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Valber Carvalho


Capoeira no Palácio



Um hotel - por mais faustoso que seja - não pode se tornar o destino de um palácio que encarna parte da história de uma cidade e de um estado como a Bahia. Naquelas paredes que o gênio político de Octavio Mangabeira transformou em local de peregrinação semanal do povo baiano, 300, 400 e até 500 cidadãos "pés-rapados" iam todas as quintas-feiras reclamar seus infortúnios e insatisfações, em audiências públicas celebrizadas na história de nossa democracia, tendo a certeza que o olhar e o ouvido do governante maior permaneceriam inarredáveis até que o último cidadão se retirasse do salão.


É muito tolo pensar que a melhor maneira de preservar um monumento histórico é entregá-lo para ser restaurado por interesses privados e depois servir de usufruto para poucas centenas de hóspedes endinheirados, e passar a servir apenas como objeto de contemplação exterior, uma espécie de bunker eternamente inacessível ao povo da terra.


É chegada a hora de se produzir um choque cultural. Salvador precisa realmente de mais um hotel, o terceiro de grande porte numa mesma rua do nosso combalido centro antigo? Hoje, são poucas as atrações culturais singulares que a cidade têm a oferecer ao turista. Em poucos dias é possível visitar tudo o que há de realmente único e que desperta o interesse de quem nos visita. Por essa lógica, que é da cultura e também do “negócio turismo”, precisamos de mais atrativos culturais, do que de quartos de hotel no centro da cidade.


Mas, qual é hoje o produto de exportação cultural da Bahia que desperta interesse crescente no mundo? As baianas? O acarajé? A música? O carnaval? Não, senhoras e senhores! A expressão cultural da Bahia que hoje corre os quatro cantos do mundo chama-se CAPOEIRA. Por causa dela, todos os anos, milhares de alunos e praticantes dessa luta-dança-estilo de vida, vêm visitar nossa cidade, reverenciada como a meca da capoeira, o local sagrado da raiz, onde tudo começou.


Salvador precisa de um Museu da Capoeira que atraia a atenção de todo o mundo. O que poderemos oferecer nesse combo cultural de negócio e cultura? Exibir a história da capoeira e seus heróis populares num ambiente de um palácio como o Rio Branco. Essa corajosa decisão de afirmação cultural produziria um choque civilizatório semelhante ao da colocação da pirâmide de vidro na entrada do Louvre em Paris.


Dentro dos belos salões palacianos, ao invés de estátuas de decoração em poses contemplativas, a Bahia orgulhosa exibirá ao mundo, fotos, textos, sons e esculturas em gesso, em cera, em metal ou até mesmo em fibra, de Mestre Pastinha, Mestre Bimba, João Grande, João Pequeno, Besouro, Canjiquinha e tantos outros, como artistas do movimento e retratados nas poses de seus mais fantásticos e lendários golpes. Eternizados, lindos, plenos, uma clara demonstração que um governante pode se imortalizar produzindo um organismo cultural vivo e moderno. Foi isso que o governador ACM fez na década de 1990, ao revitalizar o Pelourinho. E é essa percepção que se espera do atual governador Rui Costa.


O case do Palácio Rio Branco é um divisor de águas: ao invés de capacitar a nossa mão de obra para servir aos que aqui chegam, vamos inverter o eixo, colocando a arte nascida na senzala dentro do palácio. Seria muito pedir ao governante, reconhecer que a Bahia entende e valoriza essa arte popular que o povo criou e gente de todos os continentes reverencia? Não faltará dinheiro para realizar. O mundo terá todo o interesse.


Valber Carvalho valbercarvalho@gmail.com é jornalista formado pela UFBA, diretor de documentários para TV, repórter das TVs Manchete, CNT, Cultura e TVE-Bahia. Atualmente  finaliza uma pesquisa sobre a vida de Irmã Dulce, que vai virar livro. Também escrecve e apresenta o programa Bahia Rural, exibido aos domingo na TV Bahia


 
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