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Bruno Lunelli


O xadrez das relações humanas



Ganhar. Vencer. Ser melhor. Chegar na frente. São expressões que estamos acostumados a ouvir e que fazem parte da nossa criação ocidental/capitalista, em que o sonho se realiza pelas conquista externas, pelas vitórias sobre um inimigo externo, pela aquisição dos “bens” materiais, como se isso fosse verdadeiramente bom.


O corredor chega em primeiro; o presidente é o mais votado; o conquistador ganha a moça; o marketing convence o cliente da necessidade de um determinado produto; o alpinista vence a montanha.


E assim, como num jogo de xadrez, tentamos fazer a melhor jogada, esperando que o opositor não leia nossa intenção e se melhor dermos sorte, o opositor erra; eis a fórmula do sucesso: a vitória sobre o erro daquele quem dividimos o tabuleiro.


No entanto, não paramos pra pensar que o jogador oponente é a única pessoa interessada no que está acontecendo no nosso mundo de jogador que busca a vitória. O oponente é o único que, naquele momento, conhece as regras do jogo. O oponente é nosso parceiro, nosso aliado pra passar o tempo... tempo que pode ser a vida toda.


Está na hora de vermos nossos oponentes como nossos parceiros, ou, melhor ainda, não tratarmos o outro (o mundo) como oponentes, mas sim como pessoas que estão no nosso barco, e que se todos não remarem no mesmo ritmo, o barco anda em círculos.


Mas então não devemos nos preocupar com a vitória? Não devemos querer ser melhor? Talvez. Melhor do que quem? Do que o outro? Ou melhor do que nós mesmos?


7 a 1 é humilhante. O jogo só é bom mesmo quando um time ganha e o outro perde, mas aquele que perde precisa ter a sensação de que perdeu lutando com garra, com determinação; que perdeu porque o outro foi melhor e não porque ele foi ruim. Se não, a vitória vira humilhação. E a humilhação não é boa nem pro humilhado nem pra quem humilhou. O time vitorioso sai de campo com uma sensação de desumanidade. Por esse motivo, talvez, a Alemanha tenha aliviado o pé no famoso 7 a 1. Poderia ter feito mais....mas segurou.


O esporte evoluiu e criou o conceito “fair play”. Que tal praticar o “fair play” no xadrez das relações? Ajudar o outro a ser tão bom quanto você; ajudar o outro a ser tão amado quanto você gostaria de ser... um sorriso, um “eu te amo”, mesmo que não pareça genuíno, ajuda a tornar a partida do dia a dia menos tensa. 


Tente não competir com os outros. Essa coisa de ser o melhor, de premiação, esse sistema ocidental de premiar o primeiro lugar dá as pessoas uma sensação de vitória no egoísmo... e isso é muito ruim nas relações humanas. É preciso dosar. Aqui vai uma teoria de um matemático famoso, John Nash: "o melhor resultado acontece quando todos em grupo fazem o melhor pra si e pelo grupo” Esta teoria funciona até no xadrez, onde o melhor pra si mesmo no jogo tem que ser o pior para o outro; ou seja: pegar o outro no erro. No entanto, se vencermos sempre, aplicando todas as habilidades e poder supremo, beirando a humilhação, em pouco tempo o outro lado do tabuleiro vai ficar vazio. Sem parceiros, sem oponentes. Ninguém vai querer jogar com alguém que nos evidencia as nossas próprias falhas toda vez... então, perder de vez em quando, é bastante saudável. 


O incrível pensador/observador do infinito espaço sideral de cada um, Raul Seixas, já falava dos desejos da anti-cidade, do o sonho do amor, da liberdade, da expansão da consciência.


Acrescentando e mudando os conceitos de sonho de Raul, no bom e velho estilo maluco beleza, sonhar o sonho junto é praticamente tão impossível quanto esperar que todos pensem da mesma forma. Porém, sonhar o sonho só, individualmente, e convidar o outro a participar do nosso sonho individual e na mesma medida, como feed back, ouvir e se alegrar do sonho do outro, ai sim, “o sonho que se sonha junto”, que tanto falava Raul, se torna realidade.


A chave é o convite. Convide o outro pro seu mundo sem querer que o outro acredite nas mesmas coisas que você. 


Convide o outro pra uma partida. Sem querer ganhar. Até porque a partida da vida acaba antes do relógio zerar. E é melhor prestar atenção no movimentos das peças do que sentar na poltrona, cheio de dentes, contando as vitórias, esperando o relógio parar.


Bruno Lunelli  blunelli@hotmail.com é escritor, Bacharel em Artes pela Ufba, MBA em Gestão de Pessoas e Ambientalista


 
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