Terra diversidade e resistência
Terra da diversidade e resistência – Camaçari faz parte da independência. Esse tema nos remete à força histórica de Camaçari e ao papel fundamental que o município desempenhou no processo de lutas pela consolidação da Independência do Brasil na Bahia.
Camaçari busca celebrar a Independência do Brasil e a diversidade étnica e cultural do seu povo com seu território integrado à rota do Fogo Simbólico do Dois de Julho, desde 2023, com 468 anos de fundação e 268 de emancipação política a serem respectivamente efetivados em 29 de maio e 28 de setembro de 2026. O Fogo Simbólico segue aliando história, ancestralidade indígena, lusitana e afro-brasileira. O Recôncavo Norte da Bahia celebra a união dos povos, mas sobretudo a força, a coragem e a resistência do seu povo na construção da liberdade do Brasil.
A independência foi conquistada com muita luta, sangue, suor e lágrimas; ela não se limitou a um ato político isolado como o famoso Grito do Ipiranga de 7 de setembro de 1822. Camaçari atuou nesse processo representada pela pequena elite dos senhores de terras e engenhos do seu território cuja sede administrativa era na Vila da Nova Abrantes do Espírito Santo.
Os mandatários da vila que se destacaram nessa guerra foram o quartel-mestre da Vila de Abrantes, Antônio de Souza Guimarães; o sargento-mor do Batalhão da Torre de Garcia D’Ávila, Antônio Rodrigues de Carvalho proprietário da Fazenda Tororó em Monte Gordo; o capitão João Ferreira Lustosa; proprietário de fazenda e terras em Monte Gordo e Luís da Costa Guimarães, proprietário do engenho Olhos D’Água e da Fazenda Camassary, em Camaçari, e dos engenhos Novo Cotegipe e Água Comprida em São Miguel de Cotegipe (Simões Filho).
Apesar da atuação dos senhores de terras, a emancipação política do Brasil se deu à custa do derramamento do sangue indígena, africano, afro-brasileiro, de brancos pobres e dos seguimentos mestiços da população baiana.
A tropa dos patriotas, que incorporava os moradores da Vila de Abrantes, era formada pela milícia da Casa da Torre de Garcia D’Ávila composta de um “batalhão”, que era uma massa heterogênea de milicianos voluntários. Muitos desses combatentes espontâneos eram gente oriunda das terras remanescentes dos antigos aldeamentos indígenas da região, a exemplo dos moradores de São Miguel de Cotegipe, Ipitanga, Abrantes, Jauá, Camaçari, Piranema, Feira do Capuame (Dias D’Ávila), Arembepe, Barra do Jacuípe, Barra do Pojuca, Monte Gordo, Mata de São João e de Tatuapara, popularmente conhecida como Açu da Torre.
A tropa dos patriotas da Casa da Torre também abrigava intelectuais, a exemplo de Miguel Calmon du Pin e Almeida, que se tornaria o Marquês de Abrantes e do “pardo” Ladislau dos Santos Titara, natural da Feira do Capuame. Titara é autor dos livros Memórias do grande Exército Libertador e Paraguassu: uma epopeia da guerra da Independência na Bahia e da letra do Hino ao Dois de Julho que, 186 anos depois, foi instituído como hino oficial do Estado da Bahia através da Lei Estadual nº 11.901 de 20 de abril de 2010. Da mesma forma muitas mulheres atuaram nessa peleja tal como Rosa Ladislau de Figueiredo e Mello, filha do latifundiário e boticário do Hospital Militar de Salvador, João Ladislau de Figueiredo e Mello. Ele era pai de quatro mulheres, Ana, Rosa, Virginia e Joana, e três de suas filhas, Joana, Rosa e Ana, se tornaram, em 1811, as primeiras farmacêuticas diplomadas no Brasil.
Rosa Ladislau de Figueiredo e Mello atuou como boticária junto com seu pai. O Engenho Cagi, que era propriedade da sua família, no período da guerra serviu como uma espécie de hospital de campanha e ponto de descanso das tropas da patriota Brigada da Esquerda em Ipitanga. Rosa Ladislau se tornou madrinha de Januária Constança Labatut, filha do militar e mercenário francês Pierre Labatut, e de Laura Cipriano Barata, filha do médico e jornalista Cipriano José Barata de Almeida, um dos baluartes da independência e proprietário do Engenho Solidão, na Vila de Abrantes.
Rosa Ladislau de Figueiredo e Mello se tornou a farmacêutica responsável pelo laboratório de seu pai e pela emissão de receitas da sua botica. Solteirona, ela se tornou herdeira e administradora do Engenho Campina Grande, que deu origem ao bairro do Engenho Velho de Brotas em Salvador. Detentora de uma grande fortuna, Rosa Ladislau faleceu em 17 de abril de 1874, sendo mais uma entre tantas guerreiras baianas que atuou na Guerra da Independência. Como sabemos, os povos originários tiveram importante participação no conflito, e não podemos esquecer de um dos mais emblemáticos heróis da guerra, o caboclo tupinambá da Vila de Abrantes, Joaquim Eusébio de Santana, e os negros livres e escravizados que atuaram nessa labuta.
