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Marcio Marcos


Camaçari X Sociedade consumista



Há algum tempo fui convidado pelo criador desse espaço, um jornalista de longa atuação em Camaçari, para escrever crônicas sobre a nossa cidade.


Confesso que previ os efeitos colaterais que sofreria, mas aceitei a missão com prazer após vê-lo insistir afirmando que tinha muito a dizer aos nossos cidadãos, coisa que até hoje reluto em concordar.


Recentemente a cidade ganhou uma filial da rede de lojas Americanas. A inauguração teve ares de acontecimento inesperado e espetacular. Carros de som anunciando o evento nas ruas, panfletagens, muitos comentários boca a boca. No dia marcado, o de sempre: loja cheia, consumidores se acotovelando na disputa pelas ofertas e muito, muito cansaço. Agora a minha pergunta: por que não a instalaram aqui antes?


 Nasci nesta cidade no quase longínquo ano de 1973 e acompanhei o “desenvolvimento” dela ao longo desse tempo. Posso afirmar que deixamos de ser os caipiras tão discriminados pelos soberbos soteropolitanos em meados da década de 1980. Asseguro que uma loja dessa rede poderia ter se instalado aqui a partir de 1986 e teria seu retorno lucrativo garantido.


 Cresci como qualquer camaçariense, sempre fazendo o intercâmbio entre nossa cidade e Salvador, a capital baiana está nas minhas mais remotas lembranças da infância. Sempre reconheci o papel que a economia de Camaçari tinha na de Salvador, já que os cidadãos daqui consumiam no comércio de lá, mas me entristecia com o preconceito. Perdi a conta de quantos soteropolitanos me perguntaram se Camaçari tinha ruas asfaltadas, linhas telefônicas, televisores, etc. Para os habitantes da Capital éramos hominídeos ainda vivendo no Neolítico.


Quando entrei para o extinto CEFET (agora IFBA) em 2001, um solícito colega soteropolitano me levou até o laboratório de informática e me apresentou os computadores perguntando se eu já tinha visto um, mal sabendo ele que possuo um curso do SENAI (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) na área e os desmonto, substituo peças defeituosas, remonto e reinstalo toda semana, esse é o meu trabalho.


Ainda adolescente, nos idos das décadas de 1980/1990, tomava uma das dezenas de linhas de ônibus disponíveis e ia até os shoppings centers de Salvador para conferir os lançamentos do cinema e várias vezes vi jovens acotovelando-se na fila do extinto Cine Camaçari (aquele que fica em frente à estação ferroviária e hoje está entregue ao abandono pelos dirigentes públicos mesmo sendo um patrimônio histórico camaçariense) para uma sessão de um título cinematográfico já fora de cartaz nas capitais brasileiras. Mesmo naquela época, afirmo que tínhamos público consumidor para gerar lucros às grandes redes de cinema e hoje poderíamos até receber os complexos “multiplex”, aqueles que disponibilizam várias salas exibindo diferentes lançamentos simultaneamente.


Perdi a conta de quantas vezes, ainda criança, ajudei minha mãe e as amigas dela a carregar compras feitas na Avenida Sete de Setembro e Rua Chile e também a embarcar os pacotes em táxis e nos bagageiros dos ônibus de volta à Camaçari. Tudo isso porque elas tinham dinheiro para consumir e nenhuma opção na própria cidade para empregá-lo.


Agora, depois de décadas de ignorância e preconceito, vejo filiais das grandes redes de lojas se instalando na nossa amada cidade e estão sempre cheias. Por que não nos notaram antes? Qual o motivo das Lojas Americanas, Atakarejo, GBarbosa, Papel e Cia. Le Biscuit, Marisa, C & A, Riachuelo, Ricardo Eletro, Borges Calçados, Casas Bahia, Lojas Guaibim e tantas outras terem nos ignorado por tanto tempo? Sendo que a maioria citada ainda mantém essa prática.


Até quando os preconceituosos empresários soteropolitanos perderão expansão e faturamento nos enxergando com desdém?


Marcio Marcos Oliveira da Silva
E-mail: duploeme@hotmail.com


 
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