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Paulo Roberto D'Errico


Se se pode morrer de sede em frente ao mar!



Certa feita, quando frequentava os bancos do antigo ginásio, tive que escrever uma redação cujo tema era o que segue no título deste modesto texto, e eu, mesmo ainda meio obtuso e sem a gama de informações que me acompanham hoje, me lembro que falei sobre a fome no Brasil, um país tão rico em recursos de toda ordem e onde tanta gente ainda morria de fome. Tirei dez!


Tanto tempo depois, percebo que se me fosse dado hoje aquele mesmo tema, certamente estaria aqui discorrendo sobre a situação da CASA DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE DE CAMAÇARI, projeto social que há 25 anos educa e forma boa parcela dos nossos jovens.


No que tange a políticas públicas voltadas para um público que tem entre 7 e 18 anos incompletos, cidadãos camaçarienses, e a quem o Estado é obrigado a dar especial proteção, talvez não encontre paralelo em nosso município.


A Casa da Criança, como toda a cidade costuma chamá-la, fica praticamente no centro cidade, na rua do Telégrafo. Rua que se tornou ainda mais conhecida por também ser o endereço da “menina dos olhos” do poder público, a toda poderosa Cidade do Saber, que também tem a sua importância, sabemos, e que em nada rivaliza nem se atrita com o trabalho desenvolvido na “Casa”.


Ocorre que, paradoxalmente, a condição em que se encontram hoje estes dois equipamentos, fundamentais ao nosso município, é bem distinta. A Casa as Criança definha! Parece que foi esquecida pelos nossos governantes, pois o que se vê lá em nada lembra, em nada a aproxima da opulência da sua bem alimentada “prima rica”, que mora bem em frente à sua “Casa”!


Tive notícia que as coisas não andavam bem por lá há algum tempo, pois tenho amigos que passaram de educandos a educadores da Casa, e me diziam que não tinham certeza do futuro da instituição, pois a notícia que lhes chegava era que nenhum contrato iria ser renovado. O que os preocupava não era o fato de estarem sem seus empregos, mas para onde iriam as mais de 700 crianças e adolescentes que pela Casa eram atendidos.


Em 2013, por conta de certa repercussão que esse fato ganhou em parte da nossa mídia eletrônica, os contratos foram renovados e a Casa da Criança respirou, conseguiu sobrevida e o ano letivo de 2014 foi garantido! A sociedade venceu! Será?


Apesar de conhecer a Casa da Criança e do Adolescente na sua origem, de saber da sua importância e de ter notícia dos talentos que lá foram revelados, eu só fui, de verdade, conhecer, “in loco”, o seu real funcionamento este ano, pois foi quando meu filho completou sete anos e eu pude matriculá-lo no curso de bateria.


Frequentando as suas dependências, pude verificar que a situação é muito pior do que apenas a não renovação dos contratos dos educadores da Casa. Lá falta tudo!


A única coisa que não falta é a boa vontade e abnegação da direção e dos educadores, que insistem em não deixar o projeto “morrer”, mas até quando? Até quando vão suportar a ausência do Estado na instituição?


Há um universo de mais de 700 crianças e adolescentes matriculados e hoje a frequência é de pouco mais de 400. E por quê? Será que é porque já não há mais merenda? Será que é porque raramente chega material de limpeza? Será que é porque lá não se sabe o que é material administrativo (como canetas, papel, grampeadores, perfuradores etc)? Será que é porque não existe um único telefone para a direção? Computadores? Por que não existe sequer papel higiênico? Roçagem do mato, que cresce cada vez mais, expondo as crianças a insetos de todos os tipos e cobras? Será que é por que a SEDES, secretaria responsável pela Casa, instalou um filtro de água, mas não fornece sequer os copos descartáveis para os alunos beberem água e os orientou a trazer seus próprios copos de casa?


Que motivo, destes elencados, explicaria a enorme evasão escolar? OU SERÁ QUE SERIA A CONJUNÇÃO DE TODOS ELES? Outra questão que me atormenta é: onde estão estas nossas crianças e adolescentes agora? Com certeza não estão aprendendo algo que os ajudaria em algum sentido. Disso eu tenho certeza!


Terças e quintas, quando deixo meu filho na aula de bateria e estou em frente à Casa, me vem à cabeça frases de uma música de um grande artista, compositor baiano e ex-ministro da cultura e que ilustra perfeitamente esse quadro, disse ele: “...de um lado esse carnaval, de outro a fome total...”, lembram?


Mais do que um desabafo, este texto é uma cobrança e um apelo. Exijo, junto com outros pais, na qualidade de cidadãos, que o governo se posicione, cumpra o seu papel e interceda em favor da Casa da Criança e do Adoloscente, não permitam que a Instituição morra à míngua.


Apelamos por nossas crianças e jovens. Nos devolva o que é nosso e que pagamos com os nossos impostos. É sua obrigação, governo, nos dar condição de manter o que construímos dia-a-dia! 


Paulo Nieto prnietoadv@hotmail.com é advogado, pai e cidadão camaçariense


 


 
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