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Pablício Jorge


Breve relato de uma banda que completa 12 anos



No ano de 1998, estava caminhado pelos corredores da universidade de Feira, a Uefs, quando fui abordado por Paulo de Tarso, Kleber Monteiro e Isac Afonso (estes elementos tinham acabado uma banda da qual faziam parte - a Belzeblues - e estavam montando outro projeto musical).
Eu me dirigia à biblioteca para devolver um livro (cursava geografia e era metido a militante politico de movimento estudantil - D.A. e D.C.E. - junto aos supra citados), quando esses elementos me gritam bem no meio da cantina do módulo 3, me chamando pra terminar uma letra de música que haviam começado.
Disse que não poderia naquele momento e continuei andando... enfatizaram outro grito com a seguinte pergunta: "Não quer ficar rico nããããoooo?" Ahhhh, na mesma hora eu dei meia volta e sentei à mesa para terminar a tal letra; eis que nascia " O homem com passos prateados"... me ludibriaram com aquela pergunta, aquele chamado e até hoje estou atrás do ouro do bandido.
Mais tarde Paulo me diria que estariam participando de um festival em Vitória da Conquista com uma música que era do antigo repertório deles - "Barfly". Inscreveriam uma só canção? perguntei. E ele me disse que poderiam colocar mais uma. Aí, como de bincadeira, sugeri gravarmos com minha voz "O homem com passos prateados". Ele me olhou espantado, como quem não acreditava no que ouvia e na mesma hora aceitou. Eu disse que era brincadeira o que tinha falado. Mas ele insitiu pr'eu fazer agravação e foi o que acabou acontecendo. Gravamos e mandamos as duas músicas pro festival. As benditas gravações não passaram pela curadoria... mas ali começava, meio que desprentesioso o Clube de Patifes. Antes dessa minha entrada pro Clube, tinha uma amigo nosso que seria o vocalista. Um cara conhecedor de música pra caralho, que eu respeito muito, que é o Gilmar Fufuta. Mas sempre que eu perguntava a Paulinho pelo ensaios, como estavam indo, ele me dizia que não tinha rolado direito pois Fufuta não tinha ido ensaiar, por esse ou por aquele motivo. Acabou não ficando no projeto.
Mais pra frente, veio a idéia de colocar dois vocalistas - um era João, grande músico das noites de barzinhos, e quem gravou a versão de barfly para o festival. E o outro cara??? seriaaaa??? adivinha??? quem? quem? Raimundo Nonato? não... eu, o mesminho aqui que fala com vocês. João era um exelente cantor, afinado, com postura... isso tudo era o que me contavam do cara.
No primeiro ensaio com ele fiquei nervoso - pow, vou ficar de cara com cara... o bicho canta muito e eu um méro colega de faculdade de Paulo que nunca pegou num microfone - eu tinha uma vergonha de aparecer em público, que não sabia como estava ali para ser um crooner de uma banda... mas estava (acho que foi o movimento estudantil que acabára de tracafiar o resto da timidez que eu carregava). Rolou o ensaio, tudo dentro da normalidade esperada... e o tempo foi passando e em uma das conversas com Paulo na Uefs, cheguei pra ele e disse: "Bicho, eu num quero esse lance de dois vocalistas não... tem que ser um só... e eu quero ser o vocalista". Mais uma vez Paulo me olhou, parou, pensou - ele pensa muito mesmo - e deu um sorriso daqueles que o lobo, nosso mascote, tem. Me respondeu mais ou menos assim: "Ahhhh, pensei que nunca você fosse dizer isso!!!" e caímos na gargalhada.
Depois das aulas - coisas que assistíamos mesmo - fomos para o módulo 7, beber umas cervejas. Não, não, na universidade não... o módulo 7, era uma barraquinha que existia ao lado da universidade. Muita cerveja rolava, muito rock n' roll, muitas conversas filosóficas com Valter e Ismar - quem viveu sabe o que estou dizendo. Ganhou o nome de módulo 7, pois a Uefs só tinha 6 módulos na época... como era a extensão com universidade, a comunidade o batizou com esse nome. Enfim, estava definitivamente criado o Clube de Patifes no ano de 1998.
