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João Borges


Racismo, Preconceito e Intolerância



Vivemos no século XXI tempos de valorização da diversidade. O Brasil começa se livrar dos resquícios do racismo e colonialismo, entretanto detectamos hoje um novo e nefasto fenômeno, a intolerância religiosa.  


A intolerância religiosa que enfrentamos nos nossos tempos no Brasil é única e exclusivamente contra as religiões de matriz africana capitaneada por um segmento religioso extremamente fundamentalista que possui poderosa representatividade política no legislativo nacional, muitos deputados nas assembleias legislativas e vereadores nas câmaras municipais. Têm forte aparatos midiáticos como emissoras de rádios, redes de TVs, jornais escritos, além de nítido poder  econômico.  Outro aspecto da intolerância religiosa no Brasil e principalmente na Bahia é relação com a discriminação racial ou propriamente o racismo, mas o que é intolerância religiosa?


Segundo os pensadores da filosofia da religião ‘é um termo que descreve a atitude mental caracterizada pela falta de habilidade ou vontade em reconhecer e respeitar diferenças ou crenças religiosas de outros. Pode-se constituir uma intolerância ideológica ou política. Pode-se também resultar em perseguição religiosa em ambas têm sido comuns através da história. A maioria dos grupos religiosos já passou por tal situação numa época ou noutra’


Precisamos dizer que os templos religiosos de matriz africana contribuíram para cristalização de campos da cultura de um povo que aqui estava na condição de escravo. Candomblé é um conjunto de manifestações religiosas que se estendem para vários outros campos da Bahia e de Camaçari. A música, a dança, a culinária, a indumentária, a relação com a natureza, a dimensão ecológica, tudo isso o terreiro de Candomblé abriga com uma característica muito própria. E, além disso, é também um é lugar de abrigo desse patrimônio humano negro. Atacar os terreiros e atacar a negritude é atacar as religiões de matriz africana, é ser servo do racismo, é praticar de certa forma discriminação racial. Mas o que é racismo mesmo?  


Segundo os pensadores das relações etino raciais o ‘ racismo é a tendência do pensamento, ou do modo de pensar em que se dá grande importância à noção da existência de raças humanas distintas e superiores umas às outras. Onde existe a convicção de que alguns indivíduos e sua relação entre características físicas hereditárias, e determinados traços de caráter e inteligência ou manifestações culturais, principalmente religiosas são superiores a outros. O racismo não é uma teoria científica, mas um conjunto de opiniões nem sempre pré concebidas onde a principal função é valorizar as diferenças biológicas entre os seres humanos, em que alguns acreditam ser superiores aos outros de acordo com sua matriz racial. A crença da existência de raças superiores e inferiores foi utilizada muitas vezes para justificar a escravidão, o domínio de determinados povos por outros, e os genocídios que ocorreram durante toda a história da humanidade’. Hoje conseguimos perceber, de forma cristalina, essa atitude  em alguns segmentos religiosos neo pentecostais que sistematicamente demonizam as Religiões de Matriz Africana, invadindo templos, depredando altares objetos sagrados. Porem a forma mais sutil  de intolerância é ofensa conceitual  aos adeptos.


O que seria a ofensa conceitual? Tratasse de um conjunto comportamental com atitudes baseado num discurso de salvação a partir de uma única crença ou ‘caminho’, como uma verdade absoluta inquestionável.


Em virtude da fácil identificação dos religiosos de matriz africana, através da observação elementos estéticos sacros, observando-se contas no pescoço, toços nas cabeças, contra-eguns nos braços, roupas brancas etc.  Existe uma recorrente ação de convencimento, nas ruas, baseado na ideia de que o evangelizador traz uma suposta salvação como se outro estivesse perdido em função da sua pratica religiosa, ora só existe necessidade de salvar quem está de alguma forma em eminente perigo ou perdido.


Outra maneira de ofender conceitualmente é sutil frase ‘Jesus tem um plano em sua vida’ ou ‘Jesus quer te salvar ou libertar’. Ora quem se inicia no Candomblé passa por vários processos de conhecimento de sua trajetória de vida além dos búzios revelarem constantemente informações do Orixá, Inquice ou Vodu sobre o presente passado e futuro do individuo, mesmo porque a prática do Candomblé assim como a Umbanda é um cíclico processo de auto conhecimento.


‘Jesus te ama’ Como se o receptor da mensagem estivesse de alguma forma carente deste sentimento por parte de outras pessoas ou se mesmo estivesse desprovido do sentimento de amor em si e o emissor da mensagem pudesse caridosamente lhe oferta com seu farto recurso. É bom lembrar que Yemanjá, Oxum ou mesmo Oxalá possuem em seus mitos várias passagens de reafirmação ao amor incondicional pela humanidade.


‘Você tá amarrado em nome de Jesus’, porque candomblecista ou umbandista está amarrado logicamente sabemos que é comum utilizar esta expressão para algo maléfico de natureza ruim ou demoníaca então será porque existe alguma relação entre matricialidade africana e o mal? Podemos detectar aí uma sutil relação entre intolerância religiosa e racismo.


Essas expressões recheadas de um senso superioridade com relação a matriz a africana como se a religiosidade colonizadora que veio ao Brasil pelos portugueses, mesmo está não ser originária de Portugal é posta superior, ilumina, verdadeira em detrimento da matriz africana.


O que preocupa de fato hoje são os casos que cotidianamente tomamos conhecimentos nos meio de comunicação como tratamentos discriminatórios nos comércios, ofensas gratuitas, intensa ofensa conceitual, racismo institucional de caráter religioso como projetos de leis que criam dificuldades para os atos litúrgicos, invasão e depredação a templos. Essas notícias tem se intensificado nas redes sociais, telejornais, sites em fim quase como diria como noticias sobre futebol, economia ou política,  as noticias sobre intolerância estão perto da fronteira da banalização.


Será que Bahia vai virar Faixa de Gaza?


João Borges negrosmilitantes@yahoo.com.br  élicenciado em Filosofia pela UCSal, filho de Oxalufã e membro do terreiro Casa Lage Grande


 
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