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Joélio Santos


Crianças Cabeludas: uma resistência viva em Camaçari.



Quem já ouviu e prestou atenção na música “Brejo da Cruz” de Chico Buarque? Será que existe um brejo em Camaçari? Pois é, caros leitores! Domingo passado visitei a feijoada do Projeto “Crianças Cabeludas”, projeto este, encabeçado pelo Projeto Porto da Barra, na figura de Caio Cultura, o “Profº Crente”, como o conhecemos na capoeira. Fui à feijoada não só para me fartar do delicioso tempero da mãe de Bigode, um dos integrantes do “Crianças Cabeludas”, mas, também, alimentar-me de esperanças e edificar a certeza dentro de mim, de que há sim, pessoas que também, como eu, acreditam em projetos sociais com responsabilidade, pois eles existem e fazem a diferença na vida de crianças e adolescentes, como as de “Brejo da Cruz” e do “Crianças Cabeludas”.


Agora o que tem a ver a canção “Brejo da Cruz”, com Camaçari, ou com o “Crianças Cabeludas”? Sei que você leitor, está ansioso para saber! Mas, e se eu disser que tem tudo a ver? É claro que não vou deixá-los na curiosidade. Quero dizer que vejo o bairro do Parque das Magabas, em Camaçari, nas palavras da canção de Chico, pois lá você pode encontrar o pai de Camisa 7, levantando as paredes da sede dos “Crianças Cabeludas”, enquanto o seu filho está na Espanha sonhando em um dia poder voltar com os olhos cheios de esperanças e com a certeza de que vai mudar a realidade de sua localidade natal, independentemente dos prédios amarelo-ouro que hajam pela redondeza, sem se importar com o brejo. Vai sim dar valor ao projeto que o impulsionou a alçar voos mais altos do que os que ele imaginava.


O grupo se utiliza  do “Mutirão”, prática esta que já fez surgir muitas comunidades em Camaçari e em vários lugares nesse, segundo o mestre Bule-Bule, “mundão velho cheio de ladeira e buracos”. Pois é, caros leitores, o grupo promoveu a feijoada com o objetivo de angariar fundos para edificar sua sede, pois lá será a sua tão sonhada casa, mais uma filial do Projeto Porto da Barra. Vale à pena enfatizar neste artigo, que o Grupo vem na resistência pela sobrevivência, há tempos, e como somos brasileiros e nordestinos, não desistimos jamais.


Pois bem, vamos adiante. Temos a certeza de que as conquista mais sofridas são aquelas que travamos com muita garra. Mas espera aí, caros leitores: estamos em Camaçari! Será que seria demais apelar para o governo? Seria demais, pelo menos uma caçamba de areia, ou outra de gravilhão, ou outra de arenoso, e quem sabe se sobrassem alguns trocados, mais alguns sacos de cimento? Será que os nossos administradores, (de nossos impostos), nessa terra onde derrama leite e mel, estão usando, segundo Raul Seixas, “óculos no escuro”?


Então, com certeza, perderam a noção do efeito positivo que um trabalho como o “Crianças Cabeludas” está causando na vida da comunidade das Mangabas! Gente, estou falando de crianças e adolescentes que, a partir dessas ações desenvolvidas nesta comunidade, voltaram a sonhar; e resgataram a perspectiva de futuro, que antes era pouca, ou quem sabe, quase nenhuma. Estou falando é da emoção que passou a mãe de Camisa 7, ao tentar agradecer ao Profº Crente por tudo que vem fazendo pelo seu filho e de toda a comunidade, e não conseguiu, porque o nó, veio-lhe a garganta, bem como as lágrimas à face. Estou falando é do profº Crente e da Profª Guerreira tentando fazer com que esses meninos não se percam em meio às drogas. Estou falando é de educação, a partir de ações que resgatam a autoestima, bem como a vontade de sonhar.


Pois é, leitores... sonhar... Será que você conseguiria sonhar sabendo que seu filho está às margens de uma sociedade que se enjaula em seus condomínios de luxo, ao lado de uma comunidade à mercê da violência e da droga, e não fazer nada? Simplesmente dormir e pronto? Pois é caros leitores, o menino Camisa 7, está agora na Espanha. Graças ao Projeto “Crianças Cabeludas”, na figura do Profº Crente que vem desenvolvendo esse belo trabalho e acreditando que essas crianças ainda podem brilhar.


Portanto Profº Crente, concluo, mas com um nó na garganta e uma lágrima solitária no rosto. Mas acredite que ninguém apaga o brilho de ninguém, porque o cometa quando passa, faz com que todas as estrelas a sua volta brilhem, mas tenha a certeza de que quando este cometa passar, somente as estrelas que tem brilho próprio, irá brilhar, e tenha ainda, mais uma certeza em sua caminhada; você jamais precisará de cometa (clarão de pessoas medíocres a sua volta) para brilhar, pois o que você faz, já tem seu brilho próprio. A resistência está naqueles que acreditam que o sonho é só um lapso de tempo, até que o despertar deste sonho, nos leve a uma realidade em comunidade.


 Joélio Santos  joelio.santos@cidadedosaber.org.br  é compositor, professor de música e escritor. Formado em composição pela Escola de música da UFBA, é coordenador do projeto de música nas escolas municipais e membro da Câmara Setorial do Conselho Municipal de Cultura, em Camaçari-BA.


 
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