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Lucas Netos


Quem é essa agora?



A sociedade brasileira, em especial a baiana, vem lutando durante muito tempo para que as nossas diferenças étnico-culturais possam conviver em harmonia dentro das esferas públicas e privadas do nosso país. Nessa luta por reconhecimento e por legitimação de nossas diferenças como sujeitos, entendemos que nessas diferenças, compomos um mosaico tão complexo que ainda não entendemos a diversidade que nos consolida como brasileiros. O Brasil ainda preserva em sua tradição cultural a característica de ser um dos países mais excludentes do mundo, tanto índio quanto negro ainda não tem o reconhecimento devido dentro das estruturas da sociedade.


A todo o momento em que um negro ou um índio estão na disputa para ocuparem um espaço de poder na sociedade, são questionados e desqualificados pela elite dominante “branca”. Este breve levantamento se faz necessário para termos fundamentação ao reivindicarmos todos os direitos sociais que nos foram usurpados, e que ainda são. Neste contexto, trazemos a baila um recorte importante da história do Brasil, no que diz respeito à participação da mulher negra na construção da nossa sociedade. As mulheres negras tiveram, e ainda tem, um papel fundamental na construção deste quebra-cabeça que se chama Brasil. Foram elas responsáveis pelo destino da “família” brasileira, além de cuidar de seus filhos, a mulher negra era cozinheira, copeira, arrumadeira, lavadeira, faxineira, engomadeira, amas-de-leite, babás etc., e passaram-se mais de cinco séculos e estas funções ainda são rotuladas como funções a serem exercidas por uma mulher negra. Mas, com toda a força e energia que tem o “povo” negro, energia esta herdada de nossos ancestrais, é que estamos conseguindo mudar, ainda de maneira muito tímida, a dura realidade em que fomos colocados.


Diante disso, é importante destacar que as lutas realizadas ao longo de todo período colonial e após a independência do Brasil foram múltiplas e necessárias para a sobrevivência de homens e mulheres negros que comporão e compõe a nossa história: fugas individuais, formação de quilombos, abortos para que as crianças não fossem submetidas á escravidão, suicídios, mentiras, sincretismo religioso e, até mesmo, assassinatos de senhores por via de envenenamento. As obras Amadianas (Jorge Amado) fazem referência, principalmente, à pobreza, visto que os pobres são os que resistiram e resistem, praticando sua cultura e resgatando práticas culturais, cultura esta que termina por “contaminar” a cultura do rico, no momento em que este pede permissão para frequentar os terreiros de candomblé e acabam por absorver os seus costumes. Desta forma, vê-se que a cultura negra está cada vez mais ganhando força, resistindo a tudo e a todos.


A mulher negra tem sido, ao longo de nossa história, a maior vítima profunda da desigualdade racial vigente em nossa sociedade. Os poucos estudos realizados revelam um dramático quadro, que se prolonga desde muitos anos. Uma dramaticidade que está não apenas nas péssimas condições socioeconômicas, produzidas por um sistema explorador, mas também na negação cotidiana da condição de ser mulher negra, através do racismo e sexismo que permeia em todos os campos de cada uma. O resultado: um sentimento de inferioridade, de incapacidade intelectual e a quase servidão vivenciados por muitas.


Desde a fundação dos primeiros Terreiros da Bahia, a figura da mulher e certa supremacia religiosa dessas senhoras não limitaram suas influências aos Terreiros, fazendo por vezes, ecoar a sua voz em lugares pouco prováveis. Com efeito, pode-se afirmar que essas Mulheres de Axé, conseguiram constituir no Brasil, sobretudo na Bahia (Salvador e Recôncavo), uma espécie de "Feminismo Nàgó", que a priori não existia na África, ao menos com a intensidade e importância com a qual foi edificada por aqui. Mantenedoras da Memória e da Tradição da Cultura e da Religiosidade Afro- Brasileira, Yalorixás, Ekédis, Ebomis, Iyaôs, Mulheres de Axé caminham na luta contra a Intolerância Religiosa, o direito humano à saúde, no combate ao Racismo e no enfrentamento à Violência contra a Mulher. É uma valorização pela história de luta, ações empreendedoras e de resistência das religiosas, fundamentais para manter viva a tradição do povo negro e das religiões de matrizes africanas.


O esforço destas lideranças para manutenção das suas comunidades frente às diversas perseguições e invisibilidade histórica das mulheres do segmento. Ela é mediadora não só das trocas de bens econômicos, como também das de bens simbólicos. O lugar social ocupado pela mulher iorubá, sem sombra de dúvidas, possibilita-lhe o exercício de um poder fundamental para vida africana consolidando o papel histórico, cultural e religioso das mulheres dentro das Comunidades do Candomblé.


Negras Mulheres


Não são poucas as mulheres negras que se destacaram e vêm se destacando na luta por direitos sociais igualitários, dentro de uma sociedade repleta de complexidades e de muitas contradições diversas representações negras femininas enegreceram e continuam a enegrecer a história deste país. Diante deste universo de figuras podemos citar a negra Zeferina, revolucionária e quilombola que muito se empenhou pela liberdade, participou de muitos movimentos que antecederam e criaram as condições históricas e materiais para o grande movimento, que foi a Revolta dos Malês da Bahia em 1835.


Outra figura importante foi Mãe Menininha do Gantois, grande responsável pela difusão e popularização do candomblé na Bahia, conseguiu agregar pessoas de todas as religiões em seu terreiro, inclusive personalidades como Dorival Caymmi, Caetano Veloso, Tom Jobim, Antônio Carlos Magalhães e Vinícius de Moraes, que só tomavam decisões importantes após consultá-la.


Não menos importante é a Mãe Stella de Oxóssi, Iya Odé Kayode. É uma das principais sacerdotisas responsáveis pela preservação da religião africana no país. Mãe Stella de Oxóssi, é responsável pelo terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, fundado em 1910 e transformado em Patrimônio Histórico Nacional. Em 2005, ao completar 80 anos, recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal da Bahia. Em 2013, foi eleita por unanimidade para a Academia de Letras da Bahia. Mãe Stella rompeu as barreiras da oralidade e passou a defender uma representação mais sintonizada com os novos tempos, conectando oralidade e manifestações letradas, pontuada pela presença em palestras e seminários e a publicação de livros, para que um maior número de pessoas possa entender a riqueza da própria herança cultural, e para que ao fim e ao cabo, os principais atores desse universo “não venham a dizer sim à própria sentença”, como bem pontua a imortal. Ou seja: a palavra é resistência.


Dento do universo jurídico, temos hoje a ilibada juíza Luislinda Valois, filha de Iansã, é conhecida em todo o mundo por ter sido a primeira magistrada afrodescendente do Brasil. Além de primeira juíza negra brasileira, Luislinda também foi a primeira a dar uma sentença tendo como base a Lei do Racismo. Foi a ação movida por Aila Maria de Jesus, que se recusou a abrir a bolsa num supermercado, depois de ter sido acusada injustamente de ter roubado um frango e um sabonete.


É uma conquista para todos aqueles que se afirmam como afro-brasileiros ou afro-descendentes saber que temos hoje a nossa ilustre Luislinda Valois, a primeira juíza negra do país e também a única a tornar-se desembargadora. A juíza Luislinda Valois, e atual desembargadora ocupou o cargo não só pelo merecimento adquirido durante muitos anos como magistrada, mas também, pela sua competência como profissional.


Conclusão


Acreditamos que as mulheres negras brasileiras encontraram seu caminho de autodeterminação política, soltaram as suas vozes, brigaram por espaço e representação e se fizeram presentes em todos os espaços de importância para o avanço da questão da mulher brasileira hoje. Foi sua temática a que mais cresceu politicamente no movimento de mulheres do Brasil, integrando, espera-se que definitivamente, a questão racial no movimento de mulheres. O que impulsiona essa luta é a crença na possibilidade de construção de um modelo civilizatório humano, fraterno e solidário, tendo como base os valores expressos pela luta anti-racista, feminista e ecológica, assumidos pelas mulheres negras de todos os continentes, pertencentes que somos à mesma comunidade de destinos. Pela construção de uma sociedade multirracial e pluricultural, onde a diferença seja vivida como equivalência e não mais como inferioridade.


Com isso, é importante ressaltar que a mulher negra protagonizou um dos papeis fundamentais na construção do nosso país desde o período colonial, agora é preciso reescrever a nossa história, e mudar significativamente o nosso presente para pensarmos um futuro menos desigual. E, para caminharmos juntos a este futuro é imprescindível que o exemplo destas mulheres sejam um referencial para sociedade afro-brasileira, sem dúvida este será um dos primeiros passos para a transformação da sociedade brasileira que precisa urgentemente livra-se dos fantasmas do racismo e do preconceito.


Lucas Netos lucasnetos@yahoo.com.br é professor da rede de educação de Camaçari. Ensina Língua Portuguesa, Língua Francesa, Língua Inglesa, Literaturas Anglófona, Francófona e Lusófona e Redação


 


 
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