O recrutamento de escravizados para compor a tropa dos patriotas, de acordo com o historiador Hendrik Kraay em estudo intitulado “Em outra coisa não falavam os pardos, cabras e crioulos”: o “recrutamento” de escravos na guerra da Independência na Bahia. Ele afirma que a extrema necessidade obrigou a aceitação de não brancos no grupamento do exército patriota e que o recrutamento de cativos foi uma medida improvisada pelo comandante brasileiro, mas que não havia promessas de liberdade para esses “cativos combatentes”.
Antes mesmo do alistamento de escravizados, o general francês, Pierre Labatut, recrutou e alistou escravizados de proprietários de terras portugueses que haviam fugido da região do recôncavo, sendo seus cativos confiscados para combater na guerra. De acordo com o livro de óbitos da freguesia de Mata de São João – 1813-1845, folha 114v. – Labatut ordenou, no dia 17 de maio de 1823, o fuzilamento do escravizado crioulo Anselmo, de 35 anos, cativo do alferes Joaquim Ignácio.
Após o término do conflito o governo brasileiro mandou alforriar os cativos que serviram na guerra com compensação financeira, ou seja, mediante o pagamento de uma indenização para seus antigos senhores. Esse episódio tornou-se um problema para as autoridades baianas devido ao alto contingente de escravizados que se alistaram para atuar no conflito.
Depois de um decreto imperial e muitas controvérsias com os escravistas, os cativos combatentes foram libertados. O historiador Hendrik Kraay, no estudo referido anteriormente, afirma que “os escravos-soldados cuja condição liberta foi enfim reconhecida ficaram como soldados na guarnição do exército brasileiro em Salvador, mas sua presença incomodava muito as autoridades”.
É oportuno ressaltar que, mesmo com a Independência do Brasil tendo sido conquistada com forte presença e atuação dos escravizados, a classe dominante brasileira conservou o sistema escravista como sua base de produção, mantendo quase metade da população escravizada.
Através dos livros de óbitos das freguesias de Monte Gordo – 1818-1855, folhas 26v. e 31 e do livro de óbitos da Freguesia de Abrantes 1812-1840, folha 47 – identificamos registros de óbitos de dois veteranos mestiços da independência e um negro que representaram o Recôncavo Norte na guerra. Nessa perspectiva distinguimos a identidade de dois soldados pardos e um crioulo, ou seja, esse último era filho de africanos nascido no Brasil. O primeiro a ser identificado foi Pedro Francisco das Chagas, falecido no dia 29 de novembro de 1824, um ano e quatro meses após o glorioso dia Dois de Julho de 1823.
Pedro das Chagas era pardo, solteiro e tinha, aproximadamente, 22 anos, servia como soldado do Segundo Batalhão da Bahia e estava destacado no Ponto Militar do Cantagalo, distrito da Freguesia de Monte Gordo. Ele morreu vitimado de tísica e, de tão pobre que era, foi sepultado por caridade na Igreja Matriz do São Bento de Monte Gordo.
O segundo soldado foi Joaquim Pereira, falecido no dia 26 de junho de 1825, pardo, solteiro e maior de 40 anos. Ele era soldado do Regimento de Artilharia da Bahia, estava destacado no Ponto da Taboca, distrito de Monte Gordo, e foi sepultado por caridade, vestido com seu uniforme militar, na Igreja Matriz de Monte Gordo.
O último dos três veteranos morreu no dia 11 de maio de 1839, 13 anos após a guerra da independência. Esse era o combatente crioulo, Elias de São Bernardo, que provavelmente conquistou sua liberdade aos 37 anos, falecendo com, aproximadamente, 50 anos, tendo desfrutado mais de uma década da sua vida como um homem livre da escravidão. Ele era solteiro, servia como soldado de primeira linha no Ponto do Jauá e foi sepultado na Igreja Matriz do Espírito Santo de Abrantes.
Estudos historiográficos contemporâneos destacam que o processo de independência teve a participação de diversos atores sociais que seguem invisibilizados pela dita história oficial como negros livres e escravizados, indígenas e mulheres, mantendo marcas da exclusão estrutural ao longo de mais de dois séculos de consolidação da independência.
O Brasil ainda luta contra as mais diversas formas de exclusão social, econômica e, sobretudo, da omissão do protagonismo histórico, que é um processo de apagamento, invisibilização e marginalização de determinados grupos sociais cujas contribuições e resistências foram e são historicamente marginalizadas ou apagadas das narrativas e celebrações oficiais. Ao conseguir inserir Camaçari e o Recôncavo Norte da Bahia através da reparação histórica na rota do Fogo Simbólico do Dois de Julho, eu disse não! Ao apagamento histórico e a marginalização, esse é o papel social da historiografia. Por essa razão, eu utilizo a história como um instrumento de correção de danos a uma coletividade que ainda precisa despertar e enxergar o seu protagonismo e dos seus.
Diego de Jesus Copque diegokopke@gmail.com é professor, historiador, pesquisador da história da Bahia, sócio do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e autor dos livros Do Joanes ao Jacuípe: uma história de muitas querelas, tensões e disputas locais, A presença do Recôncavo Norte da Bahia na consolidação da Independência do Brasil e De Benedicta & Tibério a Mãe Stella de Oxóssi: a vida em tempo de viver (1850–2025).
Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade do autor
6maio2026