Busca:






Igor de Oliveira


A árvore que chora



   “ É o povo na arte,


    É a arte  no povo,


    E não o povo na arte,


    De quem faz arte com


    O povo.”   Chico Science e Nação Zumbi 


Está ficando claro que o principal objetivo dos governos municipal, estadual e federal em implantar um campus da UFBA na cidade de Camaçari é nada mais que qualificar mão de obra para o Pólo industrial. Não afirmo isto me baseando numa mera intuição como estudante de Ciências Sociais, ou numa tentativa desesperada em desenvolver uma teoria da conspiração sem fundamento. Mas, minha base e fonte para fazer tal afirmação, são as palavras do próprio prefeito Luis Carlos Caetano: “um dos objetivos da construção da cidade universitária é o suprimento de mão-de-obra para o pólo de Camaçari.”, esse foi seu discurso na audiência publica que discutiu o ensino superior em Camaçari, no dia 6 de abril de 2010.


Desde a década de 1970 todos os governantes que por aqui passaram, associam sua competência administrativa com crescimento econômico a partir do desenvolvimento da indústria. Com o aprofundamento do neoliberalismo no início dos anos 1990 radicalizou-se a expansão das multinacionais em Camaçari, as maiores delas foram instaladas com todas as isenções de impostos inclusive a doação de terrenos. Agora eu me pergunto devemos considerar os empregos que foram gerados para a população? Sem querer me estender para não perder o foco que ainda é o projeto UFBA em Camaçari eu mesmo respondo, devemos considerar os empregos gerados pela indústria. Mas uma coisa é fato. A vida para ser digna  precisa de muito mais que a geração de empregos nas fábricas. O trabalho do individuo deve estar associado ao mínimo de satisfação em desempenhar sua função. Nessa perspectiva só é possível estar satisfeito com sua função se houver escolha profissional. Além do discurso do prefeito citado acima, comenta-se que serão ativados cursos estritamente técnico-industrial no novo campus da UFBA. Onde está a alternativa para a juventude e para o povo? Uma Universidade deve ser implantada em Camaçari para além dos interesses das indústrias.


O campus da UFBA deve vim prá nossa cidade com um caráter correspondente as nossas necessidades e quais são essas necessidades? Acima de tudo, o de compreender, por exemplo, porque Camaçari se tornou a quarta cidade mais violenta do país, porque apenas 30% da população obtinha uma renda acima de dois salários mínimo em 2008, quando a cidade tinha o maior PIB da Bahia. É necessário compreender porque a prefeitura de Camaçari  oferece aos professores um piso salarial inferior ao de Mata de  São João, que obtém um PIB raquítico em comparação  ao nosso.  Só o que pode nos dar essa compreensão são as áreas de sociologia e economia proporcionando pesquisas cientificas sobre a nossa cidade. Compreender por exemplo, porque existe uma lacuna no turismo litorâneo, a qual começa em vilas de Abrantes e  termina na Praia do Forte ou seja, depois de Itacimirim, última praia de Camaçari, só o que pode nos dar essa resposta é o turismo associado à geografia, economia e sociologia. Precisamos compreender porque a única referência da nossa cidade em outras cidades é o pólo industrial, quando poderia ser também o samba de roda de Parafuso, essa manifestação popular tão bem sucedida em Cachoeira, Maragojipe e Santo Amaro ao ponto de grupos viverem de suas apresentações em diversas partes do país de maneira autônoma. A Marujada, a primeira vila do Brasil (Vilas de Abrantes).  O resgate, valorização e reconhecimento das tradições de nosso povo, só serão possíveis com cursos de extensão e pesquisa de Historia e Antropologia. Precisamos encontrar respostas do porque, as três maiores escolas do ensino médio de Camaçari, tiveram seus nomes presentes na lista das escolas com os resultados abaixo dos 50%  na prova do ENEM,  esse diagnostico só quem pode nos dar para encontrarmos uma solução é a Pedagogia, a Literatura e as demais áreas de educação associadas, para que a juventude de Camaçari tenha a possibilidade de ser aprovada no excludente vestibular da UFBA.


É necessário lembrar que a arte liberta, antes de tudo, de nossa própria agressividade reforçada nos centros urbanos promovida pela concorrência, preconceito, medo, insegurança e ansiedade.  Através da música, da dança, do teatro, do cinema nos tornamos mais sensíveis ao mundo, ao outro. Com a arte reduzimos a distância entre nós, quebramos o mundo das aparências, dessa sociedade dividida a todo tempo entre perdedores e vencedores, a partir dela podemos resgatar o espírito de comunidade. Nós podemos sim trabalhar na indústria, mas devemos viver na arte! Educar também é uma arte se for educar de verdade. Não podemos continuar nos dando o privilégio de acreditar que a saída para as sociedades é a tecnocracia, a indústria, a concorrência desleal e o dinheiro como um fim em si mesmo. As crises que se apresentam de maneira orquestrada na Europa e nos Estados Unidos demonstram o fracasso social do modelo econômico capitalista.


Estamos em uma nova era. Avançar significa muito mais que um progresso técnico. Significa transformar as consciências para reconhecer a beleza existente no domínio da técnica e do conhecimento, pra assim dignificar a condição humana ao invés de destruí-la em busca do lucro. Esse progresso técnico tão exaltado há 40 anos, pelos governantes dessa cidade, nada tem haver com avanço ou o novo, mas é comprometido com estado de conservação dos poderes políticos, favorecimento das multinacionais e monopólio do conhecimento que não nos levarão a lugar algum,  se continuamos a amargar os piores resultados sociais do país principalmente no setor da educação. Sendo assim a implantação da UFBA em Camaçari pode ser a saída pra uma série de problemas, mas pode ser a porta de entrada de mais um problema se a educação não for colocada como um direito da população e sim um privilégio das elites dominantes. Somos algo muito além de suprimento e mão-de-obra para o pólo de Camaçari, somos humanos demasiadamente humanos.


Como diziam grandes artistas de nossa cidade em tom de alerta:


Vejam pra onde caminha, a nossa sociedade?


Vejam pra onde caminha, a nossa liberdade?


Ela caminha para destruição por falta de cultura e educação!


Vejam pra onde caminha essa alienação????


Anemia 


Igor de Oliveira igoramadeus@hotmail.com é estudante de Ciências Sociais na UFBA, militante da APS (Ação Popular Socialista)


 
Últimas Publicações

A árvore que chora


inicio   |   quem somos   |   gente   |   cordel   |   política e políticos   |   entrevista   |   eventos & agenda cultural   |   colunistas   |   fale conosco

©2017 Todos Direitos Reservados - Camaçari Agora - Desenvolvimento: EL