Aos professores de História
Wagner Moura recebeu o Globo de Ouro e foi indicado ao Oscar em 2025 pelo filme “O Agente Secreto”. O ator baiano explicou que a obra denuncia a ditadura militar e fala sobre memória. O mundo aplaudiu o cinema brasileiro. Contudo, alguns brasileiros praguejaram.
Elísio Brasileiro, um dos maiores professores de História do país, falecera poucos dias antes da premiação. Pela idade, Wagner Moura poderia ter sido seu aluno. Eu fui. O educador dedicou a vida a nos capacitar a lembrar, sentir e pensar. Também lutou pessoalmente contra o autoritarismo cujo terror é abordado no filme premiado. Todos os estudantes vibravam com suas lições, contudo, depois de velhos, alguns passaram a cuspir nelas.
Tenho refletido sobre o sentimento que os nossos professores de história guardariam em relação à minha geração. Marli Sales, Renato Afonso, Renato Santos... Que juízo Elísio Brasileiro levou de nós que fomos jovens nas suas salas de aula nos primeiros anos de redemocratização e hoje temos em torno dos 40, 50 anos? Qual história nossos professores contariam sobre nós, que um dia representamos a esperança deles em um mundo melhor?
Entre a passagem do historiador e a entrega do prêmio ao artista, Donald Trump ordenou a invasão da Venezuela e captura do seu presidente. O motivo declarado da ação foi o petróleo. Antes, havia dito que os outros países do continente eram o seu quintal. Citou expressamente a Doutrina Monroe (América para os americanos) e aproveitou para ameaçar medidas semelhantes contra Colômbia, México e até Groelândia.
O presidente estadunidense é notoriamente autoritário. Despreza o direito internacional e também as leis do seu país. Quando perdeu uma eleição, estimulou um golpe de Estado. Ao retornar, criou uma espécie de polícia violentíssima para perseguir estrangeiros. Agora, decidiu que as outras nações devem se simplesmente se curvar porque ele possui o exército e uma economia mais fortes.
Trump se julga acima da lei porque crê ser a encarnação do sentimento do povo. Não é necessário ter sido um aluno muito estudioso para ver a ideia de raça superior implícita nos seus atos. Quando um líder beligerante, que encarna o ressentimento contra mudanças sociais e se vê como representante do sentimento de uma raça superior, derruba o governo da Áustria, o mundo todo precisa temer, porque logo virá a anexação dos tchecos e poloneses.
O planeta se apavorou, mas alguns líderes políticos brasileiros celebraram a possibilidade de voltar a ser colônia. Expressaram o desejo de ver a sua pátria invadida. Abria-se a temporada de candidaturas ao cargo de gerente ou feitor em uma possível República de Vichy dos trópicos. Mais surpreendente, contudo, foram ex-alunos de ótimos professores de história, que nem sequer tinham chances de participar da administração colonial e também se alegraram. Alguns de modo efusivo; outros fingindo desinteresse.
Elísio partiu justamente em uma época na qual parte dos brasileiros tenta ridicularizar a sua classe. Pessoas inteligentes de repente acreditam que a bobagem transmitida no grupo de whatsaap é mais confiável do que um livro ou uma aula. Se é doloroso ver pessoas que você gosta desprezando o conhecimento ou o sofrimento alheio, deve ser ainda mais doloroso para os professores delas.
Por mais conhecimento que a escola ofereça, ela não pode evitar que os caminhos da vida construam valores e prioridades que nos nortearão, mesmo quando contrariam o que aprendemos. A educação é linda, mas nunca impediu a existência de pessoas que desejassem ou aceitassem viver em economias excludentes e com práticas violentas contra grupos que julgam ser moralmente inferiores.
A maior parte das pessoas instruídas da Alemanha seguiu Hitler. A elite italiana aplaudiu Mussolini. Os brasileiros mais ricos foram entusiastas do golpe militar e críticos ferrenhos das propostas de abolição da escravidão. A vassalagem de cada época talvez seja apenas uma busca desesperada de racionalizar e enfrentar a culpa que se sente porque, mesmo possuindo conhecimento suficiente para entender o que faz, cada um deseja exatamente aquilo o que deseja. Não há educador que dê jeito quando a indiferença é uma escolha.
O mérito de o Agente Secreto não é resgatar a história. É conclamar toda uma geração a resgatar a vontade de cultivar a memória e valorizar esse cultivo. O filme nos estimula a pedir perdão aos que lutaram contra a ditadura militar, aos nossos professores de história, à nossa cultura e à nossa educação.
Apesar de ter convivido com professores tão brilhantes e generosos, a minha geração age como age. Porém, graças a aqueles mestres, minha geração também possui representantes como Wagner Moura.
Sem tantos Elísios, Renatos e Marlis, o Brasil não teria qualquer capacidade de resistir. Se procurarem bem, os professores encontrarão outros exemplos para lembrá-los de que devem se orgulhar. Às vezes, pode não parecer, mas suas lições vivem.
Rafson Ximenes é defensor público, especializado em direito penal pela PUC-RS. Foi Defensor Público-Geral do Estado da Bahia.
Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade do autor
11fevereiro2026