O nome? por que Clube de Patifes? Ahhh... A gente era do movimento estudantil, e estavamos muito ligados ao cenário político que nos cercava - não que hoje não estejamos, mas eramos mais engajados - e os tais safados, faziam e aconteciam em cima do povo - até hoje ainda o fazem - daí surgiu a idéia num bate papo... que esses caras eram uns patifes, uma corja, um clube de pilantras... então veio o estalo. Pow galera, taí o nome: CLUBE DE PATIFES!!! Achamos um ótimo nome, pois além de tudo isso que falei, ainda era polêmico e referia-se também ao malandro da noite, o cara safo, o cara que conseguia se sair de situações extremamente avessas a ele, um caçador, um bom patife. Como eramos quatro, por que não um clube? Um CLUBE DE PATIFES.
Logo começaram a aparecer convites para festinhas e showzinhos. E no dia 11 de novembro de 1998, fizemos o nosso primeiro show. Foi numa festa do curso de administração. Nosso repertório era reduzidíssimo... tinham apenas 7 músicas pra apresentar. Parecia conta de mentiroso, mas foi verdade. Lembro das meninas, umas amigas nossas - Andréa, Agda e Taís - com cartazes e faixas (rsrsrs) na frente do palco gritando nome da gente. Claro, eram nossas amigas, e não pagamos a ninguém não. Fiquei com uma vergonha danada, mas foi massa esse começo. E quando olho pra trás e lembro... num dá saudade não, mas é bom saber como não fazer umas coisas rsrsrsrs. Por isso dia 11/11 foi escolhido como a data do aniversário do Clube.
Uma semana depois, tocaríamos na Visgueira do Reggae, um dos redutos do reggae de Feira de Santana, a casa da Monte Zion. Rapá, não tinhamos nem o figurino certinho. Era uma peça dali, outra daqui e iamos montado as coisas. Lembro que toquei com uma camisa quadriculada marrom, que era uma coisa feia demais... calça jeans, vixe!!! Naquele momento eu tava me sentindo o gato de botas... ééééé, tinha também umas botas, que vieram da minha herança forrosística - e essa é uma outra estória. O show? vou dizer a vcs que aconteceu com as mesmas 7 músicas, mas já foi mais a vontade que o primeiro, apesar de uns olhares hostís que nos flechavam, rsrsrsrs.
Então vimos a necessidade de montarmos um show com um repertório mais amplo - pois tinhamos composições para isso, e dar continuidade ao que foi iniciado. Antes, partimos para fazermos umas gravações. Um amigo nosso, um grande rockeiro das antigas de Feira, tinha um estúdio de gravação chamado San Cléa na Av. Maria Quitéria. Seu nome era Cleilson. Combinamos tudo, marcamos a data para começarmos, valores e caímos pra dentro. Gravamos o que chamamos depois de uma demo com 13 faixas - faixas essas que em 2001 seriam regravadas novamente e comporiam o nosso primeiro albúm "Do palco ao balcão".
Cleilson foi um cara que me deu força pra continuar como vocal - coisa que em alguns momentos pensei em desistir - mas esse cara foi uma das pessoas que me incentivaram. Cleilson era tão rockeiro, que morreu num acidente de carro numa madrugada, no anel da morte, rotatória da Cidade Nova, a bordo do seu gol Rolling Stones vermelho (uma série especial que a VW lançou em homenagem a segunda passagem dos Stones no Brasil em 1998). Inclusive teremos uma música no terceiro disco do Clube de Patifes dedicada a ele, chamada 02 de novembro.
Montamos o show de estréia para Feira de Santana no ano de 1999 no Centro Universitário de Cultura e Arte - o CUCA - que é um complexo ligado a Uefs, que vez ou outra nos dava um certo apoio nessas questões de eventos. A galera compareceu em peso, a arena estava repleta de amigos. Rolou muito whisky no camarim... tava me identificando muito com tudo aquilo. A banda tava ensaiada e o nosso repertório subiu de 7 para 15 músicas. Dentre as nossas canções, tinham alguma coisa de Raulzito também. A gente desde o começo preza muito pela composição, pelo autoral e desde 98, nosso repertório é formado por mais de 90% de canções da banda. Feira de Santana acabava de conhecer o Clube de Patifes.
Tocamos muito em Feira, principalmente na universidade, nas calouradas. Os bares da cidade também abriram as portas pra gente. O Jeca Total nem se fala... era pra beber e pra tocar. Sempre que tocavamos no Jeca, e me dirigia ao balcão depois do show para pegar uma cerveja, Eudes me dizia que já tinha acabado. "Como assim acabado? eu perguntava. É, beberam tudo, só tem quente, vai? Eudes dizia". Me dá um Domecq então. E ficava com a cara no chão... doido pra molhar o bico com uma gelada. Só nos restava ir para o bar mais próximo.
O antigo Bavária, nos concedeu oportunidades de nos apresentarmos por lá algumas vezes. Era um bar renomado na city e a gente aparecia bem, pois estávamos ao lado de nomes que movimentavam a noite feirense musicalmente. Foi muito importante pra gente. Feira já percebia que o profissionalismo era buscado também por uma banda de rock... han han, quer dizer, blues rock.
Mas tinha um bar, que já fechou até, que não esqueceremos. O Boca do Caranguejo. Lá comemoramos nosso primeiro ano de banda. Foi nossa primeira grande super produção. Som, luzes, seguranças, divulgação pesada, e ajuda de muitos parceiros. Era um bar relativamente grande, comparado aos demais da Av. Getúlio vargas - onde a noite musical feirense era concentrada. Convidamos a banda Aluga-se (cover de Raul Seixas) para abrir o show. Foi um sucesso. Compareceram ao nosso chamado quase 400 pessoas... o dono do bar, Diógenes, ficou com um sorriso de orelha a orelha. Entravamos de vez na cena musical de Feira e os shows foram acontecendo aqui, ali e nas redondezas.
Agora, sem dúvida que uma de nossas maiores experiências, foi fazermos duas temporadas num dos bares mais emblemáticos de Salvador: O Café Callypso, do grande brother, o francês Jean Claude. Tocamos lá em 99 e 2000. E ele, Jean, nos indagava sempre: "Vocês são malucos? Pois saem de Feira de Santana, no interior, vem pra capital, tocar num bar onde rola Dr. Cascadura, The Dead Bills, King Cobra (grandes bandas diga-se de passagem) fazer suas músicas sem nenhum cover?... vcs são loucos, ele dizia, mas gosto de vcs!!!" E assim foram as duas temporadas. Começamos em 99 nas quartas feiras. Era uma mão de obra danada ir pra Salvador na quarta. Mas encarávamos a BR-324 e cumpríamos o nosso prazeroso ofício. Em uma dessas idas para o Callypso nas quartas - que não eram tão cheias assim - estava chovendo pra caralho em Feira, estávamos sem a grana pra viajar, sem perspectivas de transporte alguma e já eram umas 20h - nossos shows começavam lá às 23h - e nos encontrávamos parados na Getúlio. Ligamos pro Jean, na expectativa d'ele dizer que não rolaria o show por conta da chuva e de ainda ter jogo da seleção no mesmo horário... sabíamos que não daria muita gente no bar. Eis que ele atende o telefone, perguntando se já estavamos chegando á Salvador. Estava chovendo muito em Salvador, mas que iria ter show sim. Olhamos um para o outro e sem um centavo, pegamos um táxi que estava solitariamente parado logo a frente. O nome do motorista era Léo... perguntou se eramos uma banda e pra onde íamos. Depois de convencermos Léo, pegamos a estrada. Ele nos esperaria tocar, para em seguida nos trazer de volta. No caminho conversando sobre música - coisa da qual Léo gostava muito - nos perguntou qual música de Raul estava em nosso repertório. No momento não tinha nenhuma... e ele sugeriu a música "Você," que está no disco "O dia em que a terra parou"... ouvi aquilo e guardei no HD. Chegamos em Salvador, fizemos nosso show, a casa não estava cheia, apenas algumas mesas. Músicos do bar subiam e desciam as escadas, esses não pagavam couvert. Martin - hoje Pitty - era um dos frequentadores, músicos da casa e parceiro de biritas. Martin quase gravou "Alma Suja", música do nosso primeiro disco... nem sei por q não rolou, vá saber.
Quando fomos acertar a grana da noite, com a qual pagaríamos o Táxi de Léo, Jean Claude todo envergonhado, chega pra gente e diz: " Olha gente, depois de cobrar o consumo de vocês da noite e depois dos couvert's liberados, fico constrangido em dizer, mas o que restou dessa noite foi... e ele coloca sobre o balcão do bar - que por sinal era um belo balcão pintado como as teclas de um piano - uma moeda de 1 real. Ouvi nitidamente o estalo da moeda contra o balcão. Na mesma hora pedi uma cerveja. Olhei pra Paulo e perguntei como resolveríamos em Feira esse problema? Lá a gente vê isso, disse Paulo. Antes de sairmos, Jean coloca no bolso da camisa de Paulo uma ajuda pra gasolina.
Chegando em Feira, Paulo coloca a mão no bolso e lembra da ajuda de Jean... achamos q seria coisa pouca... mas foi a conta exata para pagarmos o Táxi de Léo. O valor não vem ao caso. Muitas dessas noites de quarta o Clube de Patifes dividiu o palco com Os Koiotes - banda de Miguel Cordeiro, o cara que escreveu Sinca Cachambord do Camisa de Vênus.
No ano de 2000, passamos para as sextas feiras. A coisa deu uma melhorada significativa . Dividíamos as sextas, alternando semanalmente a abertura com uma banda de blues chamada Bond Blues, do nosso querido amigo Fred Barreto - que foi quem gravou as guitarras do disco "Do palco ao balcão". Mas nem tudo eram flores. Eles tinham um vocalista, daqueles ortodoxos, que achava que o blues deve ser tocado em inglês e nunca em outra lingua. Em uma dessas noites, esse cara chamado Mauro, começou a contar fragmentos da história do blues nos intervalos entre uma música e outra.
Começamos a perceber que aquilo estava sendo direcionado para o Clube de Patifes - pois fazíamos blues em português - e o cara começou fazer um especie de sabatina com a plateia e de repente ele canta Rebel Dog Blues - que é uma versão que Nasi e os irmão do blues fazem. Essa música começa em inglês e termina traduzindo para o português tudo o havia sido dito no começo. Mal sabia ele que Nasi era uma espécie de bíblia pra gente. Ficamos putos com tudo aquilo e queríamos dar uma resposta. Assim que ele terminou o show, desceu as escadarias do Callypso e não ficou pra ver nossa resposta. Lembro que antes de comerçarmos "So no topo" falei algo assim: "E essa música que faremos chama-se Sol no topo e vamos fazer "now"; e pra quem não sabe, "now" é agora!!!" rsrsrsrsrs.... a galera da banda se acabou de rir. E durante o solo, comecei a esbravejar improvisando uma letra dizendo: "Eu canto blues em português, eu canto blues em português" e ainda citei o mestre Raulzito, onde ele diz : "não importa o sotaque e sim o jeito de fazer"... mas Mauro já havia descido. Devem ter passado o recado pra ele... era a última sexta da temporada e nunca mais soube noticias desse cara.
Outra coisa que me lembro desses 12 anos, foi quando... ahhh, deixa pra próxima postagem!!!
Parabéns pro Clube e pr'aqueles que fazem valer a pena tudo isso pra gente!!!

Pablício Pablues, diretor da Cooperarock (Associação das bandas de rock de Camaçari) e membro do Capivara Coletivo Cultural.

 
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