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Rogaciano Medeiros


O mercado de chuteira



A nação ainda lamenta a desclassificação da Seleção Brasileira. Realmente, foi triste, mas nada demais. Ninguém é imbatível, principalmente no esporte. O futebol, inclusive, é a modalidade que mais prega surpresas.
A mídia, por motivos diversos, especialmente de caixa, exagerou o máximo que pôde para faturar audiência com a eliminação do Brasil da Copa do Mundo da África do Sul. E ainda mantém a ladainha, estimulando todo tipo de revolta e ódio no torcedor contra os jogadores e, acima da tudo, a comissão técnica.
O maior alvo, evidentemente, é o ex-treinador Dunga, aliás, precipitadamente demitido pelo presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), Ricardo Teixeira. Independentemente de a demissão ser merecida ou não, o momento da efetivação só faz atiçar raiva e estimular a eleição de culpados. Qualquer pessoa que analise a desclassificação com racionalidade sabe que o fracasso se deve a um conjunto de fatores.
A bem da verdade, é fundamental destacar que, apesar da teimosia e do jeitão zangado, Dunga manteve uma coerência dentro do que se propôs fazer. E se atraiu a raiva da mídia, é porque cortou os privilégios das grandes redes de comunicação, em particular a Rede Globo. Pôs fim ao tráfico de influência dos veículos mais poderosos, e terminou por ajudar a luta pela democratização dos meios de comunicação. Se foi competente ou não, vencedor ou fracassado, é outra questão.
O grande problema é que, por interesses meramente financeiros, a Seleção Brasileira se transformou em instrumento de lucro para uma infinidade de segmentos da economia. O Mundial e o chamado Escrete Canarinho são motivos para se vender de tudo, desde cervejas e tiragostos em barzinhos que se organizam para transmitir os jogos, à indústria têxtil que despacha camisas a rodo, os produtores de bugingangas, o setor de eletroeletrônicos, o mercado imobiliário e até o sistema financeiro, entre muitos outros. O ambiente da Copa favorece todo tipo de transação.
A Copa do Mundo, da forma como tem sido tratada no Brasil, é o maior incentivador do consumo. O objetivo maior é maximizar os negócios. E neste cenário não é permitido ficar no meio do caminho. É imperioso chegar à finalíssima. Se for campeão, melhor, mas sair antes é prejuízo para todo mundo. Como chorou a imprensa, a eliminação causou prejuízo de, por baixo, R$ 80 milhões. Daí esse estado de histeria coletiva pela eliminação nas quartas-de-final, como se o mundo tivesse acabado para os brasileiros.
O grande Nelson Rodrigues disse certa vez que o Brasil era a Pátria de Chuteira. Felizmente, não viveu para ver que transformaram a Seleção Brasileira no mercado de chuteira, em um jogo desleal no qual do pescoço para baixo é tudo canela e vale qualquer coisa para faturar mais.

* Rogaciano Medeiros é jornalista e coordenador de Comunicação da Prefeitura de Camaçari

 
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