR-116. Se não estiver, ainda há tempo para incluir.


Com este perfil, funcionalidade, importância e problemas, a BR-242 é prioritária e urgente.


Waldeck Ornélas waldeck.vo@gmail.com é especialista em planejamento urbano-regional. Autor de “Cidades e Municípios: gestão e planejamento”. Foi senador, ministro da Previdência e secretário de planejamento do estado 


Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade do autor

19março2026

Mais Notícias

José Américo no Colunistas: O troca-troca de partido é pura conveniência
Mudança da escala 6X1 afeta 37 milhões de trabalhadores e impacto de R$ 158 bilhões
Índice de confiança da indústria na economia segue em queda
João Borges no Colunistas: A ONU e o tráfico de escravizados africanos
Brasil já é o 8º mercado mundial de consumo de música
Angélica Ferraz no Colunistas: A guerra, Trump e a Copa do Mundo
Luiz Carlos Azedo no Colunistas: A guerra e as urnas no Brasil
COLUNA CAMAÇARICO 23 MARÇO 2026
Construção civil diz que redução da jornada de trabalho vai encarecer custo da obra
Chico Ribeiro Neto no Colunistas: A fumacinha na hora errada


inicio   |   quem somos   |   gente   |   cordel   |   política e políticos   |   entrevista   |   eventos & agenda cultural   |   colunistas   |   fale conosco

©2026 Todos Direitos Reservados - Camaçari Agora - Desenvolvimento: EL