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Paulo Costa Lima


Se saia sua favelada: Esses “pequenos” apartheids brasileiros



O que é mesmo que significa essa expressão ouvida no diálogo brincalhão entre duas jovens, na frente de um tradicional shopping, uma gritando para a outra que já ia quase do outro lado da rua: “Se saia sua favelada”?


A frase arranhou o ouvido, aliás não apenas a frase, toda a performance. Seria um pagode? Parece o ritmo de um repique ou tamborim, com esse acento marcado logo de início: “Se saia…”.


Como é possível misturar num mesmo gesto coisas tão ofensivas e um humor contagiante de risada sonora quase escandalosa? Aliás, em Salvador, mesmo os lugares mais pobres e desprovidos de tudo não são chamados de favelas. Portanto, a palavra é mais forte ainda.


Isso aí é coisa da nova classe média, cheguei a pensar por um instante, mas logo lembrei do alerta da Marilena Chauí, somos apenas trabalhadores e burguesia, o resto é enfeite, ou melhor, ideologia.


A tradicional classe média sempre teve sim função ideológica, correias de transmissão da ideologia dominante — requintes de pequenas/grandes distinções que sempre “enfeitaram” o cotidiano brasileiro.


Os exemplos mais óbvios são as universidades públicas e os aeroportos. Nunca foram coisas de pobre e agora andam repletos de gente de todos os tipos.


Essas distinções do cotidiano, esses pequenos/grandes apartheids brasileiros sempre representaram uma aliança com a classe dominante, um certo consolo de proximidade de valores e de territórios.


Mas, se não fizeram ruas suficientes para os carros que foram vendidos, imaginem hospitais, que é algo muito mais difícil de fazer! Ficar doente ficou muito mais arriscado do que antes. Não há vagas.


Ou seja: a inexistência de estrutura afeta todas as áreas, das lanchonetes ao ferry boat. Em Salvador, a ampliação de consumidores e a má gestão da cidade tem sido uma combinação cruel que, ao longo dos anos, desemboca nesses gargalos de cidadania dos dias de hoje.


Os serviços sofrem, pioram de qualidade, e como a demanda continua, nada se altera. É preciso exigir dos governantes (em todos os níveis) investimento em canais de expressão do consumidor.


Se alguém encontra um gerente de supermercado matando 50 baratas com os próprios pés, enquanto elas fogem desesperadas, o que deve fazer? Virá a vigilância sanitária a tempo?


Então: a escolha de expressões como “sua favelada” talvez represente a identificação de alguns desses novos consumidores com esse mecanismo tradicional de obter prazer pela distinção.


A distinção entre quem consome e quem está excluído de quase tudo, da dignidade do morar à presença em lugares como shoppings. A ordem para chispar daqui (“Se saia”) toca na ferida da exclusão, ordenando a própria exclusão.


Mas como entender o humor? Talvez seja o sinal de que está acontecendo uma transferência importante de coisas da vida para o plano simbólico da linguagem, esse espetáculo que todos construímos juntos.


Aquela que sabe muito bem o que é ser excluída, brinca perigosamente, maliciosamente, mas ainda assim com algum carinho, com o rótulo que tantas vezes poderia ter sido aplicado a si mesma…


Estamos em pleno laboratório, e isso não está em livro algum: como é que esses 40 milhões de novos consumidores vão reconstruir, inclusive através do espetáculo da fala, as marcas e tradicionais distinções que sempre “enfeitaram” a sociedade brasileira? Qual o destino da "suave" ideologia entre nós?


paulocostalima@terra.com.br Paulo Costa Lima é compositor ativista, escritor e professor da UFBA. Pesquisador do CNPq também é membro das academias de Letras e de Ciências da Bahia


 
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