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Fabão Pereira


Uma semana e vários passos atrás



Quem apostou as fichas no impeachment da presidente Dilma na expectativa de uma solução rápida e fácil para a turbulência econômica e política em curso no país, em menos de uma semana já percebeu o quanto isso está distante. O governo provisório de Michel Temer tenta se erguer em meio aos escombros da trama parlamentar, da qual ele próprio foi um dos artífices. Falta legitimidade e sobra desconfiança.


Os primeiros gestos causaram desconforto e reações contrárias, até mesmo de grupos simpáticos á manobra do Congresso para derrubada da presidente eleita. A saída de cena do Ministério da Cultura, incorporado ao MEC, talvez tenha sido a barbeiragem mais ruidosa neste inicio. O repúdio ao fim da pasta unificou artistas e produtores culturais, com destaque para os protestos espontâneos do público presente nos espetáculos país afora no fim de semana.


A composição do staff ministerial de Michel Temer demonstra a sua desatualização perante o contexto social contemporâneo, bem como o desprezo pela pauta reivindicatória das recentes mobilizações de rua. Paradoxalmente, o Brasil das mulheres cada vez mais presentes no topo organizacional das esferas pública e privada, acompanha com perplexidade a ascensão de um comando governamental cem por cento masculino, fato ocorrido pela última vez no governo do General Ernesto Geisel (1974-1979), durante a Ditadura Militar.


 Além da ausência de mulheres, o ministério de Temer é totalmente branco e contrasta com a diversidade étnica tão característica do Brasil. Atribuir esse panorama às indicações partidárias só reforça o DNA conservador da administração provisória.


Para piorar, a composição do primeiro escalão foi um balde de água fria naqueles que aguardavam de Temer uma governança de excelência, na qual o critério técnico seria preponderante para a definição dos dirigentes das pastas ministeriais. Até aqui vê se o arranjo majoritário de profissionais da velha política e a indiscreta presença de suspeitos e investigados por corrupção. Uma confissão sincera de desprezo pela questão ética tão pautada nos protestos das multidões no último período.


Em plena operação, o pacote de medidas antipovo é conduzido pelo time do presidente em exercício. Henrique Meirelles, ministro da Fazenda, prepara o ambiente para um duro ajuste fiscal, com reformas polêmicas e cortes nos investimentos públicos. O tucano Bruno Araújo, Ministro das Cidades, barrou a construção de aproximadamente 12.000 unidades habitacionais do Programa Minha Casa, Minha Vida. Romero Jucá, da pasta do Planejamento, dissimula a intenção de reduzir os programas sociais anunciando auditorias, supostamente corretivas dos programas.


Na saúde pública, já tão sucateada, o ministro Ricardo Barros, deputado do Partido Progressista, aparentemente foi escalado com a missão de eliminar o caráter universal do atendimento do SUS. Ao prevê o esgotamento do Sistema Único, o auxiliar de Temer prepara o terreno para os planos de saúde e acende os holofotes sobre a sua relação com um executivo de grupo empresarial do ramo, o qual foi o maior doador individual de sua campanha eleitoral. Um escancarado conflito entre interesses públicos e privados.


No Ministério da Justiça, Alexandre Moraes. O ex-secretário da segurança pública do governo paulista já alimentou o noticiário com pronunciamentos desastrados. Primeiro, apresentou o seu cartão de visita ao defender medidas de força contra manifestações dos movimentos sociais. Detalhe, o ministro rotula essas ações como guerrilheiras. Ele não parou por aí, foi desautorizado por Temer após avançar o sinal em uma entrevista em que sugeriu mudanças nos critérios de indicação do Procurador Geral da República.


O governo Temer tem pouquíssimo tempo para se afirmar e cultivar alguma aprovação popular. Passou sua primeira semana alvejado por críticas nas redes sociais, contestado e constrangido no exterior por celebridades, governos e meios de comunicação. A seu favor jogam os tubarões da mídia nacional, fundamentais na incitação dos protestos pela derrocada do governo Dilma. Porém, essa mesma mídia cobrará uma recompensa proporcional ao apoio dado ao golpe frio.


Eis o dilema elementar para o governo transitório. Não há como atender os financiadores do conluio parlamentar, forças do mercado financeiro, empresários, oligopólio de mídia e partidos políticos e ao mesmo tempo contemplar os anseios das massas sedentas por melhorias objetivas nas condições de vida, num cenário econômico recessivo, com aumento do desemprego, inflação alta e a consequente redução do poder aquisitivo.


Para um projeto político empurrado no planalto pela janela, não haverá tolerância. Sem a chancela das urnas, as iniciativas impopulares sofrerão constante combate das ruas, tanto dos frustrados entusiastas do impeachment, quanto dos opositores orgânicos do governo peemedebista. A primeira semana não deixa dúvidas sobre os compromissos e os limites do governo postiço em andamento no Brasil.Sobram motivos para “Temer” o que vem por aí. Aos brasileiros resta lutar.


Fabio Pereira ofabiopereira@hotmail.com é jornalista, dirigente do PT e ex-secretário de cidadania e inclusão de Camaçari


 
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