A banca de Muquiado
Me vejo nos idos dos anos 1980, século XX, Praça Rui Barbosa, em Ipiaú. Ainda escuto a canção “Alegria, Alegria”, de Caetano Veloso, na qual o poeta dizia do Sol nas bancas de revistas e de quem lê tanta notícia. E que ia por entre fotos e nomes, os olhos cheios de cores…
O Sol, referido na letra da música era um jornal tabloide do Rio de Janeiro, que circulou entre setembro de 1967 e janeiro de 1968, com uma linguagem inovadora, influenciada pelo movimento da contracultura.
Já não estávamos naquele tempo, e sim nos anos 1980, na Banca de Revista de Muquiado, próxima ao ponto de táxi, lado oposto da Igreja Matriz de São Roque, no coração de Ipiaú. Eu ia ali todos os dias em busca das tais notícias. Eu ia. Eu vou. Vou contar a história daquele lugar.
Ponto de cultura, de escuta, local onde se ficava sabendo de tudo. Informações daqui, dali e alhures. Falava-se de futebol, política, economia, polícia, tudo que se possa imaginar, inclusive a vida dos outros.
Cada um chegava com uma fofoca, ocorrências da cidade, enquanto as publicações, jornais e revistas, traziam fatos, fotos e nomes de lugares distantes. Aldeia global se estabelecendo. Vamos lá!
Depois de correr trecho, trabalhar num açougue em São Paulo, ser laboratorista prático do Derba, participar das construções de grandes obras no interior da Bahia, Reinan de Araújo Lopes, o popular “Muquiado”, nascido na região do Emburrado, filho dos fazendeiros José Augusto Lopes (Du Lopes) e Sindai Fernandes de Araújo, retornou para Ipiaú e adquiriu a banca de revistas.
Pontualmente, o estabelecimento era aberto às 7 horas e fechado às 19 horas. Muquiado chegava antes para fazer a arrumação. Passava o dia todo ali. Comia na marmita e quando a bexiga apertava, dava um jeito de mijar num litro.
Nos dias de terça-feira, em função da remessa e conferência das revistas, a rotina se estendia até às 22 horas, sem atendimento ao público. Aos domingos, o funcionamento era até às 12 horas. A labuta se estendeu por 22 anos consecutivos, de 1982 até 2005.
Muita gente visitava a banca, todos os dias. Uns em busca de cultura, outros pelos papos. O jornaleiro Chico chegava primeiro, bem cedo, antes da banca ser aberta. Ficava esperando a remessa do jornal A Tarde, que ele entregava aos assinantes e vendia pelas ruas.
Depois chegavam o contador Daniel Macêdo, o barbeiro Tonhá, o advogado Agnaldo Teixeira, os funcionários do Supermercado Messias (Aloísio, Edísio, Brasília).
Os demais iam chegando conforme a conveniência dos seus horários nas agências bancárias, lojas e outros ambientes de trabalho. Antes do expediente era de praxe uma paradinha por lá.
ALGUMAS HISTÓRIAS Muquiado sabia cativar sua freguesia, mas também tinha expertise contra inconveniências. Um rico avarento, assíduo frequentador da banca, pegava o jornal e lia todinho, da primeira à última página. Repetia diariamente esse hábito e quando indagado porque não comprava o exemplar, respondia que não havia necessidade, tendo em vista a facilidade da leitura gratuita.
Adotando a máxima de que paciência tem limite, Muquiado começou a molhar o lugar onde o leitor cara de pau sentava. O dito reclamou, esbravejou, mas teve que optar em pagar ou largar. Ficou com a segunda opção.
Acontece que outros também adotavam o hábito de folhear os jornais, ler as notícias esportivas e policiais e nada de comprar. Nova tática foi aplicada contra os queixões da leitura. Cada exemplar era grampeado. Muquiado informava que estavam vindo assim desde Salvador.
O CIGARRO DO ROMEIRO Nem todos pagavam o que pegavam. Um romeiro, vindo de Bom Jesus da Lapa, foi até a banca, e educadamente perguntou: - “O senhor me dá um cigarro? O pedido foi atendido, e após a primeira baforada, o solicitante virou as costas e estava se afastando, quando Muquiado gritou: “Ei, o senhor não pagou o cigarro”. O romeiro fez meia volta e disse: “Eu lhe pedi, não disse que queria comprar, portanto não lhe devo”, Muquiado entendeu, levou o caso na brincadeira, e desejou boa viagem ao sujeito.
REVISTA PORNOGRÁFICA As publicações com fotos de nudez frontal e pegadas pornográficas eram muito procuradas naquela época e garantiam gordas comissões ao dono da banca. Certo dia, um menino se aproximou da banca e disparou: “Ô Muka me vende uma revista de putaria”. A negativa foi imediata e justificada, no argumento de que a leitura daquele tipo de revista era proibida para menores de 18 anos. De imediato o garoto retrucou: “Ô bêsta, eu tenho mais de 10 dessas aqui na mochila”.
VÉI Cassiano Melo de Oliveira, ou simplesmente Cassiano, ganhou fama como pescador, engraxate e fabricante de garrafadas destinadas à cura de doenças venéreas. Era um discreto e respeitado homossexual, opção que sustentou até morrer aos 86 anos. Todos os dias ele ia na banca e batia um papo com Muquiado. Cassiano dizia que muitas das pessoas que ele curava com as providenciais garrafadas, mantiveram relações sexuais com ele. Muquiado pediu para que citassem os nomes de algumas. O sigilo foi mantido, entretanto Cassiano resumiu: - “São todos que me chamam de Véi”. Naquele tempo a cidade inteira o chamava assim.
A FOLHA DE PAGAMENTO Em outra ocasião, chegou um jovem fazendeiro com ares de apressado, comprou uma revista, e esqueceu sobre a ruma de jornais um pacote em formato de envelope. Temeroso que fosse alguma brincadeira de mau gosto, abriu o pacote e constatou que dentro do envelope estava acondicionado em um saco plástico, um pó branco e brilhoso. Deduzindo tratar-se de cocaína, Muquiado fechou o envelope e o entocou em cima da banca. Não tardou o dono do bagulho chegar cheio de desespero, perguntando se tinha esquecido um pacote por ali e explicando que dentro do envelope estava o dinheiro da folha de pagamento da fazenda. Muquiado mostrou onde estava o pacote e os dois respiraram aliviados.
TRETA DE RATINHO Jocélio, apelidado de Ratinho, contumaz “amigo do alheio”, sempre rondava a banca para aplicar a modalidade do descuido. Foi bem sucedido em muitas vezes. Escaldado com aquela situação, Muquiado ficou mais atento aos movimentos. Um dia fez que tava dormindo, para pegar Ratinho no flagrante, mas este não se arriscou. Afastou-se um pouco e disparou: -“Qualé, Muquiado, tu tá igual coelho, que tem o zói vermelho e finge que tá dormindo, mas tá vendo tudo. Ainda não é vez de tu me pegar no flagra. O Rato aqui não é pato, nem otário, meu rei”.
JUROS DE CIGANO Junto da banca tinha um orelhão, que era muito utilizado pela ciganada para suas conversações e negócios. Joca Zoião e Ultraman se aproximaram do orelhão e, de sacanagem, comentaram que o dono da banca tava precisando de uma verba extra para ampliar os negócios do estabelecimento. Os ciganos prestaram atenção na conversa, e no outro dia assediaram Muquiado com a proposta de empréstimo. “O juro é bom, gajão”, assegurou um deles. Muquiado perguntou: Qual a taxa? Outro respondeu: “Meio por cento ao dia”.
Feito o cálculo, daria 15 % ao mês, o que deixou Muquiado interessado em pegar aquela grana. Na promissória que assinaria constava o dobro do que foi dito. Diante daquilo, o interessado na verba refugou: “Aqui tá bem mais de juro do que os 15 % que vocês disseram”. Então veio a explicação: “Gajão é meio por cento ao dia e meio por cento à noite”.
MANGUE Do distrito de Tapuia, município de Camamu, mandaram, num saco, cinco dúzias de caranguejo pra Muquiado. Pensando em manter os bichos vivos, ele fez uma pequena abertura no saco e deixou a encomenda no fundo da banca. Foi o suficiente para os crustáceos forçarem a barra e ganharem a liberdade.
Ocupado com os afazeres, Muquiado não percebeu a fuga. Só deu conta quando as pessoas que estavam na praça começaram a gritar: - “Olha o bicho, olha o bicho”. Foi um mangue. A cambada atravessou a rua, arranhou a porta da agência do Bradesco, subiu a escadaria da Caixa, entrou nas lojas próximas, assustou mulheres e crianças. Alguns foram parar no restaurante de Dona Preta e tiveram a honra de entrar na panela.
O CARA Hoje, aos 73 anos, casado há mais de quatro décadas com dona Helenira Brito Lopes, pai de Farlle e Xeima, avô de Cléo, Ellis, Benjamim, Bela e Laura, Reinan de Araújo Lopes que recebeu o apelido de “Muquiado” num baba no Areão do Barro, e foi campeão municipal de futebol pelo Botafogo, na temporada de 1974, tem muita história a contar. Confessa que soube viver, e que na famosa banca de revistas da Praça Rui Barbosa fez boas amizades, acostumou-se com a leitura, adquiriu muito conhecimento, ganhou dinheiro e deu grandes gargalhadas. Ainda tem muito a contar.
José Américo da Matta Castro é jornalista, graduado pela UFBA, com larga experiência em diversos órgãos da imprensa baiana, é autor de três livros e presidiu o Conselho Municipal de Cultura de Ipiaú
Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade do autor
8fevereiro